domingo, 15 de setembro de 2024

Drácula (1979) - Os Embalos de Sábado à Noite Nunca Foram Tão Assustadores

 

Alguns personagens nunca se afastam das telas de cinema durante muito tempo.

Tarzan, Sherlock Holmes e até Godzilla volte e meia (ou quase sempre) estão aí aparecendo na sala de cinema mais próxima, retratados nem sempre da maneira mais fiel para o qual foram pensados, e em geral falhando por causa disto.

Mas há exceções! E é sobre uma destas exceções que este artigo trata... Drácula do diretor John Badham!

Nos anos 1970 a chamada “sétima arte” havia passado pelo maior “sacode” que teve em sua história até os dias atuais. E em 1979 parecia que o cinema tinha sido virado de cabeça para baixo e depois pelo avesso.

Num exercício rápido de memória não é difícil lembrarmos de Tubarão (1975), Guerra nas Estrelas (1977), Superman (1978) só para citarmos os chamados blockbusters, além de outras produções que marcaram época e remodelaram os conceitos de seus subgêneros como O Exorcista (1973) e Agarre-Me Se Puderes (1977).

Mas em 1979 a Universal Studios decidiu apostar no clássico personagem de Bram Stoker, baseado no real Vlad O Empalador, nosso vampiro-mor, o Conde Drácula.

O diretor John Badham

Para tal empreitada convocaram John Badham, diretor que naquele momento estava mega-hypado devido ao sucesso de “Os Embalos de Sábado à Noite”. Uma escolha que aos olhos de qualquer fã do gênero deve ter parecido louca na época, mas que rendeu um filme com características singulares até então.

Para deixar bem claro (apesar que creio que você que está lendo já deve ter percebido), esta adaptação passa longe da estória original do romance de Bram Stoker.

Mas o que ela não tem de fidelidade ao original, compensa e com sobras para aqueles que gostam de um bom filme.

No quesito elenco, temos no papel-título nada menos que Frank Langella, que se você acompanha o blog sabe o quanto este humilde escriba é admirador, por sua capacidade de transmutar os personagens que interpreta, dando-lhes formas até então únicas, como nos casos do Zorro (já resenhado aqui) e do Esqueleto (sim, o do filme Mestres do Universo).

Frank Langella é Drácula

E para o papel de seu arqui-inimigo, Abraham Van-Helsing, nada menos do que aquele que por muitos é considerado o maior ator da história, Laurence Olivier, que é sempre lembrado por seu Zeus em “Fúria de Titãs”.

Laurence Olivier é Van Helsing

Papel que acabou sendo herdado, já que carismático Donald Pleasence recusou-o, pois não queria que sua atuação pudesse ser associada à do Dr.Loomis de “Haloween” realizado no ano anterior, ficando então com o papel do Dr.John Seward, diretor de um manicômio (pessoalmente acho que acabou trocando seis por meia-dúzia, mas deixa para lá).

Donald Pleasence é o Dr.Seward

E como se isto fosse pouco, John Williams, o mago da música, ficou responsável pela criação da trilha sonora, e de seu tema principal, que pode se considerar que está para Drácula como o tema que criou um ano antes está para Superman.

O mago John Williams criou a trilha sonora

Na estória, que foi roteirizada por  W.D.Richter (Invasores de Corpos), a escuna Demeter naufraga na costa da Inglaterra após seus tripulantes tentarem se livrar carga que levavam, pois julgavam estarem amaldiçoados.

Em terra, de seu quarto, Mina Van Helsing (Jan Francis), que aqui é filha de Abraham Van Helsing, e que estava em visita a sua amiga Lucy Seward (Kate Nelligan), vê a cena, e sai em busca de algum sobrevivente, encontrando apenas um homem caído entre as pedras.

Ainda que estranhando que os tripulantes do navio estivessem mortos, alguns deles com a garganta dilacerada, o homem é levado para a Abadia Carfax, que havia sido comprada pelo mesmo.

O filme em momento algum cria uma aura de mistério neste ponto, deixando bem claro que aquele homem era sim o Conde Drácula da Romênia e todos sabiam disto, e que os locais só não sabiam de sua “identidade secreta”, digamos assim.

E aqui começamos a entrar nas peculiaridades que tornaram algo singular na época, pois é nítido que este Drácula de 1979, é sobretudo focado na figura do conde, e não do vampiro, assim como o Zorro de 1974, também interpretado por Langella, já resenhado aqui, que é nitidamente mais focado em Dom Diego que no personagem título.

Tal abordagem talvez tenha acontecido devido a exigência do próprio ator, que disse que só faria o papel se não aparecesse com dentes caninos pontudos e nem com sangue escorrendo da boca.

Se tal exigência foi apenas um capricho, ou uma visão de Langella de que deveriam se afastar do estereótipo criado sobretudo pela versão de Christopher Lee nos filmes da produtora Hammer, talvez nunca saibamos, mas uma coisa eu afirmo, funcionou de maneira brilhante, pois deixou o filme livre para realizar suas cenas mais assustadoras através de seu elenco de apoio.

As cenas do manicômio inclusive são particularmente incomodas em alguns momentos, talvez ou principalmente, por retratar como eram tais instituições na época em que se passa o filme -1913 - sem ter o viés fantástico como “escada”.

E até meio escatológicas. Que o diga Renfield (Tony Haygarth) que ao acordar, depois que foi atacado pelo vampiro na forma de morcego, passa a ser seduzido por uma vontade peculiar de se alimentar de baratas.

Chamando a atenção para outra característica do filme que é a forma como as vítimas de Drácula acabam tendo efeitos colaterais diferentes, após serem atacadas.

Como no caso de Mina, que é dada como morta e acaba num estado de zumbi, na talvez mais impactante cena da película, quando Van Helsing e Seward vão até o túmulo da moça, e o professor Helsing desce até a catacumba onde deveria em tese estar o corpo de Mina, mas tem um “encontro imediato do pior grau” com a filha.

Uma cena que dizem ter sido terrível para Laurence Olivier que tinha acabado de perder a filha na vida real pouco tempo antes, o que aliás fica um tanto exposto nas feições do ator, que não estava muito bem de saúde à época das filmagens.

Mas calma que as particularidades deste Drácula não terminaram, pois como citei alguns parágrafos acima, este filme é sobretudo a respeito do conde e não do vampiro. Nos mostrando pela primeira vez um Drácula sedutor, extremamente autocentrado, com um semblante absolutamente normal, bem afastado por exemplo, da alegoria que Francis Ford Copolla fez Gary Oldman interpretar anos depois.

E que fora seus poderes, como se transformar em lobo, morcego ou em nevoa, pasmem, possui controle da mente. E não, não me refiro simplesmente à uma mera hipnose como descrito em algumas obras, mas sim controle da mente, algo que fica claro ter sido inspirado em “Guerra nas Estrelas”.

E não, este escriba não enlouqueceu, pois em determinado momento o conde da Transilvânia, para liberar Lucy de seu controle, faz exatamente o mesmo gesto com dois dedos que Obi Wan Kennobi (Alec Guiness) fez dois anos antes no filme de George Lucas.

Apesar da vontade inicial do diretor John Badham de fazer de seu “Drácula” uma homenagem explicita aos antigos filmes de terror, filmando em preto e branco, a Universal barrou a ideia.

Mesmo assim, ainda que “competindo” com ao menos mais dois filmes de vampiro lançados no mesmo ano (a saturação é um caminho bem curto para o fracasso nestes casos), a comédia “Amor à Primeira Mordida” e “Nosferatu”, alcançou o destaque merecido.

Portanto, mesmo que você (assim como eu), não seja muito fã do gênero, Drácula de John Badham é um filme obrigatório, de um diretor que com o passar dos anos mostraria toda sua versatilidade, como no já resenhado aqui “Trovão Azul", "Jogos de Guerra", "Tocaia" e tantas outras produções.

Fazendo aqui um filme de terror inteligente numa época em que as produções do gênero não tinham ainda ficado banalizadas pelos chamados filmes de slashers,  merecendo muito ser redescoberto pelas novas gerações.

E que não duvido, se surpreenderão, com a visão de Langella descendo por uma parede como um morcego na parede de uma caverna. Ganhando suas mentes ao ponto de torcerem pelo vampiro na sequência final deste clássico.



domingo, 18 de agosto de 2024

2020 - Japão Submerso

 

Se existem duas coisas certas neste mundo, são que o Japão sofre mais com terremotos na vida real do que com o Godzilla na ficção.

E que cedo ou tarde, este humilde escriba ainda que tente não fazer, acabará escrevendo alguma resenha movido pela mais pura indignação ao ler e/ou assistir algumas opiniões tão estafúrdias que me fazem questionar se ainda há de fato vida inteligente no chamado meio geek, nerd ou deem o nome que quiserem.

Pois basicamente é em razão disto que decidi escrever sobre a animação nipônica “Japão Submerso”.

“Japão Submerso” é mais uma adaptação do livro “Japan Sinks” de Sayo Komatsu, lançado originalmente em 1973.


         E que já havia ganho versões anteriores não só em mangá como em live action, além de mais uma versão posterior a esta animação.

Versão live action de 2021

Dirigido por Masaaki Yuasa, esta minissérie em animação parte do fantasma que ninguém cogita que possa ocorrer, que seria uma série de grandes terremotos que atingiriam o arquipélago japonês de maneira impiedosa, e logicamente, apocalíptica.

Masaaki Yuasa

Causando uma destruição impensada até pelos mais pessimistas, e que teria como consequência o afundamento da maior parte do país, devido a movimentação das placas tectônicas.

Bem, creio que se você se interessou em ler este artigo muito provavelmente já assistiu ou já ouviu falar desta animação que está no catálogo de um conhecido serviço de streaming.

Mas caso não, posso já adiantar aqui duas coisas, espere o inesperado mesmo que pareça fora de contexto (pois as vezes até é um pouco), e não se apegue muito a nenhum dos protagonistas.

A família Mutoh e sua vozes originais

Nossa estória começa num dia comum (eu sei, é clichê, mas faz parte), num Japão que se preparava para receber as Olimpíadas. Sim, eu disse se preparava, ou seja, as Olimpíadas ainda não haviam ocorrido, ao contrário do que dizem 99% dos resenhistas por aí.

Olimpíadas que lógico, não iriam mais acontecer.

Aqui é preciso salientar que a produção da animação se iniciou bem antes do advento da pandemia de COVID-19, portanto, qualquer coincidência é mera semelhança.

Somos então de forma absolutamente aleatória apresentados a família Mutoh. Cada um em uma situação distinta, mostrando uma família que ainda que não seja fragmentada, e se goste muito, está distante do estereótipo nipônico, algo que em diversas situações é abordado ao longo do roteiro.

O pai, Koichiro, é um trabalhador da construção civil (atenção para o detalhe das Olimpíadas que ainda iam acontecer).

A mãe, Mari, é de origem filipina, e a personagem mais altruísta da trama, aquela que de fato, seja com gestos simples (ainda que na mente de alguns resenhistas possam parecer sem propósito), ou em grandes atitudes, procura sempre proteger aqueles que estão ao seu redor.

E os dois filhos. Go um garoto que vive soltando frases em inglês e possui aversão a ter que morar no Japão, enquanto usa a internet para se relacionar mais com pessoas de outros países que interagir com um vizinho por exemplo. E Ayumi, uma jovem  aspirante promissora a seguir carreira no atletismo, que pode ser a grosso modo considerada a principal protagonista da animação.

Separados no começo de toda a tragédia, a família logo se junta e parte numa jornada sem destino, na única intenção de sobreviver, juntamente com mais alguns agregados, que também sem ter para onde se juntam nesta “viagem para lugar nenhum”.

E não, esta expressão não é um exagero, pois de fato era isto que o arquipélago japonês estava se tornando.

A verdade é que não há muito como falar da estória de “Japão Submerso” sem fazer com que emerjam vários spoilers. Mas alguns pontos sobre a trama que parecem equívocos aos olhos dos “especialistas” (argh!) em resenhas precisam ser salientados.

O primeiro e mais obvio de todos é que apesar de seus ganchos emocionais, a jornada imposta aos protagonistas é sobretudo de sobrevivência, e não de autoconhecimento, ainda que por ventura alguns acontecimentos possam conter tal enfoque.

Portanto, não se indigne se por acaso uma ou outra atitude de algum protagonista, pareça aos seus olhos errada. Pois, “Japão Submerso” não tem a pretensão de nos mostrar altruísmo o tempo todo, e sim mostrar como eventos extremos podem gerar o que há de melhor, mas as vezes também de pior no ser humano. Não porque sejam maus em sua essência, mas pela simples questão do medo, e como reagem quando expostos a pressão de um evento  extremo.

Ainda que o roteiro pudesse ter sido melhor desenvolvido no aspecto emocional em algumas situações.

O que não quer dizer que o mal e o bem não apareçam em lugares e pessoas que menos se espera.

Como no caso da tentativa de estupro sofrida por Nanami, numa situação que tive o desprazer de ver resenhas que diziam ser forçada.

Às vezes acho que de fato estes resenhistas de obras deste gênero, criados na base do Playstation e leite de caixinha, vivem numa bolha. Com uma preguiça extrema de travar contato com a realidade, pois num caso como este, é só lembrarmos dos diversos casos de violência sexual ocorridos em espaços coletivos como ginásios, durante a passagem do furacão Katrina nos Estados Unidos.

Ou no caso do personagem Daniel, um artista de rua, que parece ser a última pessoa que se deveria dar carona numa situação como aquelas, mas que se mostra uma pessoa boa.

Assim como Kite, um dos ídolos de Go, um youtuber de esportes de aventura, que se une ao grupo, e que com seus conhecimentos de sobrevivencialismo se torna uma ferramenta valiosa na jornada.

Aqui vale mais um parêntese nesta resenha, pois não sei se foi intencional, mas o fato é que todos os personagens do núcleo principal possuem alguma habilidade e/ou conhecimento que se mostra útil em algum ponto da trama, até mesmo o menino Go, que pela internet conversando com um amigo virtual na Estônia consegue obter informações do que de fato estava ocorrendo (eita internet boa!), e o cientista tetraplégico que o grupo passar a levar consigo.

Todos menos Ayumi, que em tese deveria ser a protagonista central, e pela qual através de “seus olhos”, toda a tragédia deveria ser contada, e que se mostra um verdadeiro peso morto, portanto, não se surpreenda se por diversas vezes você sinta raiva da adolescente.

E por falar no cientista tetraplégico, não dá para deixar de citar aquele que é o maior equívoco do roteiro, quando nosso grupo de sobreviventes acaba indo parar numa comunidade utópica chamada Shen City.

Tudo bem que este evento cria uma pausa para que coisas como o sentimento de luto e alguns questionamentos possam ocorrer para os personagens. Mas no fim das contas acaba sendo um recurso narrativo que cria uma incômoda barriga no roteiro, jogando no meio do sarapatel, até uma criança com supostos (ou verdadeiros, não sei) poderes mediúnicos.

Contudo, como saldo final, “2020 - Japão Submerso” é um sopro de vida inteligente na saturada atmosfera das animações nipônicas dos últimos anos, repleta de personagens porcamente criados em simulacros de roteiro apenas para mostrar cenas esporrentas com a intenção de criar hype numa audiência rasa.

Tendo inclusive a coragem de abordar temas bem caros aos nipônicos, como a tal da “raça pura” e o preconceito travestido de patriotismo.

E que apesar da quantidade ímpar de desgraças que ocorrem no desenrolar de sua trama, algumas que de fato surgem do nada, aparentemente apenas para causar mal estar, se mostra em seu final algo incrivelmente edificante, que sim, na humilde opinião deste escriba merece uma conferida.



 

sábado, 20 de julho de 2024

Godzilla Minus One

 

Ao longo dos últimos setenta anos, várias e várias foram as versões para o clássico kaiju criado em 1954 no clássico filme dirigido por Inishiro Honda, e que teve os efeitos visuais a cargo do mestre Eiji Tsuburaya.

De filmes nipônicos de qualidade as vezes bastante duvidosa, ainda que bem divertidos, até as versões estadunidenses que foram da clássica série de animação da Hanna-Barbera, passando pela absurda e bizarra representação de 1998, até a sua versão mais atual no chamado monsterverse da produtora Legendary, Godzilla se sedimentou como talvez o maior pilar da cultura pop nipônica.

Mas eis que em 2023, em meio a balbúrdia gerada por mais um encontro de Godzilla com King Kong em sua versão estadunidense, eis que lá de sua terra natal mais um filme sobre o kaiju, filho bastardo da era atômica, e anti-herói muito antes deste conceito se difundir foi anunciado.

Era Godziila Minus One!

Admito que ao ver seu primeiro trailer fiquei bastante impressionado com as imagens, e até mesmo empolgado (coisa rara para este escriba hoje em dia), ainda que soubesse que a tarefa de recontar a estória original do filme de 1954 não pudesse ser limitada a meros efeitos visuais bem feitos.

Só que antes de entrar em seu espetacular roteiro, repleto de nuances, subtramas e citações históricas que com certeza a maioria do público não deve ter conseguido perceber, preciso falar um pouco da parte técnica, coisa que em geral deixo para uma segunda parte de resenhas como esta.

O diretor Takashi Yamazaki

A empreitada de Godzilla Minus One foi dada ao talvez mais badalado diretor japonês da atualidade, Takashi Yamazaki. Que ainda que não fosse famoso mundialmente, tinha em seu currículo títulos como o live action da “Patrulha Estelar” de 2010, “Zero Eterno”, e “A Guerra de Archimedes” que conta sobre justamente o projeto de construção dos encouraçados da classe Yamato.

Outros filmes dirigidos por Yamazaki antes de Godzilla Minus One

Yamazaki, que começou sua saga no cinema como técnico de efeitos visuais, cunhou sua fama por entregar filmes tecnicamente impecáveis, com orçamentos que mal pagariam o serviço de catering de uma super produção estadunidense atual, o que em “Godzilla Minus One” não foi diferente.

Ou será que foi?

Sim Foi!

Lógico que você está lendo deve saber do Oscar de efeitos visuais que Godzilla Minus One levou para casa, que pode ser de certa forma uma indireta bem direta para os absurdos gastos em produções hollywoodianas que entregam resultados pouco satisfatórios pelo tanto de propaganda que fazem.

Mas aqui temos bem mais do que convincentes efeitos visuais. Temos tudo aquilo que Hollywood quase nunca conseguiu equacionar em suas produções sobre monstros gigantes, somado ao fato de que este filme é um dos melhores dramas pós-guerra que este humilde escriba já teve o prazer de assistir.

A saga de Godzilla Minus One começa em 1944, quando um jovem piloto chamado Koichi Shikishima (Ryunosuke Kamiki), que tinha sido designado como piloto kamikaze, resolve não cumprir sua missão suicida, e simula um defeito em seu avião, pousando numa ilha que servia de ponto de manutenção de aviões.

E sua farsa ainda que não passando despercebida por Tachibana (Munetaka Aoki), chefe dos mecânicos do lugar, parece ter funcionado, já que o militar, imaginando o fim eminente do conflito e o que estava por vir ao seu país, esconde o segredo do piloto, ao mesmo tempo que se mostra cético e questionador sobre determinados dogmas que precisavam seguir.

Só que a única coisa que o senhor Tachibana não podia imaginar é que naquela noite, em meio aos sons distantes da guerra, a ilha receberia a visita furiosa do dinossauro que mais tarde se tornaria Godzilla.

Que logicamente acaba provocando a reação dos militares, e a não reação de Shikishima, que mesmo sob apelos de Tachibana para que usasse as armas de seu avião contra a criatura, hesita.

Aqui é preciso abrir um pequeno parêntese para salientar a sagacidade do roteiro, que ao mesmo tempo que sacia a vontade do espectador de ver logo um monstrão esmagando e destruindo o que está pela frente, algo que faltou por exemplo no filme estadunidense de 2014, estabelece também o que viria a ser a premissa central sobre seu protagonista humano, que passa a conviver com uma brutal sensação culpa.

Deixando claro para o espectador que a despeito do monstro, da destruição e da pirotecnia, a questão humana e seus dramas estariam no centro da trama.

Característica esta que se escancara de vez quando Shikishima retorna para casa já em 1945. Uma Tóquio devastada, que mais parecia um imenso lixão a céu aberto, no qual as pessoas tentavam sobreviver do resto dos restos.

Mas como desgraça pouca é bobagem, além de nosso protagonista descobrir através de uma vizinha, Sumiko (Sakura Ando), que os pais haviam morrido, ainda é confrontado pela mesma, que tomada por um misto de perplexidade e frustração o questiona do por que não ter cumprido sua missão, ou seja, se matar, para defende-los do inimigo, aumentando os fantasmas de culpa que lhe atormentavam.

Aqui preciso muito abrir mais um parêntese nesta resenha (acho que serão vários), pois por mais de uma vez durante o filme há referências apenas em diálogos, e de forma implícita, a um dos mais terríveis capítulos da Segunda Guerra Mundial, o bombardeio à Tóquio.

O bombardeio a Tóquio foi a primeira vez na história em que foram usadas bombas de napalm (espécie de gelatina de gasolina) com espoletas barométricas. Algo que aumentava em muito o poder de destruição dos artefatos, criando praticamente uma versão real do apocalipse da Bíblia, na qual literalmente chovia fogo do céu. Detalhe este que passou batido pelo público em geral e por todos os resenhistas da web, mesmo aqueles que abordaram o filme pelo viés militar.

Mas calma, que a bagunça na vida de nosso amigo Koichi Shikishima só tinha começado, já que logo depois ele acaba recebendo uma bebê das mãos de uma moça chamada Noriko (Minami Hanabe, o grande destaque do elenco) que fugia de um grupo de pessoas, que aparentemente queriam linchá-la por acharem ser uma prostituta, já que trajava um quimono típico das gueixas que prestavam este de serviço.

Bebê que Shikishima depois descobre que nem era da jovem e que ela passou a cuidar após o pedido da mãe verdadeira que nunca tinha visto antes (atenção para mais uma citação ao bombardeio a Tóquio aqui).

E assim estes três seres sem expectativas formam uma família totalmente fora de qualquer padrão da sociedade da época, munidos apenas de vontade, se apoiando mutuamente e sendo assombrados pelos fantasmas de Koichi, que o impediam de seguir em frente com partes importantes da vida, como assumir a relação com Noriko.

Provavelmente você que está lendo, deve já estar se perguntando agora: Cadê o Godzilla?

Pois bem, neste meio tempo acorrem os testes atômicos no pacífico que transformariam aquele dinossauro que surgiu na ilha no Godzilla que conhecemos.

E aqui preciso dizer que talvez resida o único ponto de todo filme que eu mudaria, já que a transformação, a mutação do lagartão, foi sobretudo um processo muito dolorido, que ainda que não deixe de ser mostrado, é feito de forma tão breve que com certeza acaba não sendo captado da forma correta por boa parte do público, que não se dá conta do que de fato nosso querido Zilla acaba se tornando ainda que de forma metafórica, ou seja, um instrumento de vingança da natureza diante da arrogância humana.

Enquanto isso nosso amigo Koichi Shikishima depois de muito batalhar consegue um emprego que pagava muito bem, integrando a tripulação de um barco que tinha como missão limpar as águas do Japão das milhares de minas que nelas foram depositadas. Tanto pelos japoneses na intenção de barrar o avanço estadunidense, como pelos norte-americanos que durante a guerra pretendiam impedir a chegada de suprimentos ao arquipélago nipônico.

Só que estas minas após serem descobertas eram desativadas na base da bala mesmo, e é aí que a coisa toda começa a desandar de vez, pois aquele explode mina daqui, explode mina dali, acaba por mais uma vez despertar a fúria do agora atômico Godzilla, que estava até então quieto no seu canto. Portanto, ao contrário de algumas resenhas que permeiam a web, há sim razão para o ataque do lagartão, que é bem provocado e enfurecido pela ação humana.

O que aliás me faz lembrar as palavras de um professor de ciências que disse: A natureza não se defende, a natureza se vinga.

E esta sequência dentro do barco, não tem jeito, é clara sua inspiração em “Tubarão”, e não há como não vir na mente de qualquer fã de cinema a clássica frase de Roy Scheider: Vai precisar de um barco maior.

Mas nada que supere o terror e espetáculo do que é a chegada de Godzilla à Tóquio.

Talvez o ponto que mais incomoda este humilde escriba nos filmes do chamado “Monsterverse” da Legendary, é com certeza a destruição inconsequente de cidades inteiras como se aquilo fossem bloquinhos de montar de um brinquedo infantil.

Mas aqui a coisa é muito diferente.

Seja porque tivemos todo um roteiro que soube explorar cada nuance de seus protagonistas, até mesmo com breves pitadas de humor nos momentos certos, ou porque tudo que é mostrado do Japão destruído no pós-guerra nos fazem sentir o desespero das pessoas diante de algo que não tinham como controlar.

Numa sequência absurdamente perfeita, que já sai do lugar comum ao se passar durante o dia, coisa que a maioria dos filmes do gênero foge, seja por uma escolha da direção ou porque fica mais fácil mascarar qualquer imperfeição num cenário mais escuro.

E que culmina não com um close no personagem título, mas sim em Shikishima, num grito de raiva, impotência e desespero, logo após Godzilla terminar seu festim de terror com sua baforada atômica, numa conclusão que remete diretamente ao que ocorreu logo após os bombardeios à Hiroshima e Nagasaki.

Tive o desprazer imenso em travar contato com algumas resenhas que torciam o nariz para a representação de Godzilla deste filme, alegando efeitos visuais pobres, talvez provocados pela falta de verba, dizendo por exemplo que o lagartão não tinha movimentos desenvoltos e pouca expressão no rosto.

Nem imaginavam na época que o filme ganharia o Oscar nesta categoria (risos).

Yamazaki e Christopher Nolan com seus Oscars

O que me leva a crer o quanto a atenção destes ditos “entendedores”, e capacidade de raciocínio, foram empanadas pelos artífices da indústria, enquanto só objetivam sua busca desenfreada por “curtidas” e “seguidores”.

Pois vamos pensar aqui. Estamos falando de um réptil com o peso aproximado de vinte mil toneladas (este peso é citado durante o filme). E seria ridículo dentro do contexto deste filme um ser destes, com a expressividade de uma Meryl Streep e a desenvoltura de um Jean-Claude Van Damme em começo de carreira.

Portanto mais um ponto para Takashi Yamazaki, que fez a escolha certa, para seu filme, que ruma para seu ato final, quando um grupo de veteranos de guerra e indivíduos da população civil se une num plano para lá de louco para matar Godzilla, que tem como ponta desta lança justamente Shikishima, que parte enfim para enfrentar seus fantasmas e medos, a bordo de um caça Kyushu J7.

Um verdadeiro Kyushu J-7 em foto da época

Caça que de fato existiu ainda que não tenha passado do estágio de protótipo, e que ao contrário do que muitos que já assistiram o filme possam ter pensado tem sim algumas características inovadoras para época que os japoneses conseguiram trazer da Alemanha, mas que não vou contar aqui para não estragar a experiência, caso você que está lendo não tenha ainda visto o filme.

Até poderia colocar aqui uma ressalva sobre este filme maravilhoso no que concerne a parte da mea culpa nipônica em seus atos durante a Segunda Guerra, que se limitou apenas de forma tímida em criticar como os militares de patente mais baixa foram usados como “bucha”, mas seria algo forçado para um filme que possui sim contornos de obra-prima, e que fez até Steven Spielberg se render a sua trama e talento de seus realizadores.

Até Spielberg se rendeu à Godzilla Minus One

Esta é uma resenha que demorei a fazer, e que sei, ficou bem longa.

Mas que agora ao redigir suas últimas linhas o faço com alma lavada e espírito renovado, na certeza que assisti ao melhor filme de monstro já feito na história e que a despeito de seu fio condutor inverossímil, é sim também, um dos melhores dramas de guerra ou pós-guerra que já foram feitos.

Tornando Godzilla Minus One um absoluto ponto fora da curva para o cinema atual, que precisa e muito entender, que uma base ainda que simples, mas com emoções e motivações bem trabalhadas, num roteiro verdadeiramente inteligente, é o que sempre farão a diferença, deixando sua marca nas retinas, mentes e corações do público.



 

domingo, 23 de junho de 2024

Os 10 Melhores Filmes da DC

 

Já faz algum tempo, que foi publicada aqui no blog uma lista com aqueles que seriam os 10 melhores filmes tirados dos quadrinhos da editora Marvel.

E lógico que um dia o mesmo ter de ser feito com sua coirmã, a DC Comics.

Portanto, aí vem eles, os...



Os 10 Melhores Filmes da DC!

 

10 – V de Vingança:


A despeito da opinião de Alan Moore sobre esta adaptação, a verdade é que ela consegue sim capturar, ao menos em sua maior parte a ideia do que autor quis passar. Lógico que como em qualquer adaptação do gênero, precisou sacrificar um pouco de sua profundidade em razão da fluidez que o cinema exige, mas isto não tira em nada seus méritos.



09 – Constantine:


Nenhum personagem na história dos quadrinhos, se beneficiou tanto de uma adaptação em live action como John Constantine. Surgindo pela primeira vez nas páginas da revista do Monstro do Pântano, ganhou depois seu próprio título, “Hellblazer”, Contudo, após o filme protagonizado por Keanu Reeves, viu sua popularidade crescer de forma exponencial. Tanto que após a reformulação do universo da editora em 2011 conhecida por “Novos 52”, passou a ser o líder da chamada “Liga da Justiça Sombria”.



08 – Superman II The Richard Donner Cut:


Só não coloco esta joia do gênero de super-heróis numa posição melhor pois tenho quer ser coerente com o fato de ter um final “mais do mesmo” que de fato atrapalha um pouco da experiência de assistir. Ainda que hoje, através da declaração dada pelo ator Jack O’Halloran, o Non, saibamos que por culpa da Warner, Richard Donner não conseguiu lançar seu filme exatamente da forma que tinha planejado mais de vinte anos antes.



07 – Batman O Cavaleiro das Trevas Ressurge:

Nem vou me estender em muitos comentários sobre a terceira parte da saga dirigida por Christopher Nolan, já que cada um de três filmes ganhou um artigo para si aqui. Portanto se quer saber mais detalhes é só clicar no link abaixo.

Batman - A Trilogia (parte 3)




06 – Aquaman:


De personagem chacota à bilheteria de mais de um bilhão de dólares. A saga de Arthur Curry é um filme que apostou sim numa forma simples, mas o fez a perfeição, referenciando em sua narrativa sobretudo o cinema dos anos 1980. Coisa que muitos tentam, mas poucos conseguem, e para o qual até fizemos um vídeo no canal do blog no Youtube.



05 – Batman Morrer é Muito Fácil:


Da mesma forma que na lista da Marvel tivemos a presença do ótimo “Dirty Laundry”, aqui temos este curta-metragem que é uma lição para muitos reinventores da roda para que aprendam a verdadeira essência do Morcego de Gotham.



04 – Mulher Maravilha:


Um filme que só é possível descrever como mágico. E para qual também há um artigo aqui no blog no qual é explicado o porquê dele ser tão especial.

Mulher Maravilha O Filme




03 – Batman Begins:


Também não vou estender em comentários sobre esta obra-prima, não apenas do gênero, como do cinema, pois há um artigo contando tudo sobre ela, que você que está lendo pode acessar clicando no link logo abaixo.



02 – Batman O Cavaleiro das Trevas:


Considerado por muitos o melhor filme de super-herói, ou baseado em quadrinhos se preferir, de todos os tempos. E que só está aqui em segundo, pois não seria correto, ao menos na opinião deste escriba, com aquele que está em primeiro.

Batman A Trilogia (parte 2)






01 – Superman O Filme:


A história deste filme por si só já daria um filme, tamanho foram os desafios que a produção, em especial o diretor Richard Donner, precisou enfrentar. É simplesmente a “Cartilha Básica”, o “Manual de Filmes de Heróis”, e um ponto fora da curva até para a história do cinema. O primeiro filme do gênero a ser preservado na Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos. E para o qual este humilde veículo de mídia já prestou homenagens tanto nesta página da web, quanto em seu canal no Youtube.

Patrulha Estelar e suas vozes inesquecíveis!

  Fazendo uma rápida pesquisa na web, não é assim tão difícil encontrar alguns artigos que citam os dubladores que nos anos 1980 na extinta ...