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quinta-feira, 24 de julho de 2025

Patrulha Estelar e suas vozes inesquecíveis!

 

Fazendo uma rápida pesquisa na web, não é assim tão difícil encontrar alguns artigos que citam os dubladores que nos anos 1980 na extinta Herbert Richers, fizeram história ao dublar o clássico Uchuu Senkan Yamato, ou como conhecemos aqui no Brasil, Patrulha Estelar.

Contudo, sempre reparei em algum detalhe que faltava, ou alguma informação não tão precisa, como o nome de algum personagem.

Sendo assim, o “Enquanto Isso na Ponte de Comando”, traz até vocês este artigo (mais ilustrado possível), que mostra as principais vozes, que fizeram (e ainda fazem) parte de nosso imaginário.

Venho com este artigo encerrar uma jornada que se iniciou em setembro de 2017. E que com a ajuda e incentivo de meu grande amigo Bernardo se tornou depois em 2019, canal no Youtube.


Quero agradecer demais a cada um de vocês, que ao menos uma vez, leram um dos artigos deste blog, ou assistiram a um de nossos vídeos no canal do Youtube.

Enquanto Isso na Ponte de Comando no Youtube



 

Muito obrigado mesmo!

 

José Carlos Sandor.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Leiji Matsumoto - Um Capitão de Sonhos!

 

Poucos foram os artistas, nos mais diversos campos das artes, que tiveram sobre mim a influência e o impacto que teve Leiji Matsumoto e foi com profundo pesar e um certo grau de surpresa que tomei conhecimento da passagem do grande e icônico mangaká.

Um artista único, influenciador de gerações que vieram após, admirado por outros criadores de personagens icônicos em toda a parte do mundo, e para o qual passo a render nas próximas linhas minha modesta homenagem.

Nascido Akira Matsumoto, em 25 de janeiro de 1938, Leiji veio de uma família muito pobre, cujo seu pai viu nas forças armadas a chance de lhes dar uma vida melhor, se tornando piloto de caça, tendo combatido obviamente na 2ª Guerra Mundial, da qual conseguiu retornar com vida.

Ainda na infância ganhou de seu pai um projetor de 35mm no qual ironicamente assistia a desenhos animados norte-americanos durante a época da guerra no pacífico, ao mesmo tempo em que “devorava” romances de ficção de escritores como o inglês HG Wells e de seu conterrâneo Unno Juza (ou Juzo), cujo nome anos mais tarde usaria em um de seus personagens mais lendários.

Contudo, como a maioria do Japão no pós-Guerra, a família Matsumoto ainda tentava se reerguer, e o sonho do jovem de se tornar engenheiro ficou de lado. E para a felicidade das gerações que ainda estavam por vir, passou a se dedicar mais ao desenho.

Em 1954 ainda sob seu nome verdadeiro, Leiji (algumas pessoas escrevem Reiji devido a pronúncia), fez sua estreia na revista Mangá Shonen (termo em geral usado para quadrinhos dirigidos ao público masculino), mas também se aventurou nas revistas voltadas para as meninas, conhecidas por shoujo, afinal, mulheres trabalhando naquele meio, naquela época era muito raro.

Mas sua primeira grande chance só veio em 1971 com Otoko Oidon, uma estória sobre um ronin, mas nada a ver com samurais, e sim um estudante que terminou o ensino médio, mas não conseguiu ingressar numa faculdade, mas que ainda pretende fazê-lo, uma situação que se passou na vida de Leiji, pois quando seu irmão mais novo, Sussumu (sim, este nome mesmo, o do protagonista de Yamato), se formou no secundário, sua família não tinha condições de enviá-lo para uma faculdade, o que fez Leiji rumar para Tóquio para trabalhar a fim de que irmão concluísse sua formação.

Mas seu primeiro sucesso se deu em 1972, quando criou uma espécie de western de humor negro chamado Gun Frontier para a revista Play Comic, ao mesmo tempo em que trabalhava numa série de contos sobre a Segunda Guerra Mundial que passariam a se chamar Battlefield e que posteriormente seria a base para a animação The Cockpit.

Até que em 1973 seu caminho se cruza com o do produtor Yoshinobu Nishizaki, e a partir daí tudo mudou.

Nshizaki e Matsumoto - União que mudaria a história

Nishizaki, que até então pouco tempo antes trabalhava na produtora do lendário Osamu Tezuka apenas como um vendedor, tinha um projeto louco que estava na pré-produção, mas que devido problemas de verba (e uma certa dose de falta de criatividade) se encontrava completamente empacado.

Na premissa criada pelo produtor, a Terra no distante futuro de 2199 vinha sendo atacada por uma nação alienígena que queria colonizar o planeta. Até aí nada demais.

Patrulha Estelar - A obra que mudou os rumos da ficção científica

Ainda nesta premissa os habitantes de nosso planeta recebiam uma mensagem vinda do espaço que dizia que era possível limpar nossa atmosfera da radiação das bombas dos invasores, só que para isto, um grupo de destemidos viajantes precisava ir até os confins da Nebulosa de Magalhães buscar o tal antídoto.

Só que toda esta jornada seria feita em nada menos que um asteroide!

Sim! Um asteroide no qual iria se colocar um motor e que serviria de nave.

Olhando então para todo aquele sarapatel, Leiji Matsumoto perguntou se poderia mexer no projeto, e com a carta branca de Nishizaki, mudou para a sempre a história das animações, da ficção cientifica e até das artes.

Nascia ali a saga do Encouraçado Espacial Yamato, conhecida aqui por nós, os habitantes de Terra Brasilis como, Patrulha Estelar.

Foi de Leiji Matsumoto a ideia de se criar a nave a partir do antigo encouraçado Yamato, assim como foi sua a criação da maioria dos personagens que vemos, já que pouca coisa foi aproveitada da ideia original do Yoshinobu, além da premissa que se tornaria “Busca Por Iscandar”, a primeiras das três séries de tevê do Yamato.

Lembrando sempre que Patrulha Estelar não foi um mangá transposto para animação, e que sua versão em quadrinhos veio a ganhar vida de forma quase que concomitante a produção do anime.

Página da versão brasileira do mangá da Patrulha Estelar

Sua dedicação a saga foi tanta que numa entrevista de 2010, Matsumoto confirmou que deu “pitaco” até em sua música, pedindo ao maestro Hiroshi Miyagawa, compositor da trilha sonora, que o tema principal lembrasse algo como o segundo movimento da Terceira Sinfonia de Bethoven.

No que então obteve como resposta do maestro um: Tudo Bem! (risos)

E suas ligações com sua vida pessoal, incluso aí o passado de seu pai como piloto, ficam bem evidentes em diversos detalhes como as setas que adornam os uniformes da tripulação do Yamato, cuja inspiração veio de uma divisão aérea que usava os aviões Nakjima Hayabusa (o nome parece familiar?), cujos esquadrões eram identificados pelas cores diferentes das setas pintadas nos lemes das aeronaves.

As setas nos uniformes da tripulação do Yamato...

..foram inspiradas numa divisão de aviação japonesa

Só que a coisa começou a azedar entre Matsumoto e Nishizaki ainda à época do longa metragem “Adeus Yamato”, aquele com a estória do Cometa Império, que no final não sobra ninguém. Contudo, com a resposta negativa do público sobre a matança promovida no longa, e o consequente “recuo estratégico” dos produtores que decidiram recontar a saga na série de tevê que tão bem conhecemos, a parceria duraria mais um pouco.


Até que em 1979 em meio a produção do longa “A Nova Viagem”, Matsumoto se desentende de vez com Nishizaki largando o barco.

O motivo? Segundo Leiji, ele era contra a mania de Nishizaki de “matar todo mundo”.

Nas palavras do próprio mangaká:

Quando crio uma estória e um personagem, coloco tudo de mim nisto. Portanto, se o personagem é facilmente morto, parece que meu filho ou meu irmão foram assassinados”.

Contudo, apesar da raiva de Matsumoto que segundo relato próprio, teria rasgado o roteiro de “A Nova Viagem”, a relação com Yoshinobu ainda que por razões comerciais se manteve dentro do que se pode considerar como algo amistoso.

Matsumoto e Nishizaki juntos em 1980 no lançamento do longa "Para Sempre Yamato"

Ao menos até 1994 quando Nishizaki lançou por conta própria Yamato 2520 gerando o a briga judicial que relatamos aqui no artigo " Ih! Deu Ruim! Alguns dos Mais Loucos Processos Judiciais da Cultura Pop!".

Ainda que afastado de sua maior criação desde 1979, Leiji Matsumoto trilhou seu próprio caminho de maneira quase exemplar.


           Criando alguns outros clássicos como “Galaxy Express 999”, “Queen Emeraldas” e o icônico “Capitão Harlock e a nave Arcadia”.

Nos planos de Leiji, o Capitão Harlock estaria em Patrulha Estelar

Capitão Harlock que diga-se de passagem, pelos planos originais de Matsumoto deveria ter feito sua estreia fora dos mangás em “Busca Por Iscandar”, mas que devido aos cortes de orçamento ficou de fora da versão final da primeira saga do Yamato.

E seu nome facilmente se tornou referência para vários artistas ao redor do mundo, como nosso Maurício de Souza, e até Gene Rodembery o criador de Jornada nas Estrelas. Ainda que reze uma lenda urbana de que na casa dos Rodemberry que de fato era fã de Matsumoto era a esposa de Gene (risos).

Matsumoto e Maurício de Souza

Sendo que nesta seara, Leiji Matsumoto possui um capítulo que creio ser único.

Estamos no ano de 2001, e lá na França (lugar em que Matsumoto é reverenciado quase que como uma divindade), a dupla de música eletrônica Daft Punk estava prestes a lançar o álbum “Discovery”. Um trabalho quase conceitual no qual os dois mascarados que compunham a dupla, pretendiam fazer uma homenagem a infância.

Só que na cabeça dos dois, só o CD não parecia algo suficiente para promover seu novo trabalho, e eis que tiveram uma ideia tão louca, mas tão louca, que mesmo eu até hoje não consigo acreditar que deu certo.

Transformar aquele novo trabalho numa experiência audiovisual. E bolaram um roteiro para um pequeno filme de ficção-cientifica. Mas calma, se a coisa fosse só isto, tudo seria muito simples.

Como o álbum versava sobre infância, por que não tentar fazer com que um dos heróis de infância da dupla aceitasse uma empreitada conjunta?

Uma junção inusitada, Matsumoto e Daft Punk

E sim! É exatamente isto que você está lendo. Munidos apenas de coragem e uma alta dose de cara de pau, a dupla foi até o Japão, e sem nenhum aviso “bateu na porta” de Leiji Matsumoto, que para surpresa deles, topou a ideia. E passou a supervisionar toda a produção do longa que foi realizada pela TOEI Animation.

Não que esta união música e animação fosse uma grande novidade em se tratando de produções nipônicas, mas nunca nada do gênero havia chegado nem perto daquilo.

E em 2003 o longa “Interstella 5555” ganhava a luz do dia, sendo a numeração do título na verdade uma brincadeira que significa a sigla, “Secret Story of Star System”.

 E se você que está lendo este artigo, acha que seja impossível dar uma voltinha em alguma nave projetada pela mente de Matsumoto vou aqui lhe dizer que isto é mais fácil do que se pensa, pois em Tóquio existe um serviço de barco chamado Himiko Cruise, que funciona tanto como atração turística como taxi, e cujo o design é criação do mangaká.

Foi condecorado com a mais alta honraria de seu país, a “Ordem do Sol Nascente”, e na França com a “Ordem das Artes e das Letras”.

Apaixonado por gatos, Matsumoto foi “papai” de uma dinastia de gatas que sempre levavam o mesmo nome “Mi-Kun”, e que o artista sempre que podia fazia questão de retratar em suas obras.

O jovem Leiji, sua esposa Miyako e Mi-Kun

Casado com a artista Miyako Maki, conhecida no Japão por ter criado a boneca Licca-Chan (equivalente a Barbie em terras nipônicas), teve uma filha, Makiko, para qual neste último dia 20 de fevereiro coube a missão de comunicar ao resto do mundo que o gênio que encantou gerações segunda suas próprias palavras: Partiu numa jornada rumo ao mar de estrelas.



 

 

 

terça-feira, 10 de maio de 2022

Patrulha Estelar - Space Battleship Yamato 2205

 

Depois de algumas idas e vindas geradas pela pandemia, enfim chega até todos nós, Space Battleship Yamato 2205.

O terceiro dos remakes do Encouraçado Espacial Yamato, tão bem conhecido aqui em Terra Brasilis como Patrulha Estelar.

E aqui estou mais uma vez tentando resumir e resenhar esta que se pretende ser a primeira parte do que sempre chamamos de “A Saga dos Golbas”.

Bem no espírito destes remakes, logo de cara (para quem está acostumado com a saga clássica) vemos que elementos que em tese só seriam mostrados mais para frente na continuidade da saga já são inseridos aqui.

Alguns estabelecendo ótimos retcons, como no caso de como o império Galman-Gamilon se forma, e que nos brinda com Deslock pela primeira vez sendo Deslock (se você é fã da saga, sabe do que estou falando), libertando os galmans das garras da Federação Polar/Bolar do qual temos apenas um rápido vislumbre.

Assim como toda uma mitologia criada para explicar a criação e ligação entre Iscandar e Gamilon.

Sem falar na explicação para Iscandar não ter uma população como em Gamilon. Aliás, explicação que tem uma parte que deve ter feito Richard Donner lá do céu, abrir um sorriso de orelha a orelha.

Outros pontos, porém, apenas só servem para gerar um hype vazio que não se justifica, como no caso de terem trazido lá de “A Crise do Sol”, Ryusuke Domon, lhe dando uma suposta razão para odiar Derek Wildstar/Sussumu Kodai, mas que começa a ruir logo no começo, quando temos pela primeira vez nestes remakes Wildstar sendo Wildstar.

Estes três últimos parágrafos talvez então possam te dar, como eu tive ao assistir, a impressão que esta nova versão para o longa-metragem “A Nova Viagem” possa ter recuperado o espírito que fez da saga da Patrulha Estelar algo diferenciado de seus congêneres.

E ainda que, no que diz respeito aos retcons, esta nova animação se mostre superior ao confuso, para não dizer desastroso, ”Yamato 2202”, a falta de noção de quando parar, acaba colocando novamente a “carroça na frente dos bois”.

Exemplo?

Bem, na saga clássica a motivação para os golbas, que aqui mudaram de nome e são chamados de dezarians (não me perguntem por que), estavam minerando o que havia sobrado de Gamilon, pois o planeta tinha minérios que serviam de combustível para suas naves. Tudo simples e objetivo.

Mas aqui mais uma vez temos uma subtrama meio confusa, na qual os golbas (Não vou chamar de “dezarians” de jeito nenhum), parecem temer a energia de ondas da qual Iscandar é sua matriz. Algo que até existe na saga original, mas que só vai ser mencionado no longa seguinte “Para Sempre Yamato”.

Ou seja, atropelaram a narrativa mais uma vez.

Não que tudo numa adaptação tenha que ser igual a obra original, lógico que não. Mas tem coisas que simplesmente só servem para quebrar o clima, e gerar o anticlímax.

Anticlímax que se reflete em pontos chaves como na sequência em que a frota comandada pelo Yamato chega para ajudar Deslock na retirada dos últimos habitantes de Gamilon.

E sim, eu disse frota, pois aqui em mais uma mirabolante e desnecessária invencionice do roteiro, resolveram separar os principais protagonistas, dando a Sandor/Sanada e Lola/Yuki, o comando de duas outras naves.

Além de diminuir drasticamente a participação de outros personagens como Venture/Shima (que não ganhou promoção), o Dr.Sam e nosso querido IQ-9, que é substituído pela presença de três outros robôs do  mesmo modelo na ponte da nave de Sandor, a Hyuga, mas que só estão lá para vias de “penduricalho visual”.

E nem vou citar o arco final, que está anos luz de distância de causar o mesmo impacto do original, já que as intenções de Starsha são explanadas durante o decorrer da aventura, para só após uma ação de resgate da tripulação do Yamato, acabar se concretizando.

Durante quase todo decorrer de “2205” são citadas, como recortes em meio a trama, questões referentes ao contínuo do tempo pelos golbas (não vou chamar de dezarians mesmo!), algo que obvio é um gatilho para o futuro da trama, mas que não deixa de colocar uma “pulga atrás da orelha”.

Isto por duas questões.

A primeira é que em “2202” já tivemos a péssima ideia do lapso temporal no centro da Terra.

E segundo que ao que tudo indica teremos o tema “viagem do tempo” no próximo remake. O que não seria nada demais, se na saga original os golbas, numa sacada de roteiro genial, já tivessem usado este plot como artífice para enganar a tripulação do Yamato.

Mas ao que parece no futuro remake, que atenderá pelo nome de “3199 Rebel” esta questão não será apenas um mero artífice. Como já deixa praticamente explícito a cena pós-créditos no fim do último dos oito episódios.

E aí vem a grande pergunta.

Rebel 3199 - Anunciado como o último dos atuais remakes

Como o futuro “Space Battleship Yamato 3199 - Rebel” fará para equacionar, viagem no tempo, os golbas (nada de dezarians) e até uma possível presença da Federação Polar, já que este já foi anunciado como sendo o último dos atuais remakes?

Então como saldo positivo de “Yamato 2205”, acredito que podemos tirar um Deslock mais próximo, ainda que tardiamente, daquilo que nos acostumamos a ver; algumas explicações bacanas, ainda que nem sempre tão necessárias; e a pouca duração deste remake, que não deu tempo para aquela espiral de “filosofia de divã” de “2202”, ainda que tenham tentado colocá-la aqui.

Na atual conjuntura das animações nipônicas, em sua maioria repletas de personagens rasos e bizarros, cheias dos piores cacoetes narrativos possíveis, não se pode negar que a nova versão das aventuras do Encouraçado Espacial Yamato não seja uma boa exceção.

Mas que ainda patina na tentativa de replicar elementos fundamentais de sua mitologia, enquanto tenta se distanciar por vezes da mesma.



domingo, 26 de setembro de 2021

Patrulha Estelar - O Filme! - 10 Anos Depois!

 

Quando em 2010 foi anunciado que enfim a saga do Encouraçado Espacial Yamato, nossa conhecida Patrulha Estelar, ganharia um filme live action, não preciso dizer que a empolgação tomou conta do peito de muita gente, incluso aí este humilde escriba. E lógico que também não preciso citar o quanto foi decepcionante, em vários aspectos, tudo aquilo que viemos a assistir.

Fora, que aqui para Terra Brasilis, acabamos sofrendo um verdadeiro caso de “estelionato cultural”, pois durante todo o ano de 2010, no site de uma grande distribuidora de filmes, o cartaz de “Patrulha Estelar” era mostrado, com data de estreia e tudo (apenas quinze dias após lançamento no Japão) no finalzinho dezembro daquele ano, e no final o filme não apenas não foi lançado, como a tal distribuidora passou a negar o ocorrido.

Mas hoje, passados mais de dez anos de seu lançamento, acredito que se faz necessário um devido retcon no modo de como este filme é visto, e porque é uma obra que merece ser revista ou até vista pela primeira vez por muitos que não a conhecem.

Orçado em 24 milhões de dólares, um valor razoavelmente relevante para os padrões do cinema nipônico, principalmente à época, e tendo arrecadado mais do dobro deste valor somente no Japão, se baseia na saga “Busca Por Iscandar” para contar sua estória.

E aqui vem a primeira questão deste retcon de como este filme é visto, pois ao contrário do que todos os admiradores da saga imaginavam e gostariam, este longa-metragem não pretende recontar ipsis literis a saga que vemos na animação, seja na série para tevê ou sua versão compactada em longa-metragem.

Ou seja, a palavra-chave aqui é: adaptação!

E é assim que acredito que “Patrulha Estelar - O Filme” precisa ser encarado, uma adaptação, quase uma obra elsewolrds que se mantém fiel à alguns aspectos do original, mas que se permite sem muitos pudores modificar outros tantos.

Isto quer dizer que tudo nestas modificações foram acertos? Claro que não.

Na parte destes “erros” (sim, coloquei aspas aí), é obvio que o mais gritante se torna a forma como os gamilons foram retratados, e em especial seu líder, Deslock, que se tornou uma espécie de “consciência coletiva”, representado na única cena que surge, numa forma humanoide de cristal que se comunica de forma telepática.

Caramba! Penso eu. Se era para fazer comunicação telepática, por que não colocar um ator ocidental numa participação especial? Talvez um dos irmãos Fienes (Joseph ou Ralph). Tudo bem, esta é uma consideração de cunho bastante pessoal, mas não se pode negar que esta breve aparição enriqueceria em muito o filme, lhe dando uma maior visibilidade para o mercado internacional.

De qualquer maneira, tirando a questão de sua forma, se formos considerar que não há na película compromisso de aprofundamento com sua personalidade (até deveria ter, mas não tem), tal “erro” é plenamente aceitável se aplicado o tal conceito elseworlds ao qual me referi, e qualquer tentativa de comparação com o que foi feito com Deslock no remake, Space Battleship Yamato 2199, como já li em comentários na web, é absurdo, já que ali há a intenção (e tempo) de aprofundar no cerne do personagem.

Outro ponto que se refere a cerne de personagens na obra, diz respeito a nossa querida Lola/Yuki Mori, e o upgrade que ganhou nesta versão. Algo que já vi com muita infelicidade alguns comentários nauseabundos, se referindo que a mudança da personagem de uma enfermeira tímida para uma piloto durona era errado. E até poderia rir de tamanha besteira se algo do tipo não representasse uma visão tão míope, medíocre e preconceituosa.

Primeiro, pois mesmo dentro da saga clássica a personagem evolui bastante ao longo das séries de tevê e longas-metragens. É só lembramos que é ela que comanda o ataque a fortaleza Golba em “Para Sempre Yamato” de 1980.  Ainda que uma participação mais efetiva da personagem, sempre tenha sido algo que a animação clássica (a nova também) ficou devendo.

 Segundo, pois para qualquer um com uma capacidade de observação que vá além do próprio umbigo, perceberá que após a “velha guarda” da tripulação e de Sandor/Sanada, ela é o membro da tripulação mais centrado, o ponto de equilíbrio na por vezes caótica relação da “tropa” e “porto seguro” de Derek Wildstar/ Sussumu Kodai.

 Há ainda a questão das mudanças de sexo de alguns personagens, algo que por um prisma pessoal costumo ser bastante avesso a ideia, já que tal subterfúgio costuma ser usado com frequência para não pagamento de direitos autorais, assim como mudanças de etnia.

Mas temos que considerar que Patrulha Estelar ao ser criada, foi numa época de atuação quase nula das mulheres em postos relevantes da sociedade nipônica, portanto tais mudanças podem ser consideradas como reflexo de nossos tempos, e que no fim das contas em nada resultaram em mudanças no conteúdo da estória.

Ainda que por ventura, todos os fãs quisessem ao menos a representação clássica do Dr.Sam/Sado. Mas pelos menos temos a Mimi/ Mi-Kun sua gatinha. Afinal até dá para aceitar um Deslock de cristal, mas a ausência de Mimi seria um ultraje infame (risos).

E por falar em upgrade, se tem uma coisa que nem o fã mais ortodoxo e xiita de Yamato reclamou, mesmo na época de lançamento do filme, foi na mega turbinada que deram em IQ-9 (ou Analyzer se preferir).

Tudo bem que nosso querido robozinho vermelho demora a surgir na forma que nos acostumamos a vê-lo, mas quando isto acontece, traz a reboque a cena mais avassaladora do filme. Mais avassaladora até que o disparo da arma de movimento de ondas.

O tipo de cena que o cinema de hoje, tão na caixinha, dificilmente consegue fazer. E que deve ter feito R2-D2 queimar vários circuitos de inveja.

Muito se criticou à época de seu lançamento sobre alguns cenários, e de fato se formos comparar com o que nos acostumamos a ver nas superproduções hollywoodianas, e o que se esperava, pensando-se nos cenários da animação clássica, estes podem parecer bastante simplórios.

Contudo, mesmo isto acabou tendo sua importância, servindo de base para o que veríamos aplicado no remake da animação pouco tempo depois.

Quanto ao roteiro em si, “Patrulha Estelar” ainda que se baseie em sua premissa na primeira série de tevê, “Busca Por Iscandar”, tom a algumas liberdades.

Insere personagens que só surgiram mais à frente na saga, como o sargento Knox/Saito, desta vez não apenas como líder dos “fuzileiros espaciais”, mas que também tinha atribuições de “polícia” dentro da nave, criando mais uma ideia que foi depois utilizada no remake em animação.

Replica situações que também só ocorreriam mais adiante na saga. Pequenas cenas como a morte de um dos pilotos dos Tigres Negros, que apenas um fã mais atento percebe.

Muda algumas circunstâncias envolvendo personagens e até os planetas Gamilon e Iscandar.

Mas principalmente - e talvez aí resida o grande erro do filme - criam uma mistura de “Busca Por Iscandar” com a primeira versão de “O Cometa Império” do longa “Adeus, Yamato”.

Resultando num desfecho, que este sim, fica difícil de não “torcer o nariz”, por privar o espectador de uma série de possibilidades que não foram vistas.

Ah sim! E ainda tem a ótima canção “Love Lives”, escrita e interpretada por Steven Tyler, para o qual dez anos atrás fiz “cara feia”. Afinal, inserir algo do tipo na irrepreensível trilha sonora do maestro Hiroshi Miyagawa parecia uma heresia. Mas que hoje não consigo imaginar este filme sem ela, em espacial para embalar o romance entre Wildstar e Lola.

Com efeitos especiais que até hoje deixam muitas superproduções norte-americanas no chinelo, este filme, ainda que sendo uma adaptação, ganhou uma suma importância.

 

Não apenas para os fãs de Patrulha Estelar, mas para os fãs de aventuras de ficção científica como um todo, por representar uma quebra de hegemonia bastante saudável no cenário deste tipo de produção.

E ao encerrar mais este artigo do blog, o faço como uma reflexão de que todos as vezes precisamos questionar as certezas que nos fazem julgar, as vezes rotular e até negligenciar algumas obras, em especial novas versões.

E para comemorar os quatro anos, e mais de cem artigos do “Enquanto Isso na Ponte de Comando”. Mantendo firme a ideia de ser tanto aqui, quanto em seu canal no Youtube, uma voz dissonante na mesmice geral, repleta de frases feitas, jargões e cacoetes rasos feitos com a única intenção de conseguir “seguidores” (sim, coloquei aspas aí também) que permeiam a mídia deste tipo de assunto.

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PATRULHA ESTELAR - O FILME (LEGENDADO)

Sendo assim, muito obrigado a todos que leram este artigo, ou algum outro dos tantos artigos deste blog ao menos uma vez, ou assistiu algum dos vídeos do canal no Youtube.



“A graça da viagem, é a viagem, e não o destino”.

Muito obrigado! Valeu!

 

 

Patrulha Estelar e suas vozes inesquecíveis!

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