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terça-feira, 29 de abril de 2025

Filmes de HQ para quem não suporta mais filmes de HQ

 

Desde que o cinema entrou na chamada “Era dos Heróis”, que o carro chefe dos grandes estúdios, em especial Disney (dona da Marvel) e Warner (dona da DC), tem sido a busca das bilheterias através de seu portfólio de super-heróis.

O que obviamente gerou um “overbooking”, digamos assim, de produções que na maioria dos casos passa muito longe de clássicos como a trilogia do Homem Aranha de Sam Raimi, ou do Batman de Christopher Nolan.

Contudo, o mundo dos quadrinhos sempre foi uma fonte fértil ideias para o cinema, e não necessariamente com personagens em roupas coloridas e poderes inverossímeis.

Portanto, convido você que está lendo a embarcar numa rápida viagem por produções que talvez até já saiba que vieram de HQ’s, mas que nem lembrava, e talvez até por alguma que nunca imaginou que pudesse ter saído do mundo dos quadrinhos.

 

A Liga Extraordinária:

Mesmo que seu autor, Alan Moore, tenha torcido o nariz (coisa que aliás faz muito), para esta adaptação da talvez melhor obra de sua carreira, a versão cinematográfica de sua “Liga da Justiça” com personagens clássicos da literatura é um bom filme, que infelizmente sofreu, não apenas pela rabugice de Moore que parece não entender que o cinema é uma outra mídia, como pela parcialidade conveniente de uma parcela de público.


Num filme com pouquíssimos “erros” (sim, coloquei aspas aí) de adaptação, e que apenas pecou talvez por não manter a soturnidade da obra de Moore, ainda que possamos entender perfeitamente já que a intenção era atrair mais público.


RED - Aposentados e Perigosos:

Devido as desventuras e falta coordenação em sua tentativa de um universo de super-heróis a DC Comics foi nos últimos anos motivo das mais diferentes piadas.


Mas em 2010, sem que muita gente notasse para o selo da editora nos créditos, um mega elenco se reuniu para dar vida a uma pérola do exagero que muito bem poderia ter sido dirigida por Mark L. Lester (Comando Para Matar).



Sin City - A Cidade do Pecado:

Frank Miller é um dos maiores picaretas dos quadrinhos de todos os tempos, com obras pensadas milimetricamente para agradar parcelas de público que ele detesta, ou pelo menos diz detestar.



Mas não quer dizer que Mr.Miller apenas apele. E apesar de sua relação com o cinema em geral ter nos dado verdadeiras bombas como Robocop 2, não é que aqui tanto a HQ quanto sua super estilizada versão cinematográfica conseguiram funcionar?


Muito talvez mais pela mão do diretor Robert Rodriguez que pela presença de seu autor que também é creditado na direção.


Crying Freeman:

Antes que alguém venha dizer bobagem, eu quero reiterar que o título deste artigo é sobre “quadrinhos”, independentemente de sua procedência, nomenclatura específica ou pretensa singularidade que a famigerada fanbase queira dar.

Explicado isto, quero dizer que esta até hoje, na modesta opinião deste humilde escriba, a criação de Kazuo Koike, a melhor adaptação de um mangá e/ou anime já feita.


O filme que aqui no Brasil ganhou o título de “As Lágrimas do Guerreiro” mudou a vida de seu protagonista, como explicado no artigo “As Mil Faces de Mark Dacascos - O Rei das Locadoras”. Que apenas causa certa estranheza em seu final devido a sensação que deveria ter continuação.


Rainhas do Crime:

Três mulheres, esposas de mafiosos da máfia irlandesa em Nova York, após seus cônjuges serem impedidos de tocar para frente seus negócios, decidem elas mesmas tomarem a frente de tudo, cada uma por diferentes razões.

Confesso que fiquei pasmo, ao descobrir que este filme, que já tinha assistido, veio de uma HQ.

Porém, foi ótimo para entender o porque de seu final ser como foi, e ao contrário de outros resenhistas não o massacrar injustamente em razão disto. Algo bem parecido com aquela sensação gerada pelo final de “Crying Freeman”, só que mais desconcertante.

Em tempo, o título original  faz uma brincadeira com a condição em que as três protagonistas se encontravam no começo da trama, e o lugar onde tudo se passa, o bairro de Hell’s Kitchen.

Sim, isto mesmo, Hell’s Kitchen.

Mas não esperem que Matt Murdock vá aparecer aí (risos).


Asterix e Obelix Contra César:

Uma das melhores experiências que tive no mundo dos quadrinhos até hoje, veio da criação de René Gosciny e Albert Urdezo.

A saga Asterix e Obelix, amigos inseparáveis, moradores da aldeia da Gália, que com uma poção mágica que lhes conferia força sobre-humana, eram a “pedra no sapato” do poderoso e expansionista Império Romano.

Personagens inesquecíveis como o cãozinho Ideafix e o druida Panoramix, para os quais achava impossível uma representação em live action que fosse de meu agrado.

Mas que bom que podemos errar, não é?

E de todos os filmes live action, se fosse para recomendar algum, Asterix e Obelix Contra César é aquele que melhor soube capturar o clima divertido, mas por vezes também irônico e até mesmo crítico.

Com destaque para o italiano Roberto Benini (A Vida É Bela) absolutamente impagável da pele de um militar romano.

Poderia sim, citar muitos outros filmes que vieram dos quadrinhos aqui, sem dúvida, mas creio que estes dão uma ótima noção do porquê do título deste artigo, e que não devemos nos deixar levar por meros rótulos e formulas de pretenso sucesso.

 

domingo, 15 de setembro de 2024

Drácula (1979) - Os Embalos de Sábado à Noite Nunca Foram Tão Assustadores

 

Alguns personagens nunca se afastam das telas de cinema durante muito tempo.

Tarzan, Sherlock Holmes e até Godzilla volte e meia (ou quase sempre) estão aí aparecendo na sala de cinema mais próxima, retratados nem sempre da maneira mais fiel para o qual foram pensados, e em geral falhando por causa disto.

Mas há exceções! E é sobre uma destas exceções que este artigo trata... Drácula do diretor John Badham!

Nos anos 1970 a chamada “sétima arte” havia passado pelo maior “sacode” que teve em sua história até os dias atuais. E em 1979 parecia que o cinema tinha sido virado de cabeça para baixo e depois pelo avesso.

Num exercício rápido de memória não é difícil lembrarmos de Tubarão (1975), Guerra nas Estrelas (1977), Superman (1978) só para citarmos os chamados blockbusters, além de outras produções que marcaram época e remodelaram os conceitos de seus subgêneros como O Exorcista (1973) e Agarre-Me Se Puderes (1977).

Mas em 1979 a Universal Studios decidiu apostar no clássico personagem de Bram Stoker, baseado no real Vlad O Empalador, nosso vampiro-mor, o Conde Drácula.

O diretor John Badham

Para tal empreitada convocaram John Badham, diretor que naquele momento estava mega-hypado devido ao sucesso de “Os Embalos de Sábado à Noite”. Uma escolha que aos olhos de qualquer fã do gênero deve ter parecido louca na época, mas que rendeu um filme com características singulares até então.

Para deixar bem claro (apesar que creio que você que está lendo já deve ter percebido), esta adaptação passa longe da estória original do romance de Bram Stoker.

Mas o que ela não tem de fidelidade ao original, compensa e com sobras para aqueles que gostam de um bom filme.

No quesito elenco, temos no papel-título nada menos que Frank Langella, que se você acompanha o blog sabe o quanto este humilde escriba é admirador, por sua capacidade de transmutar os personagens que interpreta, dando-lhes formas até então únicas, como nos casos do Zorro (já resenhado aqui) e do Esqueleto (sim, o do filme Mestres do Universo).

Frank Langella é Drácula

E para o papel de seu arqui-inimigo, Abraham Van-Helsing, nada menos do que aquele que por muitos é considerado o maior ator da história, Laurence Olivier, que é sempre lembrado por seu Zeus em “Fúria de Titãs”.

Laurence Olivier é Van Helsing

Papel que acabou sendo herdado, já que carismático Donald Pleasence recusou-o, pois não queria que sua atuação pudesse ser associada à do Dr.Loomis de “Haloween” realizado no ano anterior, ficando então com o papel do Dr.John Seward, diretor de um manicômio (pessoalmente acho que acabou trocando seis por meia-dúzia, mas deixa para lá).

Donald Pleasence é o Dr.Seward

E como se isto fosse pouco, John Williams, o mago da música, ficou responsável pela criação da trilha sonora, e de seu tema principal, que pode se considerar que está para Drácula como o tema que criou um ano antes está para Superman.

O mago John Williams criou a trilha sonora

Na estória, que foi roteirizada por  W.D.Richter (Invasores de Corpos), a escuna Demeter naufraga na costa da Inglaterra após seus tripulantes tentarem se livrar carga que levavam, pois julgavam estarem amaldiçoados.

Em terra, de seu quarto, Mina Van Helsing (Jan Francis), que aqui é filha de Abraham Van Helsing, e que estava em visita a sua amiga Lucy Seward (Kate Nelligan), vê a cena, e sai em busca de algum sobrevivente, encontrando apenas um homem caído entre as pedras.

Ainda que estranhando que os tripulantes do navio estivessem mortos, alguns deles com a garganta dilacerada, o homem é levado para a Abadia Carfax, que havia sido comprada pelo mesmo.

O filme em momento algum cria uma aura de mistério neste ponto, deixando bem claro que aquele homem era sim o Conde Drácula da Romênia e todos sabiam disto, e que os locais só não sabiam de sua “identidade secreta”, digamos assim.

E aqui começamos a entrar nas peculiaridades que tornaram algo singular na época, pois é nítido que este Drácula de 1979, é sobretudo focado na figura do conde, e não do vampiro, assim como o Zorro de 1974, também interpretado por Langella, já resenhado aqui, que é nitidamente mais focado em Dom Diego que no personagem título.

Tal abordagem talvez tenha acontecido devido a exigência do próprio ator, que disse que só faria o papel se não aparecesse com dentes caninos pontudos e nem com sangue escorrendo da boca.

Se tal exigência foi apenas um capricho, ou uma visão de Langella de que deveriam se afastar do estereótipo criado sobretudo pela versão de Christopher Lee nos filmes da produtora Hammer, talvez nunca saibamos, mas uma coisa eu afirmo, funcionou de maneira brilhante, pois deixou o filme livre para realizar suas cenas mais assustadoras através de seu elenco de apoio.

As cenas do manicômio inclusive são particularmente incomodas em alguns momentos, talvez ou principalmente, por retratar como eram tais instituições na época em que se passa o filme -1913 - sem ter o viés fantástico como “escada”.

E até meio escatológicas. Que o diga Renfield (Tony Haygarth) que ao acordar, depois que foi atacado pelo vampiro na forma de morcego, passa a ser seduzido por uma vontade peculiar de se alimentar de baratas.

Chamando a atenção para outra característica do filme que é a forma como as vítimas de Drácula acabam tendo efeitos colaterais diferentes, após serem atacadas.

Como no caso de Mina, que é dada como morta e acaba num estado de zumbi, na talvez mais impactante cena da película, quando Van Helsing e Seward vão até o túmulo da moça, e o professor Helsing desce até a catacumba onde deveria em tese estar o corpo de Mina, mas tem um “encontro imediato do pior grau” com a filha.

Uma cena que dizem ter sido terrível para Laurence Olivier que tinha acabado de perder a filha na vida real pouco tempo antes, o que aliás fica um tanto exposto nas feições do ator, que não estava muito bem de saúde à época das filmagens.

Mas calma que as particularidades deste Drácula não terminaram, pois como citei alguns parágrafos acima, este filme é sobretudo a respeito do conde e não do vampiro. Nos mostrando pela primeira vez um Drácula sedutor, extremamente autocentrado, com um semblante absolutamente normal, bem afastado por exemplo, da alegoria que Francis Ford Copolla fez Gary Oldman interpretar anos depois.

E que fora seus poderes, como se transformar em lobo, morcego ou em nevoa, pasmem, possui controle da mente. E não, não me refiro simplesmente à uma mera hipnose como descrito em algumas obras, mas sim controle da mente, algo que fica claro ter sido inspirado em “Guerra nas Estrelas”.

E não, este escriba não enlouqueceu, pois em determinado momento o conde da Transilvânia, para liberar Lucy de seu controle, faz exatamente o mesmo gesto com dois dedos que Obi Wan Kennobi (Alec Guiness) fez dois anos antes no filme de George Lucas.

Apesar da vontade inicial do diretor John Badham de fazer de seu “Drácula” uma homenagem explicita aos antigos filmes de terror, filmando em preto e branco, a Universal barrou a ideia.

Mesmo assim, ainda que “competindo” com ao menos mais dois filmes de vampiro lançados no mesmo ano (a saturação é um caminho bem curto para o fracasso nestes casos), a comédia “Amor à Primeira Mordida” e “Nosferatu”, alcançou o destaque merecido.

Portanto, mesmo que você (assim como eu), não seja muito fã do gênero, Drácula de John Badham é um filme obrigatório, de um diretor que com o passar dos anos mostraria toda sua versatilidade, como no já resenhado aqui “Trovão Azul", "Jogos de Guerra", "Tocaia" e tantas outras produções.

Fazendo aqui um filme de terror inteligente numa época em que as produções do gênero não tinham ainda ficado banalizadas pelos chamados filmes de slashers,  merecendo muito ser redescoberto pelas novas gerações.

E que não duvido, se surpreenderão, com a visão de Langella descendo por uma parede como um morcego na parede de uma caverna. Ganhando suas mentes ao ponto de torcerem pelo vampiro na sequência final deste clássico.



domingo, 18 de agosto de 2024

2020 - Japão Submerso

 

Se existem duas coisas certas neste mundo, são que o Japão sofre mais com terremotos na vida real do que com o Godzilla na ficção.

E que cedo ou tarde, este humilde escriba ainda que tente não fazer, acabará escrevendo alguma resenha movido pela mais pura indignação ao ler e/ou assistir algumas opiniões tão estafúrdias que me fazem questionar se ainda há de fato vida inteligente no chamado meio geek, nerd ou deem o nome que quiserem.

Pois basicamente é em razão disto que decidi escrever sobre a animação nipônica “Japão Submerso”.

“Japão Submerso” é mais uma adaptação do livro “Japan Sinks” de Sayo Komatsu, lançado originalmente em 1973.


         E que já havia ganho versões anteriores não só em mangá como em live action, além de mais uma versão posterior a esta animação.

Versão live action de 2021

Dirigido por Masaaki Yuasa, esta minissérie em animação parte do fantasma que ninguém cogita que possa ocorrer, que seria uma série de grandes terremotos que atingiriam o arquipélago japonês de maneira impiedosa, e logicamente, apocalíptica.

Masaaki Yuasa

Causando uma destruição impensada até pelos mais pessimistas, e que teria como consequência o afundamento da maior parte do país, devido a movimentação das placas tectônicas.

Bem, creio que se você se interessou em ler este artigo muito provavelmente já assistiu ou já ouviu falar desta animação que está no catálogo de um conhecido serviço de streaming.

Mas caso não, posso já adiantar aqui duas coisas, espere o inesperado mesmo que pareça fora de contexto (pois as vezes até é um pouco), e não se apegue muito a nenhum dos protagonistas.

A família Mutoh e sua vozes originais

Nossa estória começa num dia comum (eu sei, é clichê, mas faz parte), num Japão que se preparava para receber as Olimpíadas. Sim, eu disse se preparava, ou seja, as Olimpíadas ainda não haviam ocorrido, ao contrário do que dizem 99% dos resenhistas por aí.

Olimpíadas que lógico, não iriam mais acontecer.

Aqui é preciso salientar que a produção da animação se iniciou bem antes do advento da pandemia de COVID-19, portanto, qualquer coincidência é mera semelhança.

Somos então de forma absolutamente aleatória apresentados a família Mutoh. Cada um em uma situação distinta, mostrando uma família que ainda que não seja fragmentada, e se goste muito, está distante do estereótipo nipônico, algo que em diversas situações é abordado ao longo do roteiro.

O pai, Koichiro, é um trabalhador da construção civil (atenção para o detalhe das Olimpíadas que ainda iam acontecer).

A mãe, Mari, é de origem filipina, e a personagem mais altruísta da trama, aquela que de fato, seja com gestos simples (ainda que na mente de alguns resenhistas possam parecer sem propósito), ou em grandes atitudes, procura sempre proteger aqueles que estão ao seu redor.

E os dois filhos. Go um garoto que vive soltando frases em inglês e possui aversão a ter que morar no Japão, enquanto usa a internet para se relacionar mais com pessoas de outros países que interagir com um vizinho por exemplo. E Ayumi, uma jovem  aspirante promissora a seguir carreira no atletismo, que pode ser a grosso modo considerada a principal protagonista da animação.

Separados no começo de toda a tragédia, a família logo se junta e parte numa jornada sem destino, na única intenção de sobreviver, juntamente com mais alguns agregados, que também sem ter para onde se juntam nesta “viagem para lugar nenhum”.

E não, esta expressão não é um exagero, pois de fato era isto que o arquipélago japonês estava se tornando.

A verdade é que não há muito como falar da estória de “Japão Submerso” sem fazer com que emerjam vários spoilers. Mas alguns pontos sobre a trama que parecem equívocos aos olhos dos “especialistas” (argh!) em resenhas precisam ser salientados.

O primeiro e mais obvio de todos é que apesar de seus ganchos emocionais, a jornada imposta aos protagonistas é sobretudo de sobrevivência, e não de autoconhecimento, ainda que por ventura alguns acontecimentos possam conter tal enfoque.

Portanto, não se indigne se por acaso uma ou outra atitude de algum protagonista, pareça aos seus olhos errada. Pois, “Japão Submerso” não tem a pretensão de nos mostrar altruísmo o tempo todo, e sim mostrar como eventos extremos podem gerar o que há de melhor, mas as vezes também de pior no ser humano. Não porque sejam maus em sua essência, mas pela simples questão do medo, e como reagem quando expostos a pressão de um evento  extremo.

Ainda que o roteiro pudesse ter sido melhor desenvolvido no aspecto emocional em algumas situações.

O que não quer dizer que o mal e o bem não apareçam em lugares e pessoas que menos se espera.

Como no caso da tentativa de estupro sofrida por Nanami, numa situação que tive o desprazer de ver resenhas que diziam ser forçada.

Às vezes acho que de fato estes resenhistas de obras deste gênero, criados na base do Playstation e leite de caixinha, vivem numa bolha. Com uma preguiça extrema de travar contato com a realidade, pois num caso como este, é só lembrarmos dos diversos casos de violência sexual ocorridos em espaços coletivos como ginásios, durante a passagem do furacão Katrina nos Estados Unidos.

Ou no caso do personagem Daniel, um artista de rua, que parece ser a última pessoa que se deveria dar carona numa situação como aquelas, mas que se mostra uma pessoa boa.

Assim como Kite, um dos ídolos de Go, um youtuber de esportes de aventura, que se une ao grupo, e que com seus conhecimentos de sobrevivencialismo se torna uma ferramenta valiosa na jornada.

Aqui vale mais um parêntese nesta resenha, pois não sei se foi intencional, mas o fato é que todos os personagens do núcleo principal possuem alguma habilidade e/ou conhecimento que se mostra útil em algum ponto da trama, até mesmo o menino Go, que pela internet conversando com um amigo virtual na Estônia consegue obter informações do que de fato estava ocorrendo (eita internet boa!), e o cientista tetraplégico que o grupo passar a levar consigo.

Todos menos Ayumi, que em tese deveria ser a protagonista central, e pela qual através de “seus olhos”, toda a tragédia deveria ser contada, e que se mostra um verdadeiro peso morto, portanto, não se surpreenda se por diversas vezes você sinta raiva da adolescente.

E por falar no cientista tetraplégico, não dá para deixar de citar aquele que é o maior equívoco do roteiro, quando nosso grupo de sobreviventes acaba indo parar numa comunidade utópica chamada Shen City.

Tudo bem que este evento cria uma pausa para que coisas como o sentimento de luto e alguns questionamentos possam ocorrer para os personagens. Mas no fim das contas acaba sendo um recurso narrativo que cria uma incômoda barriga no roteiro, jogando no meio do sarapatel, até uma criança com supostos (ou verdadeiros, não sei) poderes mediúnicos.

Contudo, como saldo final, “2020 - Japão Submerso” é um sopro de vida inteligente na saturada atmosfera das animações nipônicas dos últimos anos, repleta de personagens porcamente criados em simulacros de roteiro apenas para mostrar cenas esporrentas com a intenção de criar hype numa audiência rasa.

Tendo inclusive a coragem de abordar temas bem caros aos nipônicos, como a tal da “raça pura” e o preconceito travestido de patriotismo.

E que apesar da quantidade ímpar de desgraças que ocorrem no desenrolar de sua trama, algumas que de fato surgem do nada, aparentemente apenas para causar mal estar, se mostra em seu final algo incrivelmente edificante, que sim, na humilde opinião deste escriba merece uma conferida.



 

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