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sábado, 20 de julho de 2024

Godzilla Minus One

 

Ao longo dos últimos setenta anos, várias e várias foram as versões para o clássico kaiju criado em 1954 no clássico filme dirigido por Inishiro Honda, e que teve os efeitos visuais a cargo do mestre Eiji Tsuburaya.

De filmes nipônicos de qualidade as vezes bastante duvidosa, ainda que bem divertidos, até as versões estadunidenses que foram da clássica série de animação da Hanna-Barbera, passando pela absurda e bizarra representação de 1998, até a sua versão mais atual no chamado monsterverse da produtora Legendary, Godzilla se sedimentou como talvez o maior pilar da cultura pop nipônica.

Mas eis que em 2023, em meio a balbúrdia gerada por mais um encontro de Godzilla com King Kong em sua versão estadunidense, eis que lá de sua terra natal mais um filme sobre o kaiju, filho bastardo da era atômica, e anti-herói muito antes deste conceito se difundir foi anunciado.

Era Godziila Minus One!

Admito que ao ver seu primeiro trailer fiquei bastante impressionado com as imagens, e até mesmo empolgado (coisa rara para este escriba hoje em dia), ainda que soubesse que a tarefa de recontar a estória original do filme de 1954 não pudesse ser limitada a meros efeitos visuais bem feitos.

Só que antes de entrar em seu espetacular roteiro, repleto de nuances, subtramas e citações históricas que com certeza a maioria do público não deve ter conseguido perceber, preciso falar um pouco da parte técnica, coisa que em geral deixo para uma segunda parte de resenhas como esta.

O diretor Takashi Yamazaki

A empreitada de Godzilla Minus One foi dada ao talvez mais badalado diretor japonês da atualidade, Takashi Yamazaki. Que ainda que não fosse famoso mundialmente, tinha em seu currículo títulos como o live action da “Patrulha Estelar” de 2010, “Zero Eterno”, e “A Guerra de Archimedes” que conta sobre justamente o projeto de construção dos encouraçados da classe Yamato.

Outros filmes dirigidos por Yamazaki antes de Godzilla Minus One

Yamazaki, que começou sua saga no cinema como técnico de efeitos visuais, cunhou sua fama por entregar filmes tecnicamente impecáveis, com orçamentos que mal pagariam o serviço de catering de uma super produção estadunidense atual, o que em “Godzilla Minus One” não foi diferente.

Ou será que foi?

Sim Foi!

Lógico que você está lendo deve saber do Oscar de efeitos visuais que Godzilla Minus One levou para casa, que pode ser de certa forma uma indireta bem direta para os absurdos gastos em produções hollywoodianas que entregam resultados pouco satisfatórios pelo tanto de propaganda que fazem.

Mas aqui temos bem mais do que convincentes efeitos visuais. Temos tudo aquilo que Hollywood quase nunca conseguiu equacionar em suas produções sobre monstros gigantes, somado ao fato de que este filme é um dos melhores dramas pós-guerra que este humilde escriba já teve o prazer de assistir.

A saga de Godzilla Minus One começa em 1944, quando um jovem piloto chamado Koichi Shikishima (Ryunosuke Kamiki), que tinha sido designado como piloto kamikaze, resolve não cumprir sua missão suicida, e simula um defeito em seu avião, pousando numa ilha que servia de ponto de manutenção de aviões.

E sua farsa ainda que não passando despercebida por Tachibana (Munetaka Aoki), chefe dos mecânicos do lugar, parece ter funcionado, já que o militar, imaginando o fim eminente do conflito e o que estava por vir ao seu país, esconde o segredo do piloto, ao mesmo tempo que se mostra cético e questionador sobre determinados dogmas que precisavam seguir.

Só que a única coisa que o senhor Tachibana não podia imaginar é que naquela noite, em meio aos sons distantes da guerra, a ilha receberia a visita furiosa do dinossauro que mais tarde se tornaria Godzilla.

Que logicamente acaba provocando a reação dos militares, e a não reação de Shikishima, que mesmo sob apelos de Tachibana para que usasse as armas de seu avião contra a criatura, hesita.

Aqui é preciso abrir um pequeno parêntese para salientar a sagacidade do roteiro, que ao mesmo tempo que sacia a vontade do espectador de ver logo um monstrão esmagando e destruindo o que está pela frente, algo que faltou por exemplo no filme estadunidense de 2014, estabelece também o que viria a ser a premissa central sobre seu protagonista humano, que passa a conviver com uma brutal sensação culpa.

Deixando claro para o espectador que a despeito do monstro, da destruição e da pirotecnia, a questão humana e seus dramas estariam no centro da trama.

Característica esta que se escancara de vez quando Shikishima retorna para casa já em 1945. Uma Tóquio devastada, que mais parecia um imenso lixão a céu aberto, no qual as pessoas tentavam sobreviver do resto dos restos.

Mas como desgraça pouca é bobagem, além de nosso protagonista descobrir através de uma vizinha, Sumiko (Sakura Ando), que os pais haviam morrido, ainda é confrontado pela mesma, que tomada por um misto de perplexidade e frustração o questiona do por que não ter cumprido sua missão, ou seja, se matar, para defende-los do inimigo, aumentando os fantasmas de culpa que lhe atormentavam.

Aqui preciso muito abrir mais um parêntese nesta resenha (acho que serão vários), pois por mais de uma vez durante o filme há referências apenas em diálogos, e de forma implícita, a um dos mais terríveis capítulos da Segunda Guerra Mundial, o bombardeio à Tóquio.

O bombardeio a Tóquio foi a primeira vez na história em que foram usadas bombas de napalm (espécie de gelatina de gasolina) com espoletas barométricas. Algo que aumentava em muito o poder de destruição dos artefatos, criando praticamente uma versão real do apocalipse da Bíblia, na qual literalmente chovia fogo do céu. Detalhe este que passou batido pelo público em geral e por todos os resenhistas da web, mesmo aqueles que abordaram o filme pelo viés militar.

Mas calma, que a bagunça na vida de nosso amigo Koichi Shikishima só tinha começado, já que logo depois ele acaba recebendo uma bebê das mãos de uma moça chamada Noriko (Minami Hanabe, o grande destaque do elenco) que fugia de um grupo de pessoas, que aparentemente queriam linchá-la por acharem ser uma prostituta, já que trajava um quimono típico das gueixas que prestavam este de serviço.

Bebê que Shikishima depois descobre que nem era da jovem e que ela passou a cuidar após o pedido da mãe verdadeira que nunca tinha visto antes (atenção para mais uma citação ao bombardeio a Tóquio aqui).

E assim estes três seres sem expectativas formam uma família totalmente fora de qualquer padrão da sociedade da época, munidos apenas de vontade, se apoiando mutuamente e sendo assombrados pelos fantasmas de Koichi, que o impediam de seguir em frente com partes importantes da vida, como assumir a relação com Noriko.

Provavelmente você que está lendo, deve já estar se perguntando agora: Cadê o Godzilla?

Pois bem, neste meio tempo acorrem os testes atômicos no pacífico que transformariam aquele dinossauro que surgiu na ilha no Godzilla que conhecemos.

E aqui preciso dizer que talvez resida o único ponto de todo filme que eu mudaria, já que a transformação, a mutação do lagartão, foi sobretudo um processo muito dolorido, que ainda que não deixe de ser mostrado, é feito de forma tão breve que com certeza acaba não sendo captado da forma correta por boa parte do público, que não se dá conta do que de fato nosso querido Zilla acaba se tornando ainda que de forma metafórica, ou seja, um instrumento de vingança da natureza diante da arrogância humana.

Enquanto isso nosso amigo Koichi Shikishima depois de muito batalhar consegue um emprego que pagava muito bem, integrando a tripulação de um barco que tinha como missão limpar as águas do Japão das milhares de minas que nelas foram depositadas. Tanto pelos japoneses na intenção de barrar o avanço estadunidense, como pelos norte-americanos que durante a guerra pretendiam impedir a chegada de suprimentos ao arquipélago nipônico.

Só que estas minas após serem descobertas eram desativadas na base da bala mesmo, e é aí que a coisa toda começa a desandar de vez, pois aquele explode mina daqui, explode mina dali, acaba por mais uma vez despertar a fúria do agora atômico Godzilla, que estava até então quieto no seu canto. Portanto, ao contrário de algumas resenhas que permeiam a web, há sim razão para o ataque do lagartão, que é bem provocado e enfurecido pela ação humana.

O que aliás me faz lembrar as palavras de um professor de ciências que disse: A natureza não se defende, a natureza se vinga.

E esta sequência dentro do barco, não tem jeito, é clara sua inspiração em “Tubarão”, e não há como não vir na mente de qualquer fã de cinema a clássica frase de Roy Scheider: Vai precisar de um barco maior.

Mas nada que supere o terror e espetáculo do que é a chegada de Godzilla à Tóquio.

Talvez o ponto que mais incomoda este humilde escriba nos filmes do chamado “Monsterverse” da Legendary, é com certeza a destruição inconsequente de cidades inteiras como se aquilo fossem bloquinhos de montar de um brinquedo infantil.

Mas aqui a coisa é muito diferente.

Seja porque tivemos todo um roteiro que soube explorar cada nuance de seus protagonistas, até mesmo com breves pitadas de humor nos momentos certos, ou porque tudo que é mostrado do Japão destruído no pós-guerra nos fazem sentir o desespero das pessoas diante de algo que não tinham como controlar.

Numa sequência absurdamente perfeita, que já sai do lugar comum ao se passar durante o dia, coisa que a maioria dos filmes do gênero foge, seja por uma escolha da direção ou porque fica mais fácil mascarar qualquer imperfeição num cenário mais escuro.

E que culmina não com um close no personagem título, mas sim em Shikishima, num grito de raiva, impotência e desespero, logo após Godzilla terminar seu festim de terror com sua baforada atômica, numa conclusão que remete diretamente ao que ocorreu logo após os bombardeios à Hiroshima e Nagasaki.

Tive o desprazer imenso em travar contato com algumas resenhas que torciam o nariz para a representação de Godzilla deste filme, alegando efeitos visuais pobres, talvez provocados pela falta de verba, dizendo por exemplo que o lagartão não tinha movimentos desenvoltos e pouca expressão no rosto.

Nem imaginavam na época que o filme ganharia o Oscar nesta categoria (risos).

Yamazaki e Christopher Nolan com seus Oscars

O que me leva a crer o quanto a atenção destes ditos “entendedores”, e capacidade de raciocínio, foram empanadas pelos artífices da indústria, enquanto só objetivam sua busca desenfreada por “curtidas” e “seguidores”.

Pois vamos pensar aqui. Estamos falando de um réptil com o peso aproximado de vinte mil toneladas (este peso é citado durante o filme). E seria ridículo dentro do contexto deste filme um ser destes, com a expressividade de uma Meryl Streep e a desenvoltura de um Jean-Claude Van Damme em começo de carreira.

Portanto mais um ponto para Takashi Yamazaki, que fez a escolha certa, para seu filme, que ruma para seu ato final, quando um grupo de veteranos de guerra e indivíduos da população civil se une num plano para lá de louco para matar Godzilla, que tem como ponta desta lança justamente Shikishima, que parte enfim para enfrentar seus fantasmas e medos, a bordo de um caça Kyushu J7.

Um verdadeiro Kyushu J-7 em foto da época

Caça que de fato existiu ainda que não tenha passado do estágio de protótipo, e que ao contrário do que muitos que já assistiram o filme possam ter pensado tem sim algumas características inovadoras para época que os japoneses conseguiram trazer da Alemanha, mas que não vou contar aqui para não estragar a experiência, caso você que está lendo não tenha ainda visto o filme.

Até poderia colocar aqui uma ressalva sobre este filme maravilhoso no que concerne a parte da mea culpa nipônica em seus atos durante a Segunda Guerra, que se limitou apenas de forma tímida em criticar como os militares de patente mais baixa foram usados como “bucha”, mas seria algo forçado para um filme que possui sim contornos de obra-prima, e que fez até Steven Spielberg se render a sua trama e talento de seus realizadores.

Até Spielberg se rendeu à Godzilla Minus One

Esta é uma resenha que demorei a fazer, e que sei, ficou bem longa.

Mas que agora ao redigir suas últimas linhas o faço com alma lavada e espírito renovado, na certeza que assisti ao melhor filme de monstro já feito na história e que a despeito de seu fio condutor inverossímil, é sim também, um dos melhores dramas de guerra ou pós-guerra que já foram feitos.

Tornando Godzilla Minus One um absoluto ponto fora da curva para o cinema atual, que precisa e muito entender, que uma base ainda que simples, mas com emoções e motivações bem trabalhadas, num roteiro verdadeiramente inteligente, é o que sempre farão a diferença, deixando sua marca nas retinas, mentes e corações do público.



 

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Quando a Ficção é Ficção dentro da Ficção!

 

Referências, easter-eggs e citações não são nenhuma novidade seja lá qual mídia apareçam. Mas, e quando esta citação, seja em imagem ou diálogo mostra personagens e obras de ficção como ficção em outras obras de ficção?

        Parece confuso? Então siga este artigo e veja alguns dos maiores “fic-easter-eggs” que já aconteceram...

Só avisando antes, que citações provenientes de sitcons não serão consideradas aqui, afinal tais obras por si só usam deste gancho narrativo de maneira contumaz e até mesmo aguarda por quem as assisti, e que “crossovers” malucos também não serão citados pois afinal isto aqui é...


  Quando a Ficção é Ficção dentro da Ficção!

 

Cobra Kai e Águia de Aço:

No seriado Cobra Kai citações aos anos 1980 (a década que se recusa a acabar) são feitas sempre. Contudo, no segundo episódio da primeira temporada, temos a cena que dá o “start” para que de fato tudo comece a acontecer. Sem dinheiro, desiludido com a vida e com todos, Johnny Lawrence (William Zabka) acorda durante a madrugada com uma ressaca daquelas, mas eis que está passando na tevê o clássico “Águia de Aço”, e justamente na parte do discurso motivacional que o Coronel Chappy Sinclair (Louis Gosset Jr.) deixa gravado para Doug Masters (Jason Gedrick).


 

B13-13º Distrito e Por Amor:

No filme francês 13º Distrito (não confundir com a cópia estadunidense protagonizada por Paul Walker), há uma cena em que dois seguranças de uma das facções criminosas que dominam o citado distrito do título, estão assistindo ao último capítulo da novela “Por Amor” (Sim! Acabamos de citar uma novela neste blog). E tão atentos ao que acontecia no capítulo final, deixam a facção rival entrar no prédio.

 

O Pequeno Vampiro e Patrulha Estelar:


No filme infantil, que também é conhecido por “O Meu Melhor Amigo é um Vampiro”, incansavelmente reprisado nas tardes brazucas pelo SBT, há no quarto do protagonista um pôster nipônico de “Final Yamato”, o longa-metragem que foi durante vários anos o capítulo final da saga. Lembrando que o ator da foto, René Auberjonois, foi a voz de Sandor/Sanada na versão estadunidense do Yamato.



 X-Men e Patrulha Estelar:


E por falar em pôster do Yamato na parede, num quadrinho de Ucanny X-Men Nº145 de 1981, é possível ver no quarto de Bobby, o Homem de Gelo, um pôster do “Space Cruiser Yamato” como era chamado na época em terras de Tio Sam a saga do Uchuu Senkan Yamato.



Bubblegum Crisis e Thundercats:


No primeiro episódio do clássico anime Bubblegum Crisis, num determinado momento em que vários aspectos da então futurística Mega-Tokyo são mostrados, podemos ver o rosto de Panthro dos Thundercats num telão.



 Batman O Cavaleiro das Trevas e Homem-Aranha 3:


Esta sei que muitos já conhecem, mas não poderia deixar de citá-la. Pois logo na abertura do clássico “Batman O Cavaleiro das Trevas” na cena em que o Coringa de Heath Ledger é mostrado de costas, há um cinema ao fundo, e neste cinema, um cartaz de “Homem-Aranha 3”.



 X-Men Apocalypse e O Retorno de Jedi:


X-Men Apocalypse teve uma cena que não saiu em seu corte final na totalidade, na qual os jovens mutantes resolvem dar um “rolê” pelo shopping, fazendo coisas que os jovens fazem. E só o finalzinho desta sequência entrou neste corte, quando o grupo sai de um cinema no qual estava em cartaz “O Retorno de Jedi”, enquanto Jubileu tece suas considerações como conhecedora da sétima-arte sobre o filme e seu antecessor, “O Império Contra-Ataca”.



 Eternos e Superman... e Alfred Pennyworth!:

No filme “Eternos” da Marvel Studios há um citação ao Superman, quando o filho de Phastos confunde Ikaris com o herói da DC Comics. Sobre esta cena e diálogo, a diretora do filme, Chloé Zhao disse:

"Eu me responsabilizo por esse diálogo"


E continuou:

"Acho que estamos no ramo de contar histórias mitológicas, e o Superman é uma figura mitológica. Então achei que poderíamos brincar, fazer um tributo a esse outro herói icônico, que amamos tanto. Quem não ama o Superman e o Batman?”

Estranhou a citação ao Batman feita por Chloé, a diretora de Eternos?

Pois é, mas esta realmente existe de forma indireta, pois o citado na verdade é seu fiel mordomo, Alfred Pennyworth, num diálogo no qual Karun, o “valete humano” de Kingo, é descrito como o “Alfred de seu Batman”

 

Os Incríveis 2 e Jonny Quest:


Declaradamente fã da clássica animação da Hanna-Barbera, o diretor Brad Bird, inseriu na sequência de “Os Incríveis” uma cena na qual está passando na tevê a saga clássica criada por Doug Wildey em 1964.



 O Gigante de Ferro e Superman:


Esta com certeza você conhece! E mais uma vez temos Brad Bird nos brindando com uma baita referência. Talvez seja o caso mais clássico da citação de uma obra de ficção em outra obra, quando Hogart mostra ao Gigante de Ferro o clássico Nº1 da Action Comics com o Superman na capa.


E mais que uma citação, a explicação que o garoto dá sobre o personagem e sua índole, se tornam fundamentais para o desfecho da trama mais a frente.



 

 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Leiji Matsumoto - Um Capitão de Sonhos!

 

Poucos foram os artistas, nos mais diversos campos das artes, que tiveram sobre mim a influência e o impacto que teve Leiji Matsumoto e foi com profundo pesar e um certo grau de surpresa que tomei conhecimento da passagem do grande e icônico mangaká.

Um artista único, influenciador de gerações que vieram após, admirado por outros criadores de personagens icônicos em toda a parte do mundo, e para o qual passo a render nas próximas linhas minha modesta homenagem.

Nascido Akira Matsumoto, em 25 de janeiro de 1938, Leiji veio de uma família muito pobre, cujo seu pai viu nas forças armadas a chance de lhes dar uma vida melhor, se tornando piloto de caça, tendo combatido obviamente na 2ª Guerra Mundial, da qual conseguiu retornar com vida.

Ainda na infância ganhou de seu pai um projetor de 35mm no qual ironicamente assistia a desenhos animados norte-americanos durante a época da guerra no pacífico, ao mesmo tempo em que “devorava” romances de ficção de escritores como o inglês HG Wells e de seu conterrâneo Unno Juza (ou Juzo), cujo nome anos mais tarde usaria em um de seus personagens mais lendários.

Contudo, como a maioria do Japão no pós-Guerra, a família Matsumoto ainda tentava se reerguer, e o sonho do jovem de se tornar engenheiro ficou de lado. E para a felicidade das gerações que ainda estavam por vir, passou a se dedicar mais ao desenho.

Em 1954 ainda sob seu nome verdadeiro, Leiji (algumas pessoas escrevem Reiji devido a pronúncia), fez sua estreia na revista Mangá Shonen (termo em geral usado para quadrinhos dirigidos ao público masculino), mas também se aventurou nas revistas voltadas para as meninas, conhecidas por shoujo, afinal, mulheres trabalhando naquele meio, naquela época era muito raro.

Mas sua primeira grande chance só veio em 1971 com Otoko Oidon, uma estória sobre um ronin, mas nada a ver com samurais, e sim um estudante que terminou o ensino médio, mas não conseguiu ingressar numa faculdade, mas que ainda pretende fazê-lo, uma situação que se passou na vida de Leiji, pois quando seu irmão mais novo, Sussumu (sim, este nome mesmo, o do protagonista de Yamato), se formou no secundário, sua família não tinha condições de enviá-lo para uma faculdade, o que fez Leiji rumar para Tóquio para trabalhar a fim de que irmão concluísse sua formação.

Mas seu primeiro sucesso se deu em 1972, quando criou uma espécie de western de humor negro chamado Gun Frontier para a revista Play Comic, ao mesmo tempo em que trabalhava numa série de contos sobre a Segunda Guerra Mundial que passariam a se chamar Battlefield e que posteriormente seria a base para a animação The Cockpit.

Até que em 1973 seu caminho se cruza com o do produtor Yoshinobu Nishizaki, e a partir daí tudo mudou.

Nshizaki e Matsumoto - União que mudaria a história

Nishizaki, que até então pouco tempo antes trabalhava na produtora do lendário Osamu Tezuka apenas como um vendedor, tinha um projeto louco que estava na pré-produção, mas que devido problemas de verba (e uma certa dose de falta de criatividade) se encontrava completamente empacado.

Na premissa criada pelo produtor, a Terra no distante futuro de 2199 vinha sendo atacada por uma nação alienígena que queria colonizar o planeta. Até aí nada demais.

Patrulha Estelar - A obra que mudou os rumos da ficção científica

Ainda nesta premissa os habitantes de nosso planeta recebiam uma mensagem vinda do espaço que dizia que era possível limpar nossa atmosfera da radiação das bombas dos invasores, só que para isto, um grupo de destemidos viajantes precisava ir até os confins da Nebulosa de Magalhães buscar o tal antídoto.

Só que toda esta jornada seria feita em nada menos que um asteroide!

Sim! Um asteroide no qual iria se colocar um motor e que serviria de nave.

Olhando então para todo aquele sarapatel, Leiji Matsumoto perguntou se poderia mexer no projeto, e com a carta branca de Nishizaki, mudou para a sempre a história das animações, da ficção cientifica e até das artes.

Nascia ali a saga do Encouraçado Espacial Yamato, conhecida aqui por nós, os habitantes de Terra Brasilis como, Patrulha Estelar.

Foi de Leiji Matsumoto a ideia de se criar a nave a partir do antigo encouraçado Yamato, assim como foi sua a criação da maioria dos personagens que vemos, já que pouca coisa foi aproveitada da ideia original do Yoshinobu, além da premissa que se tornaria “Busca Por Iscandar”, a primeiras das três séries de tevê do Yamato.

Lembrando sempre que Patrulha Estelar não foi um mangá transposto para animação, e que sua versão em quadrinhos veio a ganhar vida de forma quase que concomitante a produção do anime.

Página da versão brasileira do mangá da Patrulha Estelar

Sua dedicação a saga foi tanta que numa entrevista de 2010, Matsumoto confirmou que deu “pitaco” até em sua música, pedindo ao maestro Hiroshi Miyagawa, compositor da trilha sonora, que o tema principal lembrasse algo como o segundo movimento da Terceira Sinfonia de Bethoven.

No que então obteve como resposta do maestro um: Tudo Bem! (risos)

E suas ligações com sua vida pessoal, incluso aí o passado de seu pai como piloto, ficam bem evidentes em diversos detalhes como as setas que adornam os uniformes da tripulação do Yamato, cuja inspiração veio de uma divisão aérea que usava os aviões Nakjima Hayabusa (o nome parece familiar?), cujos esquadrões eram identificados pelas cores diferentes das setas pintadas nos lemes das aeronaves.

As setas nos uniformes da tripulação do Yamato...

..foram inspiradas numa divisão de aviação japonesa

Só que a coisa começou a azedar entre Matsumoto e Nishizaki ainda à época do longa metragem “Adeus Yamato”, aquele com a estória do Cometa Império, que no final não sobra ninguém. Contudo, com a resposta negativa do público sobre a matança promovida no longa, e o consequente “recuo estratégico” dos produtores que decidiram recontar a saga na série de tevê que tão bem conhecemos, a parceria duraria mais um pouco.


Até que em 1979 em meio a produção do longa “A Nova Viagem”, Matsumoto se desentende de vez com Nishizaki largando o barco.

O motivo? Segundo Leiji, ele era contra a mania de Nishizaki de “matar todo mundo”.

Nas palavras do próprio mangaká:

Quando crio uma estória e um personagem, coloco tudo de mim nisto. Portanto, se o personagem é facilmente morto, parece que meu filho ou meu irmão foram assassinados”.

Contudo, apesar da raiva de Matsumoto que segundo relato próprio, teria rasgado o roteiro de “A Nova Viagem”, a relação com Yoshinobu ainda que por razões comerciais se manteve dentro do que se pode considerar como algo amistoso.

Matsumoto e Nishizaki juntos em 1980 no lançamento do longa "Para Sempre Yamato"

Ao menos até 1994 quando Nishizaki lançou por conta própria Yamato 2520 gerando o a briga judicial que relatamos aqui no artigo " Ih! Deu Ruim! Alguns dos Mais Loucos Processos Judiciais da Cultura Pop!".

Ainda que afastado de sua maior criação desde 1979, Leiji Matsumoto trilhou seu próprio caminho de maneira quase exemplar.


           Criando alguns outros clássicos como “Galaxy Express 999”, “Queen Emeraldas” e o icônico “Capitão Harlock e a nave Arcadia”.

Nos planos de Leiji, o Capitão Harlock estaria em Patrulha Estelar

Capitão Harlock que diga-se de passagem, pelos planos originais de Matsumoto deveria ter feito sua estreia fora dos mangás em “Busca Por Iscandar”, mas que devido aos cortes de orçamento ficou de fora da versão final da primeira saga do Yamato.

E seu nome facilmente se tornou referência para vários artistas ao redor do mundo, como nosso Maurício de Souza, e até Gene Rodembery o criador de Jornada nas Estrelas. Ainda que reze uma lenda urbana de que na casa dos Rodemberry que de fato era fã de Matsumoto era a esposa de Gene (risos).

Matsumoto e Maurício de Souza

Sendo que nesta seara, Leiji Matsumoto possui um capítulo que creio ser único.

Estamos no ano de 2001, e lá na França (lugar em que Matsumoto é reverenciado quase que como uma divindade), a dupla de música eletrônica Daft Punk estava prestes a lançar o álbum “Discovery”. Um trabalho quase conceitual no qual os dois mascarados que compunham a dupla, pretendiam fazer uma homenagem a infância.

Só que na cabeça dos dois, só o CD não parecia algo suficiente para promover seu novo trabalho, e eis que tiveram uma ideia tão louca, mas tão louca, que mesmo eu até hoje não consigo acreditar que deu certo.

Transformar aquele novo trabalho numa experiência audiovisual. E bolaram um roteiro para um pequeno filme de ficção-cientifica. Mas calma, se a coisa fosse só isto, tudo seria muito simples.

Como o álbum versava sobre infância, por que não tentar fazer com que um dos heróis de infância da dupla aceitasse uma empreitada conjunta?

Uma junção inusitada, Matsumoto e Daft Punk

E sim! É exatamente isto que você está lendo. Munidos apenas de coragem e uma alta dose de cara de pau, a dupla foi até o Japão, e sem nenhum aviso “bateu na porta” de Leiji Matsumoto, que para surpresa deles, topou a ideia. E passou a supervisionar toda a produção do longa que foi realizada pela TOEI Animation.

Não que esta união música e animação fosse uma grande novidade em se tratando de produções nipônicas, mas nunca nada do gênero havia chegado nem perto daquilo.

E em 2003 o longa “Interstella 5555” ganhava a luz do dia, sendo a numeração do título na verdade uma brincadeira que significa a sigla, “Secret Story of Star System”.

 E se você que está lendo este artigo, acha que seja impossível dar uma voltinha em alguma nave projetada pela mente de Matsumoto vou aqui lhe dizer que isto é mais fácil do que se pensa, pois em Tóquio existe um serviço de barco chamado Himiko Cruise, que funciona tanto como atração turística como taxi, e cujo o design é criação do mangaká.

Foi condecorado com a mais alta honraria de seu país, a “Ordem do Sol Nascente”, e na França com a “Ordem das Artes e das Letras”.

Apaixonado por gatos, Matsumoto foi “papai” de uma dinastia de gatas que sempre levavam o mesmo nome “Mi-Kun”, e que o artista sempre que podia fazia questão de retratar em suas obras.

O jovem Leiji, sua esposa Miyako e Mi-Kun

Casado com a artista Miyako Maki, conhecida no Japão por ter criado a boneca Licca-Chan (equivalente a Barbie em terras nipônicas), teve uma filha, Makiko, para qual neste último dia 20 de fevereiro coube a missão de comunicar ao resto do mundo que o gênio que encantou gerações segunda suas próprias palavras: Partiu numa jornada rumo ao mar de estrelas.



 

 

 

Patrulha Estelar e suas vozes inesquecíveis!

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