terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Batman - A Trilogia (parte 3)

Um Bruce Wayne recluso. Um Jim Gordon que não consegue conviver com as consequências daquilo que ajudou a criar. Um plano de vingança. E todos se tornando heróis....
Oi pessoal! Enfim chegamos ao final da saga que escreveu um novo capítulo na história do cinema e da cultura pop.

Enfim vamos falar de “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge”.



Não é segredo pra ninguém que após a aclamação do filme anterior, somado a comoção da perda Heath Ledger, o diretor Christopher Nolan esteve por um bom tempo relutante em assumir o comando do encerramento da trilogia. Mas sejam lá quais foram as razões que o fizeram decidir por finalizar a empreitada, não há como negar que aqui foi onde o diretor mais se permitiu criar.
Escrito pelos irmãos Nolan, baseado numa ideia de Christopher com o roteirista David S. Goyer o filme se baseou nas HQ’s “A Queda do Morcego” e “Terra de Ninguém”, contudo, sua maior inspiração veio de algo bem longe do Universo da DC Comics. O livro “Um conto de Duas Cidades” de Charles Dickens, que retrata a vida de dois personagens, um em Londres e o outro em Paris, e os conflitos de classes que passam a ocorrer após a Revolução Francesa.

Batman é forçado a voltar, ainda sem saber sobre os planos para destruí-lo

Tendo um roteiro bem mais complexo que os dois primeiros filmes, e focando na desconstrução da persona de Bruce Wayne, que amargurado e afastado a cerca de oito anos do Batman (uma inspiração direta no começo de Cavaleiro das Trevas de Frank Miller) se vê forçado a retornar a ação mesmo após ser abandonado por Alfred, numa cena que mesmo para a trilogia, é um ponto fora da curva, um duelo de interpretação entre Cristian Bale e Michael Caine.

Bruce com Alfred - O caminho escolhido pelo agora ex-milionário faria o mordomo abandoná-lo

Um plano de vingança que destrói com todas as faces da vida de Bruce Wayne, da psicológica à financeira. Culminando com reconstrução da famosa cena de “A Queda do Morcego”, com Batman caído com a coluna fraturada pelo vilão Bane, que Tom Hardy encarnou muito bem apesar de sempre tendo parte do rosto coberta pela máscara que usava, precisando compensar esta pequena “deficiência” com um gestual mais largo em algumas cenas. Sendo que segundo o próprio ator o mais difícil de se fazer eram justamente as cenas de luta, já que Batman era seu herói desde criança, e aquilo era muito complicado,“bater no seu herói”.

Bane luta com Batman - Segundo Tom Hardy, as cenas mais difíceis dele fazer
Aqui vale ressaltar que mantendo sua coesão de evitar ao máximo elementos fantásticos nestes filmes, Nolan, assim como fez com Ra’s Al Ghul, mudou a origem do personagem. O que pode até ter desagradado muita gente, mas permitiu uma visão mais crua e visceral da transformação do personagem e suas motivações em destruir Bruce/Batman. Só que aqui não apenas se limitando ao Morcego, mas procurando destruir com todo aquele status quo que pela sua visão, assim como Ra’s Al Ghul, deveria acabar, mas que se torna também um ponto de virada para alguns personagens.




Como quando Bane lê na tevê a carta de Jim Gordon, que em mais uma cena muito acima dos padrões para filmes do gênero, tem mais uma vez Gary Oldman preenchendo a tela como se um exército de atores coubesse numa só pessoa, em seu diálogo com o policial John Blake (Joseph Gordon Levitt), tendo ali com sua verdade exposta a todos, conseguido tirar enfim um imenso peso dos ombros.

O policial John Blake e o agora comissário Jim Gordon

Ou por exemplo, Selina Kyle (a Mulher Gato, ainda que não se refiram a ela assim no filme) que revisa suas posições e vence seus medos. Aqui valendo ressaltar que Anne Hathaway está simplesmente maravilhosa, com a melhor representação da ladra gatuna que o cinema já teve, num traje que além de manter a tradição de dar um cunho funcional para algo antes só estético (no caso os óculos/máscara), é uma homenagem descarada a roupa usada por Julie Newmar no seriado dos anos 1960.

Selina Kyle(Anne Hathaway) - Traje homenageando Julie Newmar

 Lógico, que até hoje está viva na memória a atuação de Michele Pfeifer em Batman Returns de Tim Burton, mas por melhor que tenha sido a atuação de Michele, aquela Selina que parecia estar sob efeito de alguma substância alteradora da consciência está muito longe da verdadeira representação da personagem. Algo que Anne realizou a perfeição.


E acho que é importante aqui se abrir um parêntese para aquele que talvez seja o grande “Calcanhar de Aquiles” da trilogia, pois seu elenco feminino desde a apagada Katie Holmes, passando por excelentes atrizes como Maggie Gyllenhaal e Marion Cotillard simplesmente é algo que pouco ou nada convence. Quase como se elas estivessem ali num ato burocrático. Mais um ponto para Hathaway que nitidamente estava adorando estar ali.

Marion Cotillard e a nada convincente morte de Thalia Al Ghul
Fora isto é impossível não ressaltar algo que Nolan procurou costurar desde o primeiro filme, que foi a relação do Batman com as crianças, uma construção feita muito antes de Bruce colocar a capa sobre os ombros, lá naquela cena de “Begins” quando ao roubar frutas, às divide com um menino faminto, ou quando já como Batman, dá a outro garoto, na sacada do prédio um periscópio de presente, passando pelo filho de Gordon em “Cavaleiro das Trevas”, até chegar a “Ressurge” como um símbolo de esperança que é marcado pelos garotos do orfanato nas paredes para lembrar aos exercito de Bane que território era aquele.

A marca do "Morcego" nas paredes de Gotham

O mesmo orfanato de onde veio o policial John Blake, o Robin da vez. Lógico que não há como negar que este ponto foi uma grande brincadeira do diretor Christopher Nolan, principalmente pelo fato de no final ser revelado que o sobrenome de batismo do personagem era Robin. No entanto, mesmo aqui, ele ainda se manteve bem fiel à origem do personagem, já que em uma de suas releituras, Richard John Grayson, o primeiro Robin, após ter seus pais assassinatos vai parar num orfanato onde passa boa parte da juventude.

Jason Gordon Levitt, o "Robin" de Ressurge - Origem quase idêntica ao do primeiro Robin.

Além disto temos aquele festival de citações que vão desde a presença de Roland Daggett (Ben Meldensohn), personagem criado no episódio de apresentação da Mulher Gato em Batman The Animated Series;  um dedinho de leve de “Cavaleiro das Trevas” de Miller quando um policial mais velho diz para o novato que ele estava prestes a ver “um show e tanto”; até chegar a fazer uma citação/brincadeira com o Arqueiro Verde ao colocar Bale caracterizado com um bigode e cavanhaque num tom mais claro, quase loiro, e numa cena no qual usa arco e flecha.

Bruce Wayne  ou seria o Arqueiro Verde?  - Mais uma liberdade de Nolan.

Mas se há uma coisa que não pode ser negada nesta trilogia é que os filmes se completam, formando um círculo perfeito. Pois se lá em “Begins”, Bruce afirma que como homem ele poderia ser destruído, mas como símbolo ele poderia ser eterno, é exatamente isto que os minutos finais de “Cavaleiro das Trevas Ressurge” nos brindam.

O embate final entre Batman e Bane.

A começar pela sequência da luta final, que é a primeira ocasião desde o seriado cômico dos anos 1960 em que o Batman aparece durante o dia.



Passando por uma cidade se redescobrindo em cada um, num filme no qual não houve um protagonista, já que todos os envolvidos tinham pesos praticamente idênticos, algo que fica claro na cena em que Batman revela sua identidade a Gordon e diz que qualquer podia ser um herói, pouco antes de carregar a bomba atômica rumo ao horizonte, salvando a cidade e se tornando aquilo que havia almejado.


E mais que merecidamente tendo seu final feliz, ao ser avistado por Alfred num café na Itália com Selina ao seu lado.

Após se fazer de morto, Bruce consegue seu final feliz ao lado de Selina

Deixando o legado do Morcego para Blake que descobre a Batcaverna abaixo da Mansão Wayne que tinha sido deixada para os órfãos e fechando de forma perfeita um trabalho feito com esmero, preocupado, sobretudo em se contar uma boa estória, que venceu a inclusive a pressão dos executivos do estúdio e que muito dificilmente veremos ser repetido nos dias de hoje.

                                




















terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Batman - A Trilogia (parte 2)

Oi gente!

No primeiro artigo sobre da trilogia “Cavaleiro das Trevas” de Chistopher Nolan, havia me referido à sabedoria de não terem gastado logo de cara as cartas mais conhecidas do baralho dos antagonistas do Batman logo no primeiro filme, e como cada uma dos vilões tinha sido fundamental para o surgimento e evolução do “cruzado encapuzado”.



E por falar em cartas, lógico, que todos se lembram da última cena, do encontro entre Gordon e Batman no alto do prédio da chefatura de polícia e a deixa do que estava por vir que é deixada.... A chegada do Coringa!
E aqui começo a falar do filme considerado por muitos (talvez a maioria) como o melhor filme de heróis de HQ de todos os tempos.
18 de julho de 2008. Estreava nos cinemas estadunidenses Batman – O Cavaleiro das Trevas.
A continuação de “Batman Begins” que não apenas colocou o Homem Morcego em rota de colisão com seu mais conhecido inimigo, como colocou o público em rota de colisão com um filme de roteiro inesperado, e que estabeleceu um patamar nunca antes galgado em produções do gênero.



Dois anos após o surgimento do Batman, os mafiosos de Gotham estavam acuados, diante das ações do Morcego que junto ao agora tenente James Gordon fechavam o cerco ao seu redor. E é em meio a este cenário que surge o Coringa. Nos quadrinhos um personagem de muitas caras, mas de poucos objetivos concretos, que pessoalmente nunca entendi muito bem como foi alçado ao posto de arqui-inimigo do “Homem Morcego”, que sempre visualizei estar muito mais próximo do Espantalho por exemplo.
Contudo, uma das melhores (ou seria terríveis?) versões do Palhaço do Crime, aquela escrita por Alan Moore na icônica HQ, “A Piada Mortal”, na qual o personagem quer provar que todos podem “ultrapassar a linha” e se tornarem alguém como ele, bastando para isto apenas ter os “estímulos” necessários, ou como o próprio diz “Um dia ruim”, acabou por indicação de Jonathan Nolan, irmão do diretor Christopher, servindo de base para o argumento, e maximizada, testar os limites de todos os personagens.
Tendo um Heath Ledger quase que possuído, e obcecado pelo ato da construção de seu Coringa como poucas vezes se viu com um ator na história do cinema, criando algo muito além da célebre frase: Por que tão sério? (Why So Serious?).

Uma incrível coletânea de frases marcantes.

E servindo muito bem para contextualizar isto, temos a famosa sequência do interrogatório. Uma das primeiras cenas a serem filmadas, feita quase sem ensaio algum, na qual a pedido e com autorização expressa de Ledger, Christian Bale bateu de verdade a maior parte do tempo em seu colega de cena, que teve seu final editado pelo próprio Nolan, que considerou excessivo que Batman num último ato de fúria chutasse cabeça do Coringa.

A cena do interrogatório - Batman batendo de verdade.

Mas esta não foi à única e talvez nem mesmo a mais inusitada das histórias envolvendo Ledger e seu Coringa durante as filmagens, e entre tantas podemos destacar facilmente três:
A festa – Nela praticamente ninguém ainda tinha visto Ledger com sua caracterização e sua maquiagem, que de forma proposital ou não à medida que “derretia” no rosto do ator, se tornava ainda mais assustadora. Acarretando nesta sequência em duas travadas históricas. A primeira de Michael Caine (Alfred) que possuía uma fala assim que o Palhaço do Crime entrasse na festa, mas que ao dar de cara com Ledger caracterizado simplesmente travou e mesmo assim Nolan não interrompeu a cena, e em seguida a travada de Maggie Gyllenhaal (Rachel Dawes, substindo Katie Holmes). E a fala de Ledger, na qual ele segura o rosto de Maggie e repete “Olha pra mim. Olha pra mim”, que foi um improviso, pois como assumido tempos depois pela atriz, ela simplesmente não conseguia olhar para a figura a sua frente.

Maggie Gyllenhaal e o susto ao dar de cara pela primeira vez com o visual do Coringa

A prisão – E falando em improviso, na cena que o Coringa já está preso, e Gordon chega e é ovacionado pelos demais policiais, o seu bater de palmas sarcástico não estava no roteiro, e Nolan que filmava com duas câmeras quase que perde a cena.


O detonador – Na cena em que o Coringa explode o hospital, mais uma vez fazendo algo que ninguém faz, como no caso da perseguição ao Batmóvel em Begins, Nolan resolveu que a sequência de pirotecnia da cena seria comandada pelo próprio Ledger, deixando um detonador rádio controlado em sua mão. Mas não é que a traquitana resolveu falhar. Contudo, a cena ainda prosseguiu por alguns instantes. Tempo suficiente para as explosões começarem, dando um susto em Heath Ledger (sim, aquele ato de reflexo dele foi legítimo), mas que mesmo assim deu continuidade a cena.



Mantendo o personagem sem um passado definido, como era antes da HQ de Moore, o roteiro trabalha a perfeição a função de aguçar seu mistério para o público, dando as suas ações ainda que extremamente planejadas um grau de visceralidade digno de um verdadeiro psicopata.
Um conceito que muitos erroneamente se apressaram em rotular como “anarquista”, mas que passa longe do viés político do mesmo. Viés este só abordado no filme seguinte. Pois aqui o Coringa é antes de tudo um grande corruptor, explorando cada uma das possíveis fraquezas de todos. Da ganância dos assaltantes de banco, passando pelo medo dos mafiosos com relação ao Batman até óbvio usando o amor e a desilusão como armas letais.


Alfred e Bruce, laços ainda mais estreitados no segundo filme.

Conseguindo com isto desde corromper a policial Anna Ramirez (Monique Curnen) num arco baseado na personagem Renee Montoya, que pessoalmente não entendo como não foi usada aqui. Até subverter completamente o promotor Harvey Dent (Aaron Eckhart, muito bom) que se transforma no vilão Duas Caras.

O antes e depois da composição do Duas Caras, na primeira figura os pontos de "captura de movimentos."

E fazendo Batman chegar terrivelmente perto de romper a linha que traçou pra si mesmo, a modificar o aparelho de sonar de Lucius Fox para espionar a cidade inteira.

Lucius Fox descobre oque Bruce tinha feito com sua invenção.

Uma coletânea tão grande de maldades e atos inesperados (valendo aqui mencionar a icônica cena do lápis) que não me furtaria em afirmar que fato se tornou o maior vilão da história do cinema.
Desculpa Darth Vader...



 Além disto o filme ainda trabalha o conceito que a presença do Batman alimentava a surgimento de malucos, como os “justiceiros” da sequência do prédio garagem e até mesmo o de figuras como o próprio Coringa.

Enquanto analisávamos os quadrinhos, houve uma ideia fascinante que a presença de Batman em Gotham atrai, de fato, os criminosos a Gotham. Ela atrai os lunáticos. Quando você está lidando com questões polêmicas, como a 'justiça com as próprias mãos', você precisa realmente se perguntar: 'aonde isso leva?'. É isso que deixa o personagem tão obscuro, porque ele expressa um desejo vingativo."
— Nolan, falando sobre a continuação

Fora isto temos um massacre de referências que vão desde a série clássica de 1966 até a inusitada presença de um cartaz do filme Homem Aranha 3 em uma das cenas.

Referência ao clássico seriado cômico de 1966

E a melhor síntese feita com o Batman até hoje num filme live action. Pois fora a já citada cena na qual ele reinventa o aparelho de sonar de Fox mostrando seu lado cientista.
Temos seu lado detetive, presente desde Begins, mas que chega neste filme ao ápice de vermos ele investigando buracos de balas pra descobrir qual arma foi usada.
Seu lado que se divide em ser o Batman e tentar ainda que sabendo impossível, possuir uma vida ao lado de alguém (mais um dedinho de influência de A Máscara do Fantasma?).
Até as cenas espetaculares de ação, como na icônica cena em que num prédio em construção enfrenta um problema triplo ao ter reféns vestidos como bandidos, bandidos que se disfarçavam de paramédicos, além de ter de anular uma equipe inteira da SWAT, tudo isto ao mesmo tempo.

Bale no alto de um prédio ensaiando a cena da invasão ao prédio de Lau em Hong Komg
Se encerrando de forma dramática, porém, não pesada, parecendo um argumento de Dennis ONeil, o filme termina, como o próprio Batman partindo, sendo perseguido pela polícia, em sacrifício ao seu objetivo.

Harvey, Gordon e Batman - As ações do Coringa fariam seus destinos convergirem de forma dramática

Enquanto Gordon explica ao filho que ele até podia ser o herói que Gotham merecia, mas não era o herói que a cidade naquele momento precisava. E que antes de tudo o Batman era um guardião silencioso, um protetor cuidadoso......um Cavaleiro das Trevas!

Batman - Perseguido pela polícia para defender oque acreditava

Mas como é citado durante o filme: A noite é sempre mais escura antes do amanhecer.
E este amanhecer chegaria, mas não sem grandes sacrifícios, até maiores do que os já enfrentados, mas sobre eles falarei apenas na terceira e última parte desta incrível saga. Até lá!
























quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Batman - A Trilogia (parte 1)



Meu contato primário com HQ’s vem da época da revista “Superamigos”, e nesta época o Batman que vinha sendo publicado era a fase escrita por Steve Englehart e desenhada Marshall Rogers, e assim como eu, uma geração inteira foi marcada por esta fase que foi uma das mais realistas do personagem, com estórias muitas vezes de conceito bem intimista que primavam, sobretudo por abordar as relações interpessoais dos personagens num nível até maior que o feito com o personagem antes por Dennis ONeil e Neal Adams (só pra lembrar, foi nesta fase, por exemplo, a primeira vez que Dick Grayson contestou abertamente Bruce Wayne).

 Quando do lançamento em 1989 do Batman de Tim Burton nos cinemas a decepção foi gigante, pois tudo ali era tão fake, tão artificial, tão cartunesco (no mal sentido mesmo), que não conseguia de forma alguma enxergar o personagem denso que lia nos quadrinhos naquilo. E nem vou citar os dois filmes de Joel Schumacher pra não gastar o meu e o seu tempo. Oque lançou o personagem num verdadeiro limbo no cinema, mesmo que seu sucesso nas HQ’s e animações fosse notório.



E por que estou explicando tudo isto? Bem...
Há algum tempo atrás fiz um artigo aqui no “Ponte de Comando” sobre o icônico Superman de 1978 de Richard Donner, e naquela oportunidade me referi ao fato de como era complicado escrever sobre algo que tantos já haviam falado tanto.
E eis que mais uma vez aqui estou diante do mesmo desafio, só que desta vez em dose tripla. Resenhar a trilogia Cavaleiro das Trevas de Cristopher Nolan. Uma tarefa complicada, mas ao mesmo tempo extremamente prazerosa que inicio agora por “Begins” (sem intenção de trocadilho).



No começo de 2003 eis que a Warner decide retomar a franquia Batman, e para isto chamam o diretor Cristopher Nolan (Amnésia) para comandar o projeto. Contudo, oque talvez nenhum executivo do estúdio pudesse imaginar fosse que Nolan, fã do Superman de Donner, tomaria o projeto pra si, bancando abordar o personagem por seu viés mais realista, que sempre tinha ficado para trás nas versões anteriores do Morcego no cinema.

Nolan com Richard Donner, inspiração e admiração

Vamos aqui deixar claro que Nolan nunca mentiu ou tentou se auto promover dizendo um fã de HQ’s, e talvez, ou justamente por isto seu trabalho de pesquisa precisava (e foi) extremamente minucioso, e no caso de “Begins” extremamente calcado na fase citada de ONeil e Adams além óbvio de “Batman Ano Um” de Frank Miller e até mesmo o longa de animação “A Máscara do Fantasma”, só pra citar três fontes de inspiração mais relevantes.
Tudo para criar um amálgama que conseguisse condensar décadas e décadas de versões e visões do personagem e não apenas vislumbrando a mera adaptação fácil de um autor apenas.

Batman e o objetivo que nortearia a saga

Avesso ao subterfúgio fácil e tentador dos efeitos por computação gráfica, usados aqui na maioria da cenas apenas para retocar as mesmas, por assim dizer, construiu toda a escalada do personagem até seu surgimento sem a menor pressa, tal qual Richard Donner fez com Superman. E dando ao Batman um objetivo, uma missão, que ao longo dos três filmes da franquia perfazem um círculo perfeito.
Além de tomar decisões técnicas, como manter sua visão sobre um novo Batmóvel totalmente repaginado e agressivo,    que durante a cena da fuga de Arkham, quando Batman é perseguido pela polícia, alcançou a insana velocidade de 110km/h, coisa que simplesmente ninguém faz, não só pela dificuldade, como pela questão da segurança, usando comumente de vários artifícios para criar a ilusão de que os carros estão  em altas velocidades.

O Thumbler (o novo Batmóvel) em cena à 110km/h.

Ou quando optou por um Batman que de fato usasse de golpes de defesa pessoal, coisa que antes só me recordo ter visto em “Máquina Mortífera”, por coincidência (ou não) outra obra de Richard Donner.



Fora ter dado funcionalidade a itens da roupa do personagem como o aparelho de escuta nas orelhas e a capa que se tornava rígida se transformando numa espécie de asa-delta.



Mas e o elenco? Pois é, aí vamos para aquele conhecido capítulo à parte.
Mais uma vez seguindo a cartilha traçada lá em 1978, construiu um elenco recheado de atores de primeira linha, aqui não apenas para em tese atrair público, mas mais ainda, para construir com solidez as relações entre estes personagens.
Lógico que para começar, precisamos falar de Christian Bale, que escolhido entre outros atores como Jake Gylenhaal e Cillian Murphy (ele mesmo, o Espantalho), teve a tarefa de encarnar absolutamente todas as facetas de Bruce Wayne/Batman durante sua evolução até surgir como o “cruzado encapuzado” de Gotham.

Bale testando a roupa de Batman

Nos brindando ao longo da trilogia com diálogos absolutamente antológicos que poderiam ser inseridos em diversos contextos diferentes das relações humanas, conseguindo assim fazer com que mesmo o público não fã de quadrinhos se importasse com o personagem e seu destino.

“...alguns atores poderiam interpretar um excelente Bruce Wayne ou um excelente Batman, mas Bale podia interpretar as duas personalidades radicalmente diferentes” (David S. Goyer - roteirista)

Sem falar que Bale era fisionomicamente, a cara do Bruce Wayne clássico desenhado por Neal Adams.

Bale, fisionomicamente muito parecido ao Bruce de Neal Adams.

E aqui é preciso citar que talvez a maior sabedoria dos realizadores desta trilogia foi entender que o Batman só é o Batman devido a todos aqueles coadjuvantes de importância igual ao do personagem principal, e de se entender que quando se fala do Batman de Gotham City estamos falando de todo um universo à parte do restante do universo da DC Comics, que possui vida própria, e intimamente ligado com questões muito reais. Então, à medida que Alfred (Michael Caine), Lucius Fox (Morgan Freeman), e principalmente James Gordon (Gary Oldman) vão surgindo e se mostrando elementos essenciais na construção da trama isto fica nítido.

Lucius Fox, Alfred Pennyworth e Jim Gordon, cada um espécie de face do própio Batman.

Sendo que Oldman configura aqui um caso absolutamente a parte, pois a princípio ele estava escalado para viver um vilão, porém, quando Chris Cooper desistiu do papel, este lhe foi oferecido.
E oque isto tem de mais? Bem, desde “O Profissional” e seu incrível Norman Stansfield que Gary Oldman vinha estigmatizado, só fazendo papéis de vilões e malucos. E por melhor que os fizesse isto não deixava de ser uma injustiça com um ator tão incrível e versátil. E eis que Oldman pega esta oportunidade, e em meio a personagens que vivem no limite e que pela própria natureza representam extremos, nos brinda com um maravilhoso bombardeio de sutileza, feito não apenas de diálogos incríveis, mas de pequenos gestos e olhares, que simplesmente muitas vezes passam despercebidos pelo público médio, numa verdadeira aula de interpretação. Tornando seu Jim Gordon uma representação tão perfeita, que arriscar-me-ia dizer estar no mesmo nível de Cristopher Reeve e seu Superman.

Gary Oldman, e sua incrível sutileza na composição de Jim Gordon.

Que bom que não se tornou vilão (risos).

Ra's Al Guhl e Espantalho, escolha certa de antagonistas.

Até porque de vilões este filme está muito bem servido, pois mais uma vez fugindo da obviedade de se colocar aqueles personagens mais conhecidos, “Begins” não é apenas atento à construção histórica do personagem principal, mas também há como seus antagonistas funcionam em sua escalada, nos trazendo uma galeria de vilões que iam desde os destaques para Ra’s Al Ghul (Liam Nesson) e Espantalho (Cillian Murphy, simplesmente incrível, sendo o único antagonista presente nos três filmes).

Cillian Murphy e seu Dr.Crane/ Espantalho
Passando pelo chefe mafioso Carmine Falcone (Tom Wilkinson) talvez o grande responsável por abrir os olhos do jovem Bruce Wayne para o mundo.

Carmie Falcone (Tom Wilkinson)

Até o “service” de colocar o matador Victor Zsasz (Tim Booth) numa cena de uma audiência de custódia.

Victor Zasz (Tim Booth)

E para embalar tudo isto a maravilhosa trilha sonora de Hans Zimmer pontuando de maneira perfeita cada momento do filme, talvez apenas com um único “porém”, a ausência de um tema-principal que fizesse com Batman, o mesmo que aconteceu com Superman e a música de John Williams, ou mais recentemente com o tema da Mulher Maravilha.



Mas como estamos falando de uma saga, vou parando por aqui, para no próximo episódio falar sobre “O Cavaleiro das Trevas”, aquele que é considerado por muitos o melhor filme do gênero, suas histórias talvez mais inacreditáveis que a ficção, e como Heath Ledger e seu Coringa destronaram Darth Vader do posto de maior vilão da história do cinema. Até lá.



                                

           



                                 












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