terça-feira, 4 de abril de 2023

Joker Game

 

Não é segredo para ninguém que as animações japonesas de uns anos para cá vem passando por um de seus períodos de menor criatividade.

Notoriamente se encostando em produções pobres, com personagens rasos, esporrentos e gritões, que se esgueiram em simulacros bizarros de roteiro, apoiados nos piores cacoetes narrativos possíveis.

Contudo, mesmo nestas épocas de secas veredas criativas, ainda surgem animações capazes de romper com este bizarro status quo alimentado por um público imediatista e sem nenhum referencial anterior em sua maioria.

E uma destas exceções ganhou a luz do dia em 2016 através do estúdio IG.

Seu nome? Joker Game!

Mas afinal, o que Joker Game tem de tão diferente?

Deve ser o que você que está lendo deve estar se perguntando agora.

Em outras épocas talvez eu até dissesse que eram poucas coisas, mas pelos motivos apresentados na introdução deste artigo, tenho que afirmar que é muita coisa.

Para começar a dissertar sobre Joker Game, precisamos antes de tudo nos situar na época na qual é ambientada. O Japão pré-Segunda Guerra Mundial, mas precisamente o ano de 1937.

Que com suas erupções (se é que dá para chamar assim) sócio-políticas ao redor do globo, já demonstrava como os países moviam suas peças, ainda que de forma particular, criando o caldeirão que culminaria no maior conflito armado da humanidade até hoje.

Tenente-coronel Yuuki

E é neste cenário que o tenente-coronel Yuuki cria uma escola/agência muito especial. Seu objetivo? Encontrar, recrutar, treinar e coordenar um seleto grupo de jovens, que se tornariam os olhos e ouvidos dos interesses nipônicos pelo mundo.

E este grupo especial passa a ser conhecido como a Agência D.

Alguns podem até dizer que Joker Game se trata de uma típica estória de espiões, daquelas onde todos suspeitam de todos, mas creio, numa consideração pessoal, que está ao menos um degrau acima das demais obras do gênero, pois aqui de fato o roteiro foge completamente da armadilha do maniqueísmo que cedo ou tarde surge neste tipo de obra.

E um bom exemplo disto acontece logo no primeiro episódio quando Sakuma, um jovem militar encarregado pelos militares de monitorar as atividades da Agência D, se vê desesperado ao se dar conta que foi pego numa armadilha criada pelos próprios “colegas”.

Outro ponto positivo, e vou enfatizar este positivo, está justamente naquilo que muitos resenhistas, talvez bitolados pela especialização em só seguir um tipo de conteúdo, disseram por aí ser uma péssima escolha, que foi terem feito o anime com estórias que se fecham em torno de si, as vezes num único episódio inclusive.

Seria engraçado, se não fosse não fosse triste, pensarmos que tentaram “diminuir a nota”, digamos assim, de Joker Game baseado nisto. Pois se fosse assim teríamos que diminuir a relevância de animes absolutamente clássicos como “Bubblegum Crisis” e “Cyber City Oedo 808”.

E ainda que se possa levar em consideração algumas críticas com relação a ausência de um protagonista central, já que todos os personagens se tornam cada um protagonista de algum dos doze episódios, é impossível não lembrar novamente do já citado e já resenhado aqui, “Oedo 808”, no qual cada episódio possui seu protagonista.

Uma decisão sábia ao meu ver, já que ainda que nossos “anti-heróis” possam compartilhar de uma mesma doutrina e terem sido treinados pelo mesmo mestre, são indivíduos distintos, que serão testados em suas missões não apenas em suas habilidades, mas também em suas certezas.

Até porque, se existe esta atribuição de elemento centralizador, ela está mesmo com o tenente-coronel Yuuki. Hora pragmático, hora ardiloso, e até mesmo tendo lá seus momentos de mentor, mas que sobretudo incorpora o arquétipo de um patriota de mente distorcida que ao que parece a muito se perdeu em seu próprio monstro.

Fora isto, ainda que possa estar sendo redundante, Joker Game nos brinda com roteiros absurdamente ágeis, de diálogos inteligentes, que mesmo em momentos mais lentos, jamais criam barrigas em sua narrativa.

Joker Game trás uma reconstituição de época primorosa

E lógico, uma reconstituição de época primorosa, em especial do Japão da década de trinta do século passado, já cosmopolita por um lado, mas inegavelmente tentando se manter visualmente tradicional por outro.

Fora lógico, os inevitáveis choques culturais entre oriente e ocidente, que como é de imaginar permeiam a narrativa dos personagens.

Página do mangá de Joker Game

Baseado numa série de cinco contos escritos por Koji Yanagi, publicados originalmente em 2008.

A versão live action de Joker Game

E que inusitadamente ganhou uma versão live action em 2015, ou seja, antes da animação, Joker Game ao longo de seus doze episódios antes de tudo nos mostra como a guerra, ou mesmo situações limite, podem ser o catalizador do que existe de pior e de melhor no ser humano.

Além de que, mesmo sendo o uma obra de ficção, nos presenteia com uma excelente aula de história.



 

Este artigo é dedicado a Flavio Ceolin Lamas. Grande fã de “Sandman”, historiador, amigo, pai e filho, que muito nos honrou durante sua passagem por este plano... Muito obrigado, amigo!



 

 

sexta-feira, 24 de março de 2023

Michael Reaves - O Verdadeiro Rei das Manhãs!

 

Em geral quando pensamos em animações feitas para tevê, nos vem a mente os nomes de produtoras famosas e seus criadores como Hanna-Barbera, Ruby&Spears ou a Filmation, todas estas aliás já representadas aqui no blog com seus devidos artigos.

Mas isto é antes de tudo resultado do trabalho de muitos talentosos artistas. E foi com extremo pesar que apenas um mês após a passagem do grande Leiji Matsumoto, recebo a notícia de que Michael Reaves, talvez o mais célebre escritor para animações norte-americano também nos deixou.

Portanto, convido você que está lendo a embarcar no reino de Michael Reaves, o verdadeiro rei das manhãs.

James Michael Reaves, nasceu em San Bernardino, Califórnia, em 14 de setembro de 1950.

Mesmo não indo bem na escola, onde era considerado um aluno bem fraco, tinha, porém, uma carta escondida, pois sempre gostou de escrever. E começou cedo suas tentativas de viver daquilo que escrevia, mas até 1972 não logrando nenhum êxito. Até que neste ano foi aceito num workshop para escritores de ficção em Michigan.

Daí então se mudou em 1974 para Los Angeles, onde trabalhou imaginem onde? Numa livraria!

Mas também teve que labutar bastante numa das lojas da Sears, uma rede de lojas de departamento, que inclusive teve lojas aqui em Terra Brasilis durante alguns anos.

"A Poderosa Ísis" abriu as portas para Michael Reaves

Até que em 1975 conseguiu vender seu primeiro roteiro para a produtora Filmation, que se transformou num episódio da série live action da Poderosa Ísis. Fazendo sua transição para a mídia que o iria consagrar em 1976, escrevendo ainda para Filmation roteiros para a animação da “The Archie/Sabrina Hour”.

"I, Alien" - o primeiro romance de Reaves

E já em 1978 lançou seu primeiro livro, um romance para jovens chamado “I, Alien” (ainda assinando como Reeves ao invés de Reaves), e um outro mais voltado para o considerado público adulto, “DragonWolrd”, co-escrito com Byron Press.

Mas como em outros textos já publicados aqui, vou dizer que tudo que havia acontecido até então se tornaria apenas um ensaio para o que estava por vir.

Chegamos a década de 1980!

E a partir daqui Reaves passaria a cunhar de vez seu nome como um dos mais prolíficos escritores para séries, tanto em animação quanto live action que já existiram.

Nem vou tentar aqui neste texto citar todas as produções em que Michael Reaves esteve presente ao longo daquela década pois seria loucura. Mas como alguns exemplos temos:

Blackstar,

Homem-Aranha e seus Incríveis Amigos,

Flash Gordon,

Pole Position,

Centurions,

Os Caça-Fantamas (aqueles do filme, não aqueles da Filmation),

He-Man e os Mestres do Universo (aliás, Reaves se envolveu em quase todas as produções do herói de Eternia, a exceção da última versão produzida pela Netflix),

As Tartarugas Ninjas,

Superman,

E lógico nossa querida Caverna do Dragão.

 

Para o qual coube a Reaves escrever o lendário último episódio que acabou não sendo produzido e se tornou lenda urbana por décadas.

Sendo que a série para o qual mais escreveu neste período (63 episódios) foi Os Smurfs, passando longe do espectro da aventura que mais o consagrou.

Ainda nesta área uma interessante porta se abriu para Michael Reaves quando escreveu para as séries animadas “Ewoks” e “Droids”, pois permitiu ao escritor adentrar no universo de Star Wars, escrevendo por exemplo o romance Darth Maul: Shadow Hunter.



Mas não apenas as animações usufruíram do talento de Reaves nesta época, estando presente em alguns seriados live action como: Capitão Power e os Soldados do Futuro, Além da Imaginação e até Jornada nas Estrelas: A Nova Geração.

E ainda sobrou até um tempinho em 1987 para sua estreia nos quadrinhos em “Teen Titans Spotlight #14”, numa estória que envolvia o Asa Notuna e o Batman.

Parece muito? Sim parece. Mas acredite, o melhor ainda estava por vir com a chegada dos anos 1990.

Não que tal “vírgula temporal” signifique algo para um artista que sempre produziu tanto, e em geral com uma qualidade acima de seus contemporâneos.

E o que Michael Reaves faria se tornaria absolutamente icônico.


Pois ao mesmo tempo em que escrevia para seriados como The Flash (sim, aquele mesmo com John Wesley Shipp) e O Jovem Hercules.

Se envolvia nas mais variadas produções de animação como Fantasma 2040 e a série animada do Monstro do Pântano.

E como não poderia deixar de ser, James Michael Reaves, esteve presente naquelas que seguramente são as séries de animação para tevê mais importantes daquela década: Batman The Animated Series e Gárgulas!

Em Batman TAS, foi autor e coautor de 28 episódios.

Reaves ganhou um Emmy pelo roteiro de "Coração de Gelo"...

Dentre estes “Um Sonho Por Acaso”, que era o preferido de Kevin Conroy, o ator que dava vida ao Morcegão, e o icônico “Coração de Gelo” que redefiniu a origem de Mr.Freeze, tornando-o um vilão de primeiro escalão, e pelo qual Reaves, junto com Paul Dini, Martin Pasko e Sean Catherine Derek, ganhou um Emmy.

...além de co-escrever o clássico "A Máscara do Fantasma"

Sem falar que junto novamente a Paul Dini, Martin Pasko e Alan Burnett, foi um dos responsáveis por aquele que é considerado por muitos, o melhor longa-metragem do Batman até hoje, “A Máscara do Fantasma”.

A moral de Reaves era tão alta, que a despeito da briga interna que fez boa parte da equipe de Batman TAS ir para Disney realizar Gárgulas, ele foi o único roteirista que conseguiu transitar livremente entre as duas produções ao mesmo tempo.

Reaves foi o único roteirista a ter transito livre entre as séries Batman TAS e Gárgulas

E sua participação em Gárgulas foi tão importante quanto na série do cavaleiro das trevas, estando presente em cerca de 22 episódios das aventuras de Golias e seu clã.

Dentre estes a saga inicial de cinco partes, “Despertar”. E o famoso, e graças a pais histéricos, “polêmico” (sim coloquei aspas aí) episódio, “Força Mortal” pelo qual chegou a receber uma indicação ao prêmio Annie, o Oscar da animação em terras estadunidenses.

Elisa Maza baleada - Cena do episódio Força Mortal

Porém com a chegada dos anos 2000, Reaves teve que lidar com um adversário inesperado, a Doença de Parkinson. O que o levou a escrever um blog relatando sua luta contra a doença.

Obrigando nosso herói a progressivamente se retirar da correria que eram as produções televisivas. Ainda assim, nesta época co-escreveu com Alan Burnett o longa-metragem de animação do Batman, “O Mistério da Mulher-Morcego”, e um episódio para Jornada nas Estelas – New Voyages.

A trilogia "Interworld"-  O último grande trabalho

Seu último grande trabalho foi uma trilogia de livros chamada “InterWorld” escrita em conjunto com Neil Gaiman e com sua única filha, Mallory.

Deixando para todos nós não apenas um baú repleto de memórias maravilhosas, como um legado de talento e uma lição de vida de como buscar seus sonhos os tornando reais, criando um círculo virtuoso, fazendo outros tantos tornar seus próprios sonhos realidades.




segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Leiji Matsumoto - Um Capitão de Sonhos!

 

Poucos foram os artistas, nos mais diversos campos das artes, que tiveram sobre mim a influência e o impacto que teve Leiji Matsumoto e foi com profundo pesar e um certo grau de surpresa que tomei conhecimento da passagem do grande e icônico mangaká.

Um artista único, influenciador de gerações que vieram após, admirado por outros criadores de personagens icônicos em toda a parte do mundo, e para o qual passo a render nas próximas linhas minha modesta homenagem.

Nascido Akira Matsumoto, em 25 de janeiro de 1938, Leiji veio de uma família muito pobre, cujo seu pai viu nas forças armadas a chance de lhes dar uma vida melhor, se tornando piloto de caça, tendo combatido obviamente na 2ª Guerra Mundial, da qual conseguiu retornar com vida.

Ainda na infância ganhou de seu pai um projetor de 35mm no qual ironicamente assistia a desenhos animados norte-americanos durante a época da guerra no pacífico, ao mesmo tempo em que “devorava” romances de ficção de escritores como o inglês HG Wells e de seu conterrâneo Unno Juza (ou Juzo), cujo nome anos mais tarde usaria em um de seus personagens mais lendários.

Contudo, como a maioria do Japão no pós-Guerra, a família Matsumoto ainda tentava se reerguer, e o sonho do jovem de se tornar engenheiro ficou de lado. E para a felicidade das gerações que ainda estavam por vir, passou a se dedicar mais ao desenho.

Em 1954 ainda sob seu nome verdadeiro, Leiji (algumas pessoas escrevem Reiji devido a pronúncia), fez sua estreia na revista Mangá Shonen (termo em geral usado para quadrinhos dirigidos ao público masculino), mas também se aventurou nas revistas voltadas para as meninas, conhecidas por shoujo, afinal, mulheres trabalhando naquele meio, naquela época era muito raro.

Mas sua primeira grande chance só veio em 1971 com Otoko Oidon, uma estória sobre um ronin, mas nada a ver com samurais, e sim um estudante que terminou o ensino médio, mas não conseguiu ingressar numa faculdade, mas que ainda pretende fazê-lo, uma situação que se passou na vida de Leiji, pois quando seu irmão mais novo, Sussumu (sim, este nome mesmo, o do protagonista de Yamato), se formou no secundário, sua família não tinha condições de enviá-lo para uma faculdade, o que fez Leiji rumar para Tóquio para trabalhar a fim de que irmão concluísse sua formação.

Mas seu primeiro sucesso se deu em 1972, quando criou uma espécie de western de humor negro chamado Gun Frontier para a revista Play Comic, ao mesmo tempo em que trabalhava numa série de contos sobre a Segunda Guerra Mundial que passariam a se chamar Battlefield e que posteriormente seria a base para a animação The Cockpit.

Até que em 1973 seu caminho se cruza com o do produtor Yoshinobu Nishizaki, e a partir daí tudo mudou.

Nshizaki e Matsumoto - União que mudaria a história

Nishizaki, que até então pouco tempo antes trabalhava na produtora do lendário Osamu Tezuka apenas como um vendedor, tinha um projeto louco que estava na pré-produção, mas que devido problemas de verba (e uma certa dose de falta de criatividade) se encontrava completamente empacado.

Na premissa criada pelo produtor, a Terra no distante futuro de 2199 vinha sendo atacada por uma nação alienígena que queria colonizar o planeta. Até aí nada demais.

Patrulha Estelar - A obra que mudou os rumos da ficção científica

Ainda nesta premissa os habitantes de nosso planeta recebiam uma mensagem vinda do espaço que dizia que era possível limpar nossa atmosfera da radiação das bombas dos invasores, só que para isto, um grupo de destemidos viajantes precisava ir até os confins da Nebulosa de Magalhães buscar o tal antídoto.

Só que toda esta jornada seria feita em nada menos que um asteroide!

Sim! Um asteroide no qual iria se colocar um motor e que serviria de nave.

Olhando então para todo aquele sarapatel, Leiji Matsumoto perguntou se poderia mexer no projeto, e com a carta branca de Nishizaki, mudou para a sempre a história das animações, da ficção cientifica e até das artes.

Nascia ali a saga do Encouraçado Espacial Yamato, conhecida aqui por nós, os habitantes de Terra Brasilis como, Patrulha Estelar.

Foi de Leiji Matsumoto a ideia de se criar a nave a partir do antigo encouraçado Yamato, assim como foi sua a criação da maioria dos personagens que vemos, já que pouca coisa foi aproveitada da ideia original do Yoshinobu, além da premissa que se tornaria “Busca Por Iscandar”, a primeiras das três séries de tevê do Yamato.

Lembrando sempre que Patrulha Estelar não foi um mangá transposto para animação, e que sua versão em quadrinhos veio a ganhar vida de forma quase que concomitante a produção do anime.

Página da versão brasileira do mangá da Patrulha Estelar

Sua dedicação a saga foi tanta que numa entrevista de 2010, Matsumoto confirmou que deu “pitaco” até em sua música, pedindo ao maestro Hiroshi Miyagawa, compositor da trilha sonora, que o tema principal lembrasse algo como o segundo movimento da Terceira Sinfonia de Bethoven.

No que então obteve como resposta do maestro um: Tudo Bem! (risos)

E suas ligações com sua vida pessoal, incluso aí o passado de seu pai como piloto, ficam bem evidentes em diversos detalhes como as setas que adornam os uniformes da tripulação do Yamato, cuja inspiração veio de uma divisão aérea que usava os aviões Nakjima Hayabusa (o nome parece familiar?), cujos esquadrões eram identificados pelas cores diferentes das setas pintadas nos lemes das aeronaves.

As setas nos uniformes da tripulação do Yamato...

..foram inspiradas numa divisão de aviação japonesa

Só que a coisa começou a azedar entre Matsumoto e Nishizaki ainda à época do longa metragem “Adeus Yamato”, aquele com a estória do Cometa Império, que no final não sobra ninguém. Contudo, com a resposta negativa do público sobre a matança promovida no longa, e o consequente “recuo estratégico” dos produtores que decidiram recontar a saga na série de tevê que tão bem conhecemos, a parceria duraria mais um pouco.


Até que em 1979 em meio a produção do longa “A Nova Viagem”, Matsumoto se desentende de vez com Nishizaki largando o barco.

O motivo? Segundo Leiji, ele era contra a mania de Nishizaki de “matar todo mundo”.

Nas palavras do próprio mangaká:

Quando crio uma estória e um personagem, coloco tudo de mim nisto. Portanto, se o personagem é facilmente morto, parece que meu filho ou meu irmão foram assassinados”.

Contudo, apesar da raiva de Matsumoto que segundo relato próprio, teria rasgado o roteiro de “A Nova Viagem”, a relação com Yoshinobu ainda que por razões comerciais se manteve dentro do que se pode considerar como algo amistoso.

Matsumoto e Nishizaki juntos em 1980 no lançamento do longa "Para Sempre Yamato"

Ao menos até 1994 quando Nishizaki lançou por conta própria Yamato 2520 gerando o a briga judicial que relatamos aqui no artigo " Ih! Deu Ruim! Alguns dos Mais Loucos Processos Judiciais da Cultura Pop!".

Ainda que afastado de sua maior criação desde 1979, Leiji Matsumoto trilhou seu próprio caminho de maneira quase exemplar.


           Criando alguns outros clássicos como “Galaxy Express 999”, “Queen Emeraldas” e o icônico “Capitão Harlock e a nave Arcadia”.

Nos planos de Leiji, o Capitão Harlock estaria em Patrulha Estelar

Capitão Harlock que diga-se de passagem, pelos planos originais de Matsumoto deveria ter feito sua estreia fora dos mangás em “Busca Por Iscandar”, mas que devido aos cortes de orçamento ficou de fora da versão final da primeira saga do Yamato.

E seu nome facilmente se tornou referência para vários artistas ao redor do mundo, como nosso Maurício de Souza, e até Gene Rodembery o criador de Jornada nas Estrelas. Ainda que reze uma lenda urbana de que na casa dos Rodemberry que de fato era fã de Matsumoto era a esposa de Gene (risos).

Matsumoto e Maurício de Souza

Sendo que nesta seara, Leiji Matsumoto possui um capítulo que creio ser único.

Estamos no ano de 2001, e lá na França (lugar em que Matsumoto é reverenciado quase que como uma divindade), a dupla de música eletrônica Daft Punk estava prestes a lançar o álbum “Discovery”. Um trabalho quase conceitual no qual os dois mascarados que compunham a dupla, pretendiam fazer uma homenagem a infância.

Só que na cabeça dos dois, só o CD não parecia algo suficiente para promover seu novo trabalho, e eis que tiveram uma ideia tão louca, mas tão louca, que mesmo eu até hoje não consigo acreditar que deu certo.

Transformar aquele novo trabalho numa experiência audiovisual. E bolaram um roteiro para um pequeno filme de ficção-cientifica. Mas calma, se a coisa fosse só isto, tudo seria muito simples.

Como o álbum versava sobre infância, por que não tentar fazer com que um dos heróis de infância da dupla aceitasse uma empreitada conjunta?

Uma junção inusitada, Matsumoto e Daft Punk

E sim! É exatamente isto que você está lendo. Munidos apenas de coragem e uma alta dose de cara de pau, a dupla foi até o Japão, e sem nenhum aviso “bateu na porta” de Leiji Matsumoto, que para surpresa deles, topou a ideia. E passou a supervisionar toda a produção do longa que foi realizada pela TOEI Animation.

Não que esta união música e animação fosse uma grande novidade em se tratando de produções nipônicas, mas nunca nada do gênero havia chegado nem perto daquilo.

E em 2003 o longa “Interstella 5555” ganhava a luz do dia, sendo a numeração do título na verdade uma brincadeira que significa a sigla, “Secret Story of Star System”.

 E se você que está lendo este artigo, acha que seja impossível dar uma voltinha em alguma nave projetada pela mente de Matsumoto vou aqui lhe dizer que isto é mais fácil do que se pensa, pois em Tóquio existe um serviço de barco chamado Himiko Cruise, que funciona tanto como atração turística como taxi, e cujo o design é criação do mangaká.

Foi condecorado com a mais alta honraria de seu país, a “Ordem do Sol Nascente”, e na França com a “Ordem das Artes e das Letras”.

Apaixonado por gatos, Matsumoto foi “papai” de uma dinastia de gatas que sempre levavam o mesmo nome “Mi-Kun”, e que o artista sempre que podia fazia questão de retratar em suas obras.

O jovem Leiji, sua esposa Miyako e Mi-Kun

Casado com a artista Miyako Maki, conhecida no Japão por ter criado a boneca Licca-Chan (equivalente a Barbie em terras nipônicas), teve uma filha, Makiko, para qual neste último dia 20 de fevereiro coube a missão de comunicar ao resto do mundo que o gênio que encantou gerações segunda suas próprias palavras: Partiu numa jornada rumo ao mar de estrelas.



 

 

 

Patrulha Estelar e suas vozes inesquecíveis!

  Fazendo uma rápida pesquisa na web, não é assim tão difícil encontrar alguns artigos que citam os dubladores que nos anos 1980 na extinta ...