terça-feira, 1 de setembro de 2020

Batman - Estranhas Aparições - A Era Englehart


Em 1977 vindo da Marvel, após diferenças com Gerry Conway com o qual dividia a roteirização de “Vingadores”, o escritor Steve Englehart aceitou o convite da DC Comics, e assumindo a revista “Detective Comics”, marcou a história dos quadrinhos com aquela que muitos definem como a fase que deu a “arte final” ao Batman.
Um período bem curto, formado por apenas oito edições, mas que foi fundamental para evolução do “Morcego de Gotham”, e que ficou conhecido como “Estranhas Aparições”!


Se você que está lendo acompanha o “Enquanto Isso na Ponte de Comando”, já deve ter esbarrado em algum artigo que escrevi envolvendo Batman, e alguma citação a fase escrita por Steve Englehart, e que em sua maior parte foi ilustrada por Marshall Rogers, e para a qual creio se faz necessária uma retificação histórica.
Mas por que tal retificação?
Bem, para começar, é preciso se ter uma visão geral da indústria dos quadrinhos em meados dos anos 70 e alguns de seus hábitos, para entendermos porque o que Englehart fez foi tão diferente para a época, e porque foi base para muita coisa que veio a acontecer apenas anos depois.


Naquela época, o normal era que as HQ’s não compusessem o que aqui chamamos de arcos, e os norte-americanos comumente chamam de run. E ainda que coisas do tipo não fossem algo inédito - é só lembrarmos aqui da saga Lanterna Verde e Arqueiro Verde de O’Neil e Adams para o qual já escrevi um artigo - , o normal eram que as estórias se fechassem apenas em uma única edição, sem nem mesmo um fio condutor.
Só que o que Steve Englehart fez aqui foi algo até então impensado, pois ao ir para a DC, o escritor havia dito a todos que aquela seria sua última incursão por aquela mídia, e que depois se dedicaria apenas a escrever romances, na boa e velha literatura tradicional.
E ao contrário de qualquer outro autor até então, escreveu toda a saga de “Estranhas Aparições” sozinho, sem contato com nenhum dos artistas que a ilustraram, e tudo de uma vez só, isto antes até mesmo de entregar a primeira edição para a DC Comics.
Uma saga que não apenas manteve a reestruturação do personagem iniciada na fase de Dennis O’Neil e Neal Adams , mas aprofundou as relações interpessoais de Bruce Wayne/ Batman como nunca havia sido feito antes, com toques de filme de terror (como aliás também nunca tinha sido feito), criando novos personagens, trazendo para o “primeiro time de vilões” outros e que ainda teve espaço para homenagens a “Era de Ouro” dos quadrinhos.


O começo de tudo, mais especificamente as duas primeiras edições, desenhadas por Walt Simonson, mostravam o “morcegão” as voltas com um vilão chamado Dr.Fósforo , um personagem daqueles que podem parecer numa primeira olhada, absurdamente inverossímil, e difícil de se encaixar num contexto digamos, mais pé no chão e psicológico, mas é ele que acende (desculpe, não consegui evitar o chiste - risos), o estopim para quase tudo que acontece depois.
E a partir daí entramos numa das mais incríveis parcerias escritor/cartunista de todos os tempos, quando Marshall Rogers assume a arte da saga.


Não que Simonson fosse um artista ruim, mas a verdade é que Rogers, um discípulo de Neal Adams, mesmo sem ter nunca estado até ali numa mesma sala com Englehart, conseguiu captar de maneira perfeita oque o escritor queria passar, extrapolando com tudo que já tinha sido imaginado para o “Morcego de Gotham” até aquele momento

.
Imprimindo um estilo que dava leveza às cenas de ação, opressão as cenas de terror, e que como nenhum outro até então (até mesmo Neal Adams, sim pode acreditar), dava uma especial atenção em como a cidade e todos os demais ambientes eram apresentados, sendo muito desta última característica devido sua formação como arquiteto.

Ser formado em arquitetura fazia Rogers ser quase um obececado pelos detalhes de Gotham

E se lembram do Dr.Fósforo? Pois é, graças a ele, Bruce Wayne vai parar numa clínica para se recuperar dos ferimentos, e fazer o Batman desaparecer por uns tempos, já que o chefe da máfia Rupert Thorne - um dos personagens criados por Steven Englehart - vinha usando de sua influência política para disseminar a ideia do Batman como um fora da lei.
E aqui de uma tacada só, Englehart costura toda uma trama que mistura terror, drama, intriga, e lógico, aquele bom heroísmo clássico. E com uma habilidade pouco vista até os dias de hoje para misturar o imponderável com o real.


Não é minha intenção aqui, ficar entrando nas minúcias da estória, até porque se você não conhece “Estranhas Aparições”, não quero tirar algumas das surpresas que nela estão.

Hugo Strange descobre que Bruce Wayne é o Batman...

Mas na tal clínica Bruce Wayne é drogado, e quando é tarde demais, descobre que o médico que dirigia o estabelecimento era ninguém mais, ninguém menos, que o Dr. Hugo Strange, um personagem que até ali estava “mortinho da silva”, até ser “ressuscitado” por Englehart, ganhando a notoriedade que tem até hoje.


E Strange tem a brilhante ideia de leiloar (sim, leiloar!), entre alguns dos principais antagonistas do “morcego” sua verdadeira identidade, enquanto ele próprio assume a identidade de Batman.
E neste contexto temos Silver St.Cloud!


Linda, inteligente e com um senso de humor afiadíssimo, a promotora de eventos, também criação de Englehart, era na época a namorada de Bruce, e que muitos defendem até hoje ter sido o único grande amor de Wayne nas HQ’s. Aqui vale ressaltar que naquela época esta relação foi absolutamente diferente de tudo, pois ao contrário de Thalia Al Ghul ou da Mulher-Gato que a bem da verdade nutriam um fetiche pelo Batman, aqui temos o primeiro relacionamento maduro de Bruce Wayne.


Ela então vai até a tal clínica saber do amado, numa tentativa que poderia ser descrita como decepcionante. Só que desconfiada de que algo de muito errado estava acontecendo, Silver resolve pedir ajuda. E liga para Dick Grayson, que na época estava na faculdade. E num primeiro momento Dick aparenta não levar muito a sério o que escuta... Num primeiro momento.
E eis que então surge Robin!

Um Robin casca-grossa como nunca tinha sido visto

Mas como assim Robin?! Não estavam querendo trazer o Batman para um espectro mais soturno e de acordo até mesmo com alguns pontos da ideia original do personagem?! É o que talvez você que esteja lendo possa estar pensando, não é?


Pois é, e aqui mais uma vez Steve Englehart mostra sua habilidade em caminhar numa fina linha que mistura o atual ou moderno (que permanece atual e moderno até hoje), com a linguagem mais clássica e simples do universo de heróis de quadrinhos.


Modernidade captada por Marshall Rogers, que reestilizou Floyd Lawton, o Pistoleiro, transformando-o quase que num caçador de recompensas de “Guerra nas Estrelas”. E que tem um embate clássico com Batman, numa daquelas cenas que citei, nas quais se percebe a fluidez e leveza que a perspectiva de Rogers dava.


A saga ainda abre espaço para dois vilões clássicos, o Pinguim e o Coringa. Quanto ao baixinho de cartola, ele se torna o antagonista da HQ em que a dupla dinâmica atua junta após muito tempo, e sua participação não vai além disto, mas quanto ao “Palhaço do Crime” temos um capítulo totalmente à parte.


Capítulo totalmente à parte, pois reza a lenda urbana, Englehart não tinha a menor intenção de incluir o “palhaço” em sua trama, e sua inserção teria sido imposta pela DC Comics.
Sendo assim, o que o escritor fez?


Simples, criou uma das HQ’s mais loucas de todos os tempos, a famosa estória dos “Peixes Risonhos”, na qual o Coringa contamina as águas de Gotham, fazendo os peixes ficarem com uma fisionomia parecida com a dele. Tudo um plano para cobrar royalties de direitos autorais sobre sua criação. Mas como o plano não dá certo, ele começa a assassinar os funcionários do escritório de patentes.
Aliás, uma representação que pessoalmente creio, Englehart tenha tido como inspiração sua própria persona. Pois de personalidade aguerrida e meio complicada, por várias vezes Englehart entrou em rota de colisão com editores e executivos de estúdios, na maioria das vezes cobrando direitos autorais sobre personagens seus que não nunca foram devidamente repassados os lucros ao serem usados em outras obras.

O traço de Marshall Rogers...

Uma mistura inusitada de um Coringa com um plano que parecia ter saído da animação do Batman derivada do seriado dos anos 60, mas que não deixou de mostrar o personagem como psicopata que era, e com uma representação visual que o deixava muito próximo ao ator que interpretou o “Homem Que Ri”, o personagem que foi inspiração para o “Palhaço do Crime”, mais uma vez mostrando como Rogers capitou com perfeição o que Englehart pensava.

...aproximou de vez o Coringa de sua inspiração primária.

E como “cereja do bolo” ainda somos brindados como a terceira versão do Cara de Barro, numa estória na qual Englehart se preocupa em contar toda a trajetória que fez o vilão chegar aquela condição, o que, aliás, já havia feito também com o Pistoleiro. E com aquela faceta de filme de terror que citei alguns parágrafos acima. Sendo que já no final desta run, o roteiro de Englehart teve a colaboração (ainda que a contragosto do escritor) de Lein Wein.

A imaginação da dupla Englehart/Rogers cria a mais amedrontaroa versão do Cara de Barro

Lógico que como nós sabemos, com o reconhecimento de “Estranhas Aparições”, Steve Englehart não abandonou os quadrinhos, e para nossa sorte alguns anos depois foi escrever Lanterna Verde, título para o qual criou um dos personagens mais carismáticos de todos os tempos, Killowog. E que ainda de quebra foi responsável pela reimaginação de Guy Gardner.

Killowog - Mais uma criação de Steve Englehart

Segundos relatos dele, desde o fim dos anos 1970 que a DC tinha planos para uma versão live action de Batman, movidos pelo sucesso do Superman de Richard Donner, e que ele mesmo teria apresentado três roteiros diferentes para o projeto, que dez anos depois acabou parando nas tresloucadas mãos do diretor Tim Burton, que descartou praticamente tudo que o escritor tinha pensado, só sobrando a inspiração de Silver St.Cloud para Vicky Vale (ainda que pessoalmente considere a personagem vivida por Kim Bassinger uma completa idiota, nem de longe se assemelhando a Silver), alguns traços do Coringa de Jack Nicholson, e obviamente inspiração do envenenamento que deixa as vítimas do Coringa com sua fisionomia.

Rupert Thorne em Batman TAS

Além disto, dá para se dizer que a obra de Englehart tem um fã ilustre em Bruce W. Timm, que em "Batman The Animated Series", não apenas “adotou” Rupert Thorne como seu mafioso de cabeceira, como adaptou duas estórias de “Estranhas Aparições”: Os Peixes Risonhos e Eu Sou O Batman (que ganhou o título de “O Estranho Segredo de Bruce Wayne).


Em 2006, enfim de fato trabalhando juntos, Steve Englehart e Marshall Rogers retornam a Batman e seu universo, era The Dark Detective. Porém, a obra, que teve alguns de seus elementos adaptados para o filme “Batman O Cavaleiro das Trevas”, ficou inacabada após a morte de Rogers em 2007.

Dark Detective marcou a volta da parceria Englehart/Rogers...


...mas a obra ficou "inacabada".

Lembrada, ovacionada e reverenciada em outros países, como uma das sagas que de fato definiram o assim chamado “Batman moderno”, segue aqui em Terra Brasilis pouco conhecida, por uma geração que nem faz ideia que muito daquilo que dizem gostar já tinha sido feito bem antes de outros autores que se valeram de tudo que já tinha sido construído e de um momento favorável para se autopromover, mas que até hoje bebem da fonte desbravada por Steve Englehart em Estranhas Aparições.

Uma das vezes que "Estranhas Aparições" foi publicada no Brasil, na revista "Superamigos"







sábado, 8 de agosto de 2020

As Mil Faces de Mark Dacascos - O Rei das Locadoras


Houve uma época, quase esquecida, no meio dos anos 1990 na qual os antigos e grandes cinemas de rua começaram a fechar, em parte devido à concorrência dos cinemas de shoppings e em parte por ser difícil por várias razões manter sua estrutura.
Nesta época várias produções que em outros tempos chegariam as grandes telas brasileiras, e de outros países também, acabavam sendo lançadas diretamente para o mercado de home vídeo, e nesta época alguns nomes se destacaram.
Entre estes, um ator que poderia facilmente assumir os mais diversos papéis devido seus biotipo e ascendência, especialista em diversos tipos de artes marciais que vão do kung-fu até capoeira, e que como se tudo isto fosse pouco ainda era um bom ator, conseguindo arregimentar uma quantidade de fãs digna de uma estrela hollywoodiana.
Mark Dacascos, o Rei das Locadoras!


Nascido em 26 de fevereiro de 1964 em Honolulu, Havaí. Mark Alan Dacascos, é filho de Al Dacascos, um instrutor de artes marciais de ascendência filipina, chinesa e espanhola, e de Moriko Key, descendente de japoneses e irlandeses.
Como era de se esperar, desde cedo teve contato e passou a praticar vários tipos de artes marciais, tendo em seu pai, que, aliás, é criador de um estilo de luta chamado de “Wun Hop Huen Do”, como seu grande mestre. Algo que se intensificou ainda mais quando Al Dacascos se casou pela segunda vez, com a artista marcial Malia Bernal.
Ou seja, o jovem Mark respirava artes marciais quase que vinte e quatro horas por dia, principalmente durante os anos que se mudou para Hamburgo na Alemanha, época na qual ganhou diversos campeonatos europeus de caratê e kung-fu.

Mark com seu pai Al Dacascos

Parece muito? Talvez para mim ou você que está lendo, mas ao retornar da Alemanha, Mark ainda procurou se especializar em duas artes aparentemente bem distantes. O kung-fu shao-lin para o qual voltou às origens, indo até as Filipinas para treinar com alguns dos maiores mestres do gênero, e a nossa brasileiríssima capoeira que seu pai tinha sido um dos pioneiros a trazer para solo estadunidense.
Contudo, ao contrário de outros artistas marciais que tentaram com mais ou menos êxito a carreira em Hollywood, Dacascos talvez seja oque mais se sobressaiu até hoje em não se deixar rotular apenas por suas habilidades nas artes marciais. Algo que logicamente gerou prós e contras para sua carreira.


Tendo sua primeira chance no cinema em “Dim Sum - A Little Bit of Heart” (1985), acabou sentido logo de cara o sabor amargo de ter sua breve participação deletada no corte final do filme.
Mas a experiência foi mais que suficiente para acender no jovem Mark a ideia de que uma carreira nas artes audiovisuais era plenamente possível, passando a frequentar cursos de interpretação, sendo inclusive formado em teatro pela Universidade de Portland.
E entre 1987 e 1991 batalhou fazendo pequenos papéis em diversas séries de tevê como “General Hospital”, “Dragnet” e até na hoje icônica série do “Flash” protagonizada por John Wesley Shipp.


Até que em 1992 surge a oportunidade de retornar para as telonas como o vilão de “American Samurai” ao lado de David Bradley, o segundo American Ninja. Um filme B, com B maiúsculo (aqui de fato numa conotação pejorativa), com algumas das cenas de lutas mais absurdas e fajutas já vistas, mas que abriu a brecha que Mark precisava.
E enfim lhe é dada a chance de protagonizar um filme inteiro, o super conhecido e diversas vezes reprisado na tevê brasileira, “Esporte Sangrento” (Only the Strong no original). Aqui é preciso deixar bem claro que a despeito do título chamativo, o filme está bem mais para uma mistura de “Karatê Kid” com “Um Diretor Contra Todos” (sim, aquele mesmo com James Belushi), do que com “Operação Dragão”.


Na trama Dacascos é Louis Stevens, um Boina-Verde que no começo do filme vemos estar em missão aqui pela América do Sul (não se espantem isto realmente ocorria muito naquela época). Onde aprendeu os paranauês da nossa capoeira, e que ao retornar para casa e visitar um antigo professor (Geofrey Lewis) que o incentivou, descobre que seu colégio está dominado por um traficante de origem brasileira, chamado Silvério. Convidado então pelo antigo mestre para ministrar um curso extracurricular para alguns alunos problemas daquilo que o próprio docente chama de “kung fu brasileiro”, acaba obviamente batendo de frente com os interesses de Silvério em aliciar os jovens.
Já li algumas resenhas na web que tentam ridicularizar este filme pelos estereótipos que os norte-americanos fazem do Brasil, e o pior, que insinuam que Mark não teria intimidade com a capoeira. No primeiro caso, como descrevi no parágrafo acima, o próprio filme faz piada sobre esta característica estadunidense na fala do professor e a forma como descreve a capoeira. E no segundo caso, de fato Dacascos nas cenas de luta não usa de nossa capoeira na sua forma pura, mas sim o método “Wun Hop Huen Do”, criado por seu pai. Fora que por exigência dele, há no filme a participação de seu mestre de capoeira, Joselito Santo.

"Double Dragon"

Então no ano seguinte veio a protagonizar a adaptação para as telas do videogame “Double Dragon”. Pessoalmente nunca gostei deste subgênero de filmes, mas não há como negar que se o filme tem uma boa característica é a de não se levar a sério, fora o elenco de rostos conhecidos.
Mas tudo que aconteceu até então pode ser considerado apenas um ensaio. Pois em 1995 em meio a alguns outros filmes que ainda exploravam apenas o estereótipo das artes-marciais, Dacascos ganha o papel que mudaria os rumos de sua carreira e até de sua vida.

Em "Cryin' Freeman"...

Era “Cryin’ Freeman - As Lágrimas do Guerreiro”, a adaptação cinematográfica do mangá e anime criado por Kazuo Koike.
Uma das melhores adaptações do tipo que já tive o prazer de ver, que para alguém que como eu já tinha tido na época ao menos contato com a animação, encheu os olhos com a replicação quase que perfeita de várias situações do desenho, fora o roteiro ágil que adaptava com inteligência e respeito a obra original.

...Mark Dacascos tem aquele que é seu primeiro grande êxito...

E em meio ao elenco que contava com nomes como Tcheky Karyo e Rae Dawn Chong, havia uma novata chamada Julie Condra, cujo papel mais conhecido até então era na série “Anos Incríveis” na qual participou de quatro episódios da quarta temporada.  E eis que a vida acabou imitando a arte (mais uma vez), e o casal de protagonistas realmente se apaixonou, se casando três anos depois, estando junto até os dias de hoje.

...e de quebra conheceu sua esposa, Julie Condra, durante as filmagens

O reconhecimento por sua interpretação em “Cryin’ Freeman” tornou Mark Dacascos um dos (se não o mais) conhecido astro para filmes de ação da segunda metade dos anos 90, logo abaixo lógico, dos nomes do chamado “primeiro time” do cinema de ação, que você que está lendo com certeza sabe quem são.
Iniciando uma fase quase workaholic, na qual estrelava um filme após o outro, dando a impressão, ao menos para quem frequentava as vídeo-locadoras da época, que a cada dois ou três meses pelo menos tínhamos um novo lançamento com Mark Dacascos na capa.
Dentre seus melhores trabalhos nesta época filmes sensacionais como:
Sabotagem - Uma trama de espionagem na qual Dacascos faz o papel de um ex-fuzileiro naval que trabalha como segurança, e é forçado pelas circunstâncias a unir forças com uma agente do FBI (Carrie Ann Moss, aqui antes de protagonizar Matrix), para impedir um assassino.

Dacascos com Carrie Ann Moss em "Sabotagem"

Santuário - Aqui Dacascos está na pele de um ex-membro de uma organização clandestina que agia dentro da CIA, e que após a morte de um amigo, resolve abandonar aquela vida se tornando padre. Só que quando seus antigos colegas descobrem seu paradeiro, ele precisa usar de tudo que sabe para sobreviver. Um filme com um final bastante contra indicado para católicos mais fervorosos, e que arriscar-me-ia até dizer ser um dos melhores filmes de ação dos anos 1990.


Drive Tensão Máxima - Aqui temos Dacascos simplesmente como um ciborgue criado na China comunista que foge e passa a ser caçado por um grupo de mercenários contratados para matá-lo.


Fora isto não poderia de forma alguma deixar de citar sua participação no excelente filme francês “O Pacto dos Lobos” no qual faz o papel de um índio mohawk. Papel para o qual além de aprender sobre a cultura do povo que representaria, precisou aprender a montar a cavalo e se tornar em tempo recorde fluente em francês.

Um índio mohawk em "Pacto dos Lobos"

E se lembram do que citei, lá no começo deste artigo sobre o séquito de fãs fiéis de Dacascos? Eles foram determinantes para que em 2003, Mark ganhasse seu papel no filme “Contra o Tempo” (Cradle 2 The Grave no original). Pois quando Jet Li resolveu fazer uma enquete em seu website sobre qual ator o público gostaria de ver fazendo o papel de seu antagonista no filme, o nome de Mark Dacascos explodiu como uma saraivada de mísseis.

Mark Dacascos enfrenta Jet-Li em "Contra o Tempo"

Mas lógico que não apenas êxitos marcam a carreira do havaiano, e aqui deixo bem claro que seus “fracassos” (sim, coloquei aspas aí), não estão necessariamente ligados a dificuldades técnicas de algumas das produções que participou, pois possui em seu currículo ao menos dois filmes B (aqui sem a menor conotação pejorativa) que fortemente indico: “DNA” (uma mistura maluca de "Predador"e "Alien" com algum episódio de Jonny Quest) e “I am Ômega” (uma adaptação livre do livro “I am Legend”, sim o mesmo do filme protagonizado por Will Smith).

DNA - Um daqueles sucessos B das locadoras de vídeo nos a nos 90

Só que como nem tudo são flores, Dacascos tem na sua lista de “bolas fora” coisas como: “A Ilha do Dr.Moreau” (devia parecer uma ideia legal estar num filme dirigido por John Frankenheimer e estrelado por Marlon Brando, mas o resultado nós todos já conhecemos); “A Base - Desafiando o Perigo” (também deve ter parecido uma ideia boa, protagonizar um filme dirigido por Mark L. Lester, diretor dos clássicos do exagero “Comando Para Matar” e “Massacre no Bairro Japonês”, mas...); E lógico não poderia deixar de citar “Código de Traição”, um filme que Mark fez por pura amizade, pois o filme é dirigido, roteirizado e produzido por Bret Michaels (sim, ele mesmo, o vocalista da banda de hard rock, Poison) e estrelado por Charlie Sheen (outro velho camarada de Bret) que convenceu até seu pai, Martin, de participar desta preciosidade (risos).


Aliás, este viés rocker de Mark, que também tem entre suas habilidades ser baterista, além de visual e habilidades marciais, creio eu também foi determinante para que vivesse o papel de Eric Draven, papel eternizado nos cinemas por Brandon Lee. Sei que muitos torcem o nariz para esta série, mas não há como negar que nenhum outro ator estaria apto ao papel que não Dacascos.

Como Eric Draven na série "O Corvo"

Fora “O Corvo”, Mark Dacascos tem diversas participações em outras séries, como: CSI, Agentes da SHIELD, Lúcifer, Hawaii 5.0 e mais recentemente Wu Assassins. Além de uma breve aparição numa minissérie que contava a historia de vida de Bruce Lee (papel que, aliás, quase foi seu).

Em CSI, Mark é um monge budista

Sendo que em 2016, resolveu passar para trás das câmeras, dirigindo “Showdown in Manilla”. Um filme que pode ser descrito de uma forma simplista, mas bem verdadeira, como uma versão B para “Mercenários”, e sem a menor vergonha de ser “B”, pois junta nomes e rostos conhecidos de todos nós no elenco, como: Casper Van Dien (Tropas Estelares), Cary Hiroyuki Tagawa (Massacre no Bairro Japonês), Tia Carrere (True Lies), e até trás de volta antigos astros do cinema de artes marciais como Don “The Dragon” Wilson, Mathias Hues e até nossa inesquecível Cynthia Rothrock.


E para completar as aventuras extracurriculares por assim dizer, não é que em 2009, Dacascos foi parar no reality “Dancing with the Stars”, fora as participações em dublagens de personagens de games.


E eis que em 2019 somos brindados com a surpresa de termos Mark fazendo parte do elenco de “John Wick 3 Parabellum”.

Em "John Wick 3 Parabellum"

Tenho algumas ressalvas pessoais em relação a este filme, mas não é possível negar que é ótimo ver Dacascos num filme como este, num elenco com gente como Halle Barry e Anjelica Houston.

Com Keanu Reeves nos bastidores de "John Wick 3"

E agora em 2020 escrevendo estas últimas palavras deste artigo, enquanto Mark Dacascos retorna com mais um filme B, “One Night in Bangkock”, fico a me questionar até onde pode ir a manipulação de interesses dos estúdios em vistas de satisfazer parcelas bem específicas de público, pois como citei no começo deste artigo, o ator que poderia por sua ascendência ser qualquer um, acaba relegado justamente por isto, ou seja, não poder se inserir 100% em nenhum grupo específico.



quinta-feira, 9 de julho de 2020

As 10 Melhores Animações Japonesas Que Passaram No Brasil


Esta é mais uma daquelas listas para a qual tive que criar uma série de regras para não me perder na hora de confeccioná-la. Portanto aqui, você só verá séries feitas para tevê que foram transmitidas em rede aberta em nosso país.
Então se você espera por um possível OVA, longa-metragem, ou até animação veiculada por algum dos modernos serviços de streaming, nesta lista pelo menos, tais produções não serão inclusas... Então vamos lá!



10 - Fantomas: Ôgon Batto (Morcego Dourado) no original é um personagem cuja origem remonta da década de 1930. E que em 1967 ganhou sua adaptação em animação. Sendo exibido no Brasil entre 1973 a 1984. Acredito que o maior mérito deste personagem ainda seja seu aspecto sinistro, fugindo por completo do arquétipo de “super-herói” que nos acostumamos a ver.




09 – Pirata do Espaço: Ainda que relegado ao segundo time das animações em seu país de origem, Groiser X, no original, divide com Patrulha Estelar o coração de muita gente em Terra Brasilis, chegando aqui na primeira leva de animes que a Rede Manchete transmitiu em rede nacional nos anos 1980. Uma estória bem interessante, inspiradora de várias coisas que vieram depois.




08 – Cavaleiros do Zodíaco: O grande responsável pela onda dos animes que varreu o Brasil nos anos 1990. Está aqui, sobretudo pela ótima primeira saga, pois após isto infelizmente se perdeu no mais do mesmo e numa quantidade inacreditável de escolhas erradas para satisfazer plateias ávidas por lutas e não por roteiro.




07 – Robotech/ Macross/ Guerra das Galáxias: Não estranhe estes vários nomes. Um dia talvez, eu ainda escreva um artigo descrevendo a imensa bagunça que gerou isto vinda da junção de três animações, quando estas migraram para terras estadunidenses. Mas aqui o que interessa, e faz esta saga estar aqui, é sua “primeira parte” (The Super Dimension Fortress Macross) que foi exibida nas tardes brasileiras. E está aqui acima de tudo por seu ótimo trabalho técnico (bem detalhista) de seus gráficos, mas que não posso colocar de forma alguma numa posição mais elevada devido seus diálogos, que de tão ruins, nem nossa dublagem conseguiu dar jeito.




06 – Rei Arthur – Esta versão em anime para a lenda de Arthur Pendragon, filho do assassinado Rei Uther, que cresce sem saber que é o legítimo herdeiro do trono de Camelot, toma diversas liberdades ao adaptar a estória original, como por exemplo passar longe do triângulo amoroso entre Arthur, Lancelot e Guinevere. Mas isto não quer dizer que seja ruim, muito pelo contrário. Com trilha sonora de primeira, que foi pega emprestada de “Conan o bárbaro” o filme. A animação chegou a ter uma segunda fase, na qual Arthur sai pelo seu reino sem dizer quem é, fazendo justiça numa mistura que poderia ser descrita como Zorro com Dom Quixote, mas que aqui para nós, os brazucas, nunca chegou a ter seu final veiculado.






05 – Dom Drácula: Uma verdadeira pérola de humor descarado. Criado pelo mestre Ozamu Tezuka, levou alguns anos para ser transposto dos mangás. E infelizmente quando foi, teve uma vida bem curta, pois devido problemas financeiros de seus investidores acabou com apenas oito episódios produzidos, sendo que destes oito, apenas quatro acabaram sendo veiculados na tevê japonesa. Mas graças à saudosa Rede Manchete (mais uma vez ela), os brasileiros puderam assistir todos os oito episódios, de uma série que dificilmente hoje seria veiculada, já que passa longe do que atualmente é considerado “politicamente correto”.




04 – Zillion: Criada para fazer algo que os norte-americanos dominavam como ninguém, que era produzir animações para incrementar a venda de videogames e brinquedos, Zillion surpreende pela ótima construção de seus personagens, num roteiro que numa primeira olhada parece repetição de coisas já feitas, mas que se demonstra bem mais ágil e interessante que a média. E a titulo de curiosidade, teve seu final veiculado numa madrugada de domingo para segunda-feira, devido uma polêmica gerada por uma cena onde um seio apareceu, e zelosos pais e responsáveis bombardearam a Rede Globo exigindo a retirada da animação do ar. A emissora para evitar problemas tirou o desenho da grade, mas possuía em contrato com a Sega/Tec Toy, a obrigação de transmiti-lo até o fim. Solução? A criação de uma sessão na citada madrugada, numa época que a emissora ainda saía do ar no fim da noite quase todos os dias da semana.




03 – Speed Racer: O grande desbravador das terras ocidentais para as animações nipônicas. O primeiro anime a fazer sucesso em terras estadunidenses no mesmo nível das produções locais. Uma lenda para o qual nem vou ficar aqui me estendendo demais, pois que já dediquei toda uma matéria para ele aqui no blog.





02 – Yu Yu Hakusho: Quando esta animação chegou a nossas terras, pensava comigo que seria apenas mais uma bobagem de personagens gritões perdidos em lutas infinitas e vazias. Como estava enganado... Apesar de um comecinho que considero meio lento, em pouco tempo a estória começa a “tomar corpo”. Seus personagens se demostram todos absurdamente bem construídos, e o processo de “escalada” é respeitado de maneira exemplar. E como se isto tudo não bastasse, nós brasileiros fomos abençoados com uma dublagem maravilhosamente épica, onde a equipe de dublagem teve total liberdade para inserir expressões genuinamente nossas, fora as canções que incrivelmente ganharam versões em português maravilhosas. Nunca uma animação japonesa foi tão brasileira!




01 – Patrulha Estelar: Nem vou ficar aqui me estendendo em comentários, pois se você acompanha o “Enquanto Isso na Ponte de Comando”, sabe muito bem da minha profunda admiração pela saga criada por Leiji Matsumoto e Yoshinobu Nishizaki, não apenas por um prisma pessoal, mas por tudo que representa para a evolução da animação mundial, e  para a qual já escrevi alguns artigos aqui, inclusive sendo feito por nós um vídeo para o canal do blog no Youtube. Um clássico que a saudosíssima Rede Manchete nos deu a oportunidade de assistir, ainda que tenha falhado em não perceber o potencial que tinha em mãos.






Patrulha Estelar e suas vozes inesquecíveis!

  Fazendo uma rápida pesquisa na web, não é assim tão difícil encontrar alguns artigos que citam os dubladores que nos anos 1980 na extinta ...