sexta-feira, 16 de abril de 2021

Bruce Timm - O Último Defensor da Animação (parte 1)

 

Ao longo dos últimos anos a produção das tradicionais animações em 2D vem caindo progressivamente. Muito disto pelas “facilidades” de produção do processo 3D, mas também muito devido um público preguiçoso, que por consequência acaba “desobrigando” os estúdios a realizarem qualquer parcela mínima de qualidade, seja em roteiro ou qualquer um dos outros aspectos que compõe uma boa produção de animação.

E mesmo nas animações japonesas, é possível notar a espetacular avalanche de preguiça com traços de personagens – em geral sem nariz – e cacoetes narrativos vexatórios para vorazes consumidores de traquitanas bizarras.

Mas em meio a este bombardeio do mais do mesmo, e completo desleixo, um último defensor das animações de qualidade, discípulo de mestres cartunistas como Jack Kirby e Alex Toth, resiste... Bruce W Timm!


Nascido em 08 de fevereiro de 1961, Bruce Walter (pois é não é Wayne) Timm, cresceu sonhando se tornar um ilustrador da Marvel, enquanto “bebia” da fonte de mestres como os já citados Jack Birby e Alex Toth, além de John Buscema, Frank Frazetta e outros.

Na Filmation, Bruce Timm trabalhou em Blackstar...

Mas sua carreira acabou começando mesmo por volta de 1981, e ao contrário do que o jovem Timm sonhava, ou seja, as HQ’s, o destino já o enviou direto para mídia que o consagraria. Pois naquele ano consegue um emprego artista de layout na produtora Filmation, indo trabalhar nas séries “Blackstar” e “The Lone Ranger”.

...além de He-Man...


...e sua irmã, She-Ra

Sendo que em 1982, Bruce, como animador, dá uma escapadinha da Filmation, para integrar a produção do longa “A Ratinha Valente” (The Secreto of NIMH no original), retornando logo depois para fazer parte da equipe que criou “He-Man e os Mestres do Universo” e “She-Ra”. Até que em 1987 ele vai enfim trabalhar na Marvel.

Mas calma, não pense que nosso herói foi desenhar o Homem-Aranha ou o Quarteto Fantástico.

Já um profissional conhecido no meio da animação, Timm vai para a Marvel Productions, onde trabalha em novas versões para animações infantis clássicas como “Super Mouse” e “Beany&Cecil”. E aqui preciso lançar um adendo pessoal, pois considero esta breve fase na carreira de Bruce Timm um dos mais grotescos casos de subaproveitamento de talento que já soube neste meio, se formos levar em consideração o que tinha ajudado a realizar na Filmation.

De qualquer forma, hoje dá para se considerar que tudo que aconteceu até ali, nada mais foi que um rascunho para a arte final que estava prestes a chegar.

Tiny Toons marcou o começo de Bruce Timm na Warner

E eis que em 1989, Bruce vai para a subsidiária de animação da Warner Bros, trabalhar como roteirista e desenhista em “Tiny Toons”. Até que três anos depois, enfim promovido a produtor ganha carta branca para o projeto que cunharia seu nome como um dos maiores realizadores de animações de todos os tempos, e é obvio que refiro a “Batman A Série Animada”.

Batman A Série Animada...


...o começo do Timmverse.

Aliando-se aos produtores Eric Radomski e Alan Burnett (este último bem familiarizado com os personagens da DC Comics desde “Superamigos”).

Alan Burnett, Eric Radomski, Jean MacCurdy (presidente da Warner) e Bruce Timm


E chamando para o time Paul Dini, que já conhecia desde a época de “He-Man”, e com o qual acabou criando a Arlequina pouco depois, Bruce Timm “deu um sacode” por assim dizer, no marasmo que imperava nas animações de aventura feitas em solo estadunidense naquele momento.

Arlequina e seus criadores, Bruce Timm e Paul Dini

Bem, ficar aqui falando sobre “Batman A Série Animada”, seria chover no molhado, já que já dediquei um artigo em duas partes a ela.

Mas ainda que o traço de Timm na época pudesse ter recebido críticas daqueles que preferiam um caracter design mais realista digamos assim (e eu aqui me incluo). Seu estilo acabou sendo fundamental tanto para dar velocidade à produção das células de animação como para deixar os movimentos dos personagens mais “redondos” e agradáveis de assistir. Fora o estilo que colocou na arquitetura de Gotham City, que ainda que sofresse influência do live action do Batman de Timm Burton, logo ganhou entre o pessoal da produção o apelido de “dark decor”, uma brincadeira com “art decor”.

A Máscara do Fantasma...

E o que foi iniciado ali, foi se tornando com o passar dos anos um único universo compartilhado de várias séries de animação, que hoje é carinhosamente chamado pelos fãs de “DC Timmverse”.

...aquele que é considerado por muitos até hoje...


...o melhor longa-metragem do Batman.

Uma construção que já dentro de Batman TAS teve um capítulo todo especial no longa-metragem “A Máscara do Fantasma”, por muitos considerado, e talvez realmente seja, o melhor trabalho audiovisual realizado com o personagem até hoje.


Mas os planos de Bruce Timm e sua turma estavam bem longe de terminar e em 1996 chegava “Superman A Série Animada”. Nela, Bruce começou a colocar em prática seus planos de expansão que levaram inclusive a ruptura de parte da equipe que fazia “Batman TAS” como já descrevi aqui no blog.

Em Superman TAS, outros personagens surgem, como o Lanterna Verde

Nesta série, vemos o “Azulão” interagindo com outros personagens como o Flash/ Wally West, sua prima Supergirl e até o Lanterna Verde Kyle Rayner. E obvio, lógico, como não poderia deixar de ser com o Batman.

E lógico, temos o encontro entre "os melhores do mundo".

Sem falar em um arco com Darkseid que colocou em xeque qualquer tentativa posterior de trabalhar os personagens em outras mídias (risos).

Sem falar na coragem de fazer um tema de abertura que fugia da clássica obra de John Williams para o filme de 1978, e que mesmo não sendo assim tão épico, captou muito bem o espírito do personagem.

A Liga da Justiça

E não há como negar que a série de Kal-El, foi o que viabilizou a partir de 2001 a série da “Liga da Justiça”, mas antes houve o que já descrevi aqui como sendo o maior ato de ousadia de Bruce Timm, a série de um novo Batman.

Batman do Futuro

E assim como na série de Bruce Wayne lá em 1992, o “Batman do Futuro”, Terry McGinnis, tem seu ponto fora da curva num longa, “O Retorno do Coringa”. Tudo bem, sei que já falei bastante sobre o longa no artigo que já foi publicado aqui, mas não deixa de ser surpreendente, mesmo anos depois, nos darmos conta de como o talento de Timm, Paul Dini e toda a equipe foram capazes de dar mais uma vez um passo para fora da caixinha se formos pensar numa animação feita para tevê.

O visual original de Z.E.T.A em Batman do Futuro

Sem falar que foi responsável por gerar o spin off “Projeto Z.E.TA.”. E aqui é necessária a abertura de um pequeno parêntese, pois mesmo em séries que não tinham sua atuação direta, não houve nenhum tipo de pudor seu em fazer crossovers, já que o próprio Terry McGinnis retorna em um episodio de “Projeto Z.E.T.A.”.

E o que dizer sobre “Super-Choque”?

Super Choque encontra o Batman - Crossover entre as séries

A série do personagem criado nos quadrinhos da Milestone (depois adquirida pela DC) por Dwayne McDuffie, que mesmo não tendo nenhuma participação direta de Bruce Timm, acabou se inserindo em seu universo após crossovers entre o jovem herói e os membros da Liga da Justiça em ambas as séries, fazendo McDuffie se tornar depois um dos principais nomes da série da equipe de heróis.

É... A Liga da Justiça...Mais uma vez ela...


Mais sobre o grupo de heróis, como Bruce Timm amarrou todo seu universo, e principalmente, como mesmo depois do fim do chamado “Timmverse”, a sua obra se fortaleceu ainda mais, é algo que deixarei para a segunda parte desta incrível jornada de aventuras, e sobretudo de resistência... Até lá!

 

 

segunda-feira, 1 de março de 2021

Os 10 Melhores Filmes da Marvel

Esta lista foi pensada para seguir exatamente seu título.

Ou seja, listar os melhores filmes com personagens da editora Marvel, independentemente de quem sejam seus realizadores... Então, vamos lá!


10 – Quarteto Fantástico (2005) – Nunca, jamais, em momento algum, alguém me apresentou qualquer argumento minimamente sedimentado que justificasse as besteiras que foram ditas (e às vezes ainda são) sobre este filme. Seguindo a risca uma das facetas da proposta original da equipe nos quadrinhos, que era a de mostrar como seria a vida de super-heróis sem uma identidade secreta, tem todos os seus elementos extremamente bem dosados, e um elenco extremamente bem entrosado, com destaque lógico para Chris Evans bem antes de erguer o escudo de Capitão América.





09 – O Justiceiro (2004) – Sei que muitos gostariam de ver a versão protagonizada por Dolph Lundgren em 1989 nesta lista, mas infelizmente a película, justiça seja feita, se perdeu num enredo enrolado que misturava até a Yakusa, deixando o personagem apenas como mais um vigilante como outros tantos, sem fazer o espectador ter maior interesse por seu drama pessoal que gera sua transformação. Mas isto não acontece aqui, e Thomas Jane nos entrega a melhor versão da criação de Gerry Conway, num filme que flerta com diversos estilos diferentes como o “faroeste espaguete”, e que foi o último trabalho do veterano Roy Scheider.





08 – Blade:O Caçador de Vampiros (1998) – Muito do que passou a ser feito nos anos 2000 em termos de super-herói precisa ser creditado a este filme, que como quem não quer nada, marcou uma época em que filmes de super-heróis estavam numa espécie de limbo. Com devido destaque para Wesley Snipes que “comprou a ideia” do roteiro de David Goyer, aqui bem antes da consagração com a trilogia do Batman de Christopher Nolan, conseguindo gerar mais duas sequências.





07 – O Justiceiro:Dirty Laundry (2012) – Se você que está lendo ainda tem alguma dúvida sobre a afirmação que fiz no item 09 desta lista, sobre Thomas Jane ser a melhor personificação de Frank Castle, muito provavelmente é por que jamais assistiu este curta-metragem (Quem disse que a lista seria só de longas?). Uma iniciativa do capista do título da Marvel na época Tim Bradstreet e do próprio Thomas Jane que se uniram ao diretor Phil Janou. E de quebra ainda conta com a participação do nosso eterno Hellboy, Ron Pearlman. Fora a trilha incidental de Hans Zimmer.





06 – X-Men 2 (2003) – Muito pode se dizer e criticar na franquia dos mutantes enquanto de sua estada na Fox. Mas este filme é de longe, dentre os que levam o nome do grupo de heróis no título, o melhor de todos. O mais focado na trama e que não se perde em “pirotecnias vazias”.





05 – O Incrível Hulk (2008) – Sei que a exemplo do Justiceiro, algumas pessoas até que gostariam de ver aqui o Hulk dirigido por Ang Lee alguns anos antes, mas praticamente pelo mesmo motivo, ou seja, um roteiro que carece de objetividade, quem está aqui é o filme protagonizado por Edward Norton. Pensado para ser o segundo capítulo do chamado MCU, e ignorado solenemente por uma geração de ditos fãs, é disparado o longa que melhor mostrou o drama clássico do “médico e o monstro”, sem deixar de lado a ação empolgante. E que por questões meramente comerciais foi jogado no limbo, nos privando de uma possível trilogia, desejo de seu protagonista, que por causa disto foi substituído posteriormente pelo insosso David Banner/Hulk de Mark Rufallo.




04 – Homem Aranha (2002) – Nem vou ficar me estendendo muito em comentários sobre a primeira parte da trilogia dirigida por Sam Raimi, pois tudo que tenho para dizer está no artigo que escrevi sobre este filme que mostrou possibilidades até então impensadas para filmes do gênero.





03 – Capitão América 2:O Soldado Invernal (2014) – O melhor filme do MCU disparado. E um dos melhores filmes de espionagem de todos os tempos, para o qual já dediquei todo um artigo aqui no blog.




02 – Homem Aranha 2 (2004) – E se o no primeiro filme Sam Raimi já tinha acertado a mão, aqui atingiu um nível quase de perfeição, com destaque total para icônica cena do trem.





01 – Logan (2017) – Ponto fora da curva é o termo mais usado para descrever este filme espetacular que marcou a despedida de Hugh Jackman do papel que o consagrou. Também não vou me estender muito em comentários, pois tudo já foi dito no artigo que foi publicado aqui, mas ainda é preciso dizer apesar de ser em tese um filme “pesado” e de final triste, é capaz de fazer qualquer um ao terminar de assisti-lo se sentir incrivelmente bem.





 

 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Comboio - A Sessão da Tarde de Sam Peckinpah

Por mais de uma vez aqui no blog, relatei de como a década de 1970 foi disparada a de mais liberdade para os diretores de cinema norte-americanos, quando somado as mudanças sociais e a revolução de costumes, os estúdios que se sentiam ameaçados pelo avanço da televisão passaram a dar mais liberdade para que os diretores realizassem seus projetos.

Foi nesta época que diretores como Francis Ford Copolla, Steven Spielberg, Walter Hill, entre outros, despontaram no horizonte, mas dentre todos, talvez o mais ácido e controverso para aqueles tempos tenha sido Sam Peckinpah.

E através de filmes tensos como “Os Implacáveis”, “A Cruz de Ferro”, “Meu Ódio Será sua Herança” e “Sob Domínio do Medo” cunhou o apelido de “O Poeta da Violência”.


Mas eis que em 1978, Sam Peckinpah dirigiu aquele que é considerado uma espécie de “filme maldito” seu... “Comboio”.

Baseado numa canção country escrita por CW McCall, “Comboio” numa olhada mais descompromissada (como já li algumas vezes) pode parecer seguir a mesma linha de outro filme icônico da mesma época, “Agarre-me Se Puderes” (1977), mas ao contrário do filme protagonizado por Burt Reynolds que era uma comédia descarada e inverossímil, aqui ainda que fazendo um filme mais light, Peckinpah não deixou de deixar sua assinatura.

 

Na estória, um caminhoneiro chamado Martin Penwald (Kris Kristofferson), e que tinha o apelido de Pato de Borracha, possuía uma velha rixa com um policial corrupto chamado Lyle Wallace (Ernest Borgnine), com o qual logo de cara fica clara uma relação ambígua, já que ambos se conheciam de longa data, e se consideravam uma espécie de “últimos de uma geração”.

E ao ser parado com mais dois outros caminhoneiros, Mike Aranha (Franklin Ajaiye) e Máquina do Amor (Burt Young, o eterno cunhado de Rocky Balboa) ou Pig Pen como foi “rebatizado” devido à “carga viva” que carregava, são extorquidos por Lyle, iniciando um jogo de gato e rato que toma proporções impensadas.

Lyle provoca Mike Aranha - O momento que precede a desgraça

Já que Lyle os segue até um restaurante no meio da estrada. E lá após ameaçar prender Mike Aranha, e fazer um questionamento sobre quem seria o pai da criança que a esposa do caminhoneiro esperava, tem início um briga generalizada entre os caminhoneiros que estavam no local e os policiais, e na qual até Melissa (Ali McGraw) uma fotógrafa que já tinha se “encontrado” com Pato de Borracha logo no começo do filme se envolve, e que acaba embarcando em seu caminhão.

E o que se tem a partir daí é um dos melhores roadie movies de todos os tempos, com perseguições alucinantes, enquanto que o comboio vai aos poucos através do boca-a-boca via rádio, ganhando mais adesões.

Sanduíche de carro patrulha

E a partir daqui Sam Peckinpah começa a deixar sua marca.

Pois com um bom roteiro, que não perde o foco da aventura, o diretor vai costurando uma trama, em que o imenso comboio e seu líder - ainda que Pato rejeite o título – se tornam famosos, ganhando apoio popular e aparecendo na mídia, atraindo obviamente o interesse de políticos que passam a tentar se aproveitar dos caminhoneiros querendo associar sua imagem a deles.

As ações do comboio chamam a atenção da mídia

Contudo, mesmo com os holofotes da mídia sobre os caminhoneiros, Lyle não altera seus planos, que ali já tinham ser transformado numa espécie de vendetta pessoal contra Pato de Borracha.

Mas como atingir o agora “blindado” pela mídia líder não declarado do comboio?

Bem, no meio do caminho Mike Aranha recebe a notícia que a esposa estava prestes a dar a luz, e por isto deixa a “segurança” do comboio e parte em direção de casa. Porém, no meio do caminho é capturado, por outro xerife aliado de Lyle, que não poupa esforços para tornar a estada do caminhoneiro ali um inferno, espancando-o brutalmente por conta própria.

E lógico que via rádio a notícia chega ao acampamento dos caminhoneiros, e aos ouvidos de Pato de Borracha, que mesmo sabendo que aquilo era mais que uma provocação, era uma armadilha, deixa Pig Pen no comando das negociações com os políticos, briga com Melissa e vai em ajuda ao amigo.

Até aí o plano de Lyle parecia perfeito, pois o xerife acreditava que Pato de Borracha iria sozinho. Pois é, mas esqueceu de combinar isto com o restante dos caminhoneiros.


E temos aí a sequência mais “Agarre-me Se Puderes” do filme, quando os caminhoneiros invadem a pequena cidade e caçam os policiais por suas ruas, numa daquelas cenas que colocam um sorriso de satisfação no rosto de qualquer um.

E aqui preciso abrir um parêntese para resolução desta sequência quando Mike Aranha é libertado e surge na frente dos amigos todo machucado, porém, sem o menor sentimento revanchista, isenta Lyle de culpa na surra que levou.

Lyle no duelo final contra Pato de Borracha

Levando-nos então para sua crucial sequência “quase final”, quando temos o duelo quase ao estilo faroeste entre Lyle e Pato de Borracha.

E é nisto, neste tipo de mescla, que reside o maior mérito de “Comboio”, intercalando com sabedoria e na dose exata, cenas mais densas e dramáticas, com outras de ação que beiram a comédia.

Melissa e Pato de Borracha - Química perfeita.

Fora a ótima química entre o casal de protagonistas que já haviam trabalhado com o diretor antes. Kris em “Meu Ódio Será Sua Herança” e Ali em “Os Implacáveis”.

Sam Peckinpah até faz uma ponta como operador de áudio

E que tem até um cameo do próprio diretor como operador de áudio da tevê.

Coisa que fez a grande massa das críticas na época bombardear o filme e seu diretor, soltando frases absurdas de que Peckinpah tinha “perdido a mão”, que teria realizado o filme apenas para “fazer caixa”, ou ainda pior, apelando para aspectos pessoais de sua vida como o alcoolismo e uso de drogas.

Sam Peckinpah

É certo que “Comboio” pode até não ser o filme mais lembrado de Sam Peckinpah, mas ao revisitar sua filmografia, fica claro o quanto este, é uma declaração do diretor as liberdades individuais, o sentimento de irmandade e mais que qualquer outro, bem no espírito daquela época, uma crítica ao sistema em que vivemos.

Servindo-nos com maestria uma receita que vários outros filmes, e até franquias inteiras, tentaram replicar, mas que vai muito além de estereótipos de anti-heróis e um sistema injusto, pois estes são ausentes da alma que fez “Comboio” ser legitimado no seleto hall dos melhores filmes antissistema de todos os tempos.

 

 

 

 

 

 

 

domingo, 3 de janeiro de 2021

Episódios Malditos

Não importa por quais motivos sejam feitos.  Se apenas os redatores e criadores acharam que a ideia era boa, ou se queriam de fato passar alguma mensagem que não foi compreendida pela audiência, ou até se de fato houve alguma justificativa verdadeira para tal.

 Mas não são tão raros os casos de seriados, sejam de animação ou live action, que tiveram (ou ainda tem) algum episódio que acabou sendo boicotado, proibido por algum tempo e às vezes até banido.

Tá certo! Eu sei que provavelmente você que está lendo, deve estar pensando que este artigo se trata de mais uma daquelas conhecidas lista aqui do blog. Mas ao me debruçar sobre o tema, percebi logo que limitá-lo a uma lista não seria suficiente, até porque estes episódios possuem, digamos, graus diferentes de “amaldicioamento”.


E aqui mesmo em Terra Brasilis, temos alguns casos “exclusivos” que se tornaram quase lendários.


Em um destes casos, “Freakazoid” o engraçadíssimo personagem da animação produzida por Steven Spielberg, acabou sendo envolvido numa crise de histeria de algumas pessoas que se sentiram “horrorizadas”, quando num episódio, a finada Lady Diana e a cantora Madonna em suas respectivas versões cartoon saem no braço por causa de nosso querido personagem tresloucado, e pasmem, tal cena fez com que uma tempestade de reclamações de reclamações desabasse sobre a Rede Globo que retirou a animação da grade para nunca mais voltar.

Zillion acabou tendo seu final transmitido de madrugada

Mas pessoalmente creio eu, que em nossas terras, nada se tornou mais icônico que o famoso caso do seio à mostra em “Zillion”. Caso já relatado na lista das “10 Melhores Animações Japonesas que Passaram no Brasil”, que fez com que o final da saga dos White Knights fosse exibido numa madrugada de domingo para segunda-feira, numa época em que a Rede Globo (assim como demais emissoras) saía do ar no começo de quase todas as madrugadas.

Talvez ainda pudesse citar aqui os casos dos episódios finais de duas séries que fizeram a alegria de muita gente: “Alf, o ETeimoso” e “Família Dinossauro”.

O para muitos "traumatizante" episódio final de Alf

Mas ainda que tais episódios tenham ganhado o rótulo de “malditos”, em especial o de “Alf”, no qual terminava com nosso querido alienígena sendo capturado pelos militares, algo que anos depois os produtores tentaram consertar com um estúpido longa-metragem, jamais tiveram qualquer tipo de censura em razão ao conteúdo apresentado.

E este pequeno detalhe chamado “conteúdo”, que muitas vezes os realizadores pensam estar (e às vezes até estão mesmo) no caminho certo, pode por vezes fazer a obra em questão passar por uma reclassificação.

Eliza Masa baleada - cena do episódio "Força Mortal"

Como no já foi citado aqui no blog caso do episódio “Força Mortal” de “Gárgulas”, quando Eliza Masa leva um tiro de sua própria arma manuseada por Brodaway. E ainda que a intenção fosse das melhores, ou seja, alertar para o perigo das armas, a animação não se livrou de protestos furiosos de “responsáveis zelosos”.

E por falar em família, a estória do episódio “Home” de Arquivo X, é outro caso bem emblemático. Como foi descrito aqui na matéria sobre o seriado, “Home” foi o primeiro episódio de uma série de tevê a ostentar o selo TV-MA (impróprio para menores de 17 anos).



Num roteiro, baseado num caso real, no qual Mulder e Scully investigavam a morte de um bebê com deformidades enterrado no quintal de uma família, no qual todos sofriam também de deformidades parecidas e depois vem a descobrir uma série de relações incestuosas num contexto no mínimo bizarro.

Baseado em fatos reais...

Mas ainda que a própria Fox tivesse seu “departamento de censura” que passava o “pente fino” em suas produções a fim de evitar logicamente, inclusive, futuros problemas judiciais, “Home” após receber a classificação citada acima, foi ao ar. Porém, o desconforto (se é que dá para chamar assim) gerado, foi mais que suficiente para o episódio ser banido das eventuais reprises, sendo apenas pelo que consta, reprisado apenas uma única vez numa “maratona” no canal pago da Fox.

...o episodio "Home" teve sua classificação alterada

Reza uma lenda urbana que Chris Carter (criador da série) e Kim Manners (produtor) até sugeriram fazer uma continuação para tentar “suavizar” a coisa toda, mas os executivos do estúdio foram taxativos, afirmando que jamais aqueles personagens seriam vistos em lugar algum.

E lugar algum também acabou sendo o destino do episódio proibido de “Superamigos”.

Os Super Gêmeos acabaram protagonizando...

E não, isto não é piada, “Superamigos”, a série de animação produzida por Hanna-Barbera com os personagens da DC Comics para o público infanto-juvenil que por vezes é motivo de chacota por ser conteúdo pueril, em sua temporada de 1977 teve um episódio que foi banido.

... "Hitchhike"...

No episódio chamado “Hitchhike”, uma garota chamada Jody, a fim de guardar seu dinheiro para gastar na praia, aceita entrar na Mercedes de um estranho boa pinta (se é que dá para chamar desta forma) que lhe oferece carona. Contudo, no meio do caminho, este estranho muda o trajeto, e começa a agir de forma agressiva com a jovem, tentando abusar dela.

... o episódio de Superamigos...

Mas Beth, a amiga da jovem, acaba indo a polícia que faz contato com a Sala da Justiça. Uma Sala da Justiça entregue aos Super Gêmeos, Zan e Jayna, que parecem estar ali apenas para anotar os recados, pois na conversa com o chefe de polícia dizem que os demais heróis estavam ocupados em outras missões.

...que mostrava abuso contra mulheres...


Pois bem, e lá se vão os gêmeos atrás do carro do suspeito, que é encontrado, e capturado pela dupla de jovens heróis que liberta Jody. E tudo poderia acabar por aí, com mais uma lição a ser aprendida, bem de acordo com os outros episódios da atração na época. Mas ainda houve uma última cena, um último diálogo na delegacia.

...e tem uma cena final desconcertante.

E neste diálogo, o policial explica que já estavam atrás do sequestrador já algum tempo, devido a vários registros de garotas que tinham desaparecido e não foram encontradas. Ou seja, fica claro como o dia, que o abusador era também um serial killer que já tinha feito outras vítimas.

E o resultado deste diálogo final, foi que “Hitchhike” foi banido por quase vinte anos, só retornando por um breve período em meados dos anos 90, para ser depois novamente “encarcerado” nos porões da Time/Warner por Ted Turner, que na época chegou a “mexer seus pauzinhos” até para descontinuar Swat Kats.

Mas ninguém jamais fez tanto esforço para apagar da existência a memória de um episódio maldito do que a Tsuburaya Productions.

No episodio 12 de Ultraseven...

Pois como citei no artigo que abordei as três primeiras séries da franquia Ultra, o episódio 12 de “Ultraseven”, “Presente Nocivo”, trazia um monstro cuja afigura era recoberta de feridas que lembravam a feridas dos sobreviventes das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki. Algo que foi considerado uma ofensa aos sobreviventes dos bombardeios atômicos.

... a figura do monstro provocou mal estar no Japão

Fazendo a Tsuburaya não apenas desconsiderar a existência do episódio, como desesperadamente tentar impedir posteriormente sua exibição em países que já tinham comprado o seriado, e por anos negar sua existência de forma veemente.

Mas como a tal da internet é uma mistura de coração de mãe com terra de ninguém, apesar de ser difícil, não é impossível de se achar “Presente Nocivo” na web, ainda que por vezes os links possam causar confusão ao apresentarem o episódio 13, “De Outro Planeta Com Amor”, como sendo o episódio 12, seguindo a contagem “oficial” da Tsuburaya Productions.

LINK - ULTRASEVEN - EP.12 - Presente Nocivo

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ULTRASEVEN - Ep. 12 - Presente Nocivo

Seja lá por qual motivos tenham sido perseguidos, banidos ou até esquecidos, estes chamados episódios malditos, hoje formam um seleto grupo, que nos nossos policiados tempos por um lado, e extremamente cínicos por outros, dificilmente ganharão novas adesões ao “clube”, se tornando, sobretudo símbolos da época em que foram realizados, e em alguns casos até mesmo da resistência de mentes criativas que ousaram sair um pouco fora da caixinha, nos brindando com momentos que se tornaram únicos

 

 

Patrulha Estelar e suas vozes inesquecíveis!

  Fazendo uma rápida pesquisa na web, não é assim tão difícil encontrar alguns artigos que citam os dubladores que nos anos 1980 na extinta ...