quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Fúria de Titãs

 

Em 1981, quando o mundo se encontrava encantado com filmes que abordavam extraterrestres, naves e batalhas espaciais, uma produção conjunta norte-americana/inglesa teve a coragem de apostar na antiga Grécia, seus deuses e heróis, seu nome era... Fúria de Titãs! 

     

Dirigido por Desmond Davis, este filme que conta saga de Perseu (Harry Hamlin), filho de Zeus, é um caso raro no qual as características que podiam fazê-lo ficar datado, são justamente aquilo que mantém o interesse das novas gerações vivo.

Duvida?

Bem, para começar a falar de “Fúria de Titãs”, antes de tudo, até mesmo de seu roteiro e elenco, é necessário citar uma das maiores lendas dos bastidores do cinema, Ray Harryhausen.

Ray Harryhausen e suas criações

O técnico em animação pelo processo de stop motion, que aqui também é um dos produtores do filme, tem aquele que pode ser considerado não apenas seu maior trabalho, como uma espécie de epitáfio de sua longa carreira, já que “Fúria de Titãs” foi a última obra a usar tal técnica de forma massiva em filmes live action, ainda que permanecendo sendo usada em várias películas posteriores, como “Robocop”.

Lógico que até é compreensível que para gerações mais novas, a forma como as criaturas criadas por Harryhausen possam parecer estranhas na forma como se movimentam, mas é inegável que pelo fato de serem “reais” e não figuras criadas numa tela de computador, nos livram do aspecto incomodo de videogame que volte e meia alguns filmes mais recentes tentam nos empurrar goela abaixo.

Posto isto, entramos na estória de “Fúria de Titãs”, ou ao menos aquilo que o roteiro nos apresenta, já que algumas adaptações foram feitas para tornar a jornada do herói, digamos, mais heroica.

Logo de cara, somos impactados com a cena do rei da cidade de Argus, levando sua filha Danae e seu neto recém-nascido Perseu, para serem sacrificados, sendo jogados ao mar dentro de um caixão, pois a princesa não tinha como explicar como havia engravidado, o que segundo tradição, desonraria a família do monarca.

Sir Lawrence Oliver era Zeus

Só que a criança era filho do próprio Zeus, deus dos deuses (interpretado por ninguém menos que Sir Lawrence Olivier). E a coisa não termina bem para Argus e seu rei, que pelo ato de covardia sofrem a brutal retaliação do “Senhor do Olimpo”, que ordena à Poseidon que libere o Kraken contra a cidade.

E aqui é preciso abrir logo dois parênteses neste texto... ou talvez três.

O primeiro são as várias liberdades tomadas, como o citado Kraken, já que o monstro na verdade é da mitologia nórdica, e não grega.

O segundo, e que se torna evidente ao longo da película, é que para os policiados padrões atuais, nunca que “Fúria de Titãs” viraria um clássico infanto-juvenil, que teve censura de 10 anos ao ser lançado no Brasil, com cenas como o sacrifício de Danae, alguns leves toques de nudez e até corpos carbonizados em praça pública.

E o terceiro parêntese, é que quando me propus a escrever este artigo, tinha como objetivo evitar ao máximo (se possível nem fazer) citações ao sofrível remake de 2010, mas isto creio que não vá ser possível.

Bem, após mandar o Kraken  sobre Argus, Poseidon conduz Danae e Perseu em segurança até uma praia. E o rapaz cresce feliz e forte.

O problema é que o círculo fechado dos deuses olímpicos era pior que churrasco de família, e a deusa Tetis (Maggie Smith) cujo filho mortal, Calibos (Neil McCarthy), tinha sido também castigado por Zeus, se transformando numa monstro, por uma série de maldades, entre estas o massacre de quase todos os cavalos alados do deus-mor, não aceita que Perseu tivesse tido seu destino de proteção, e seu filho apesar das maldades tivesse sido condenado à deformidade e ao exílio.

Tetis (Maggie Smith)

Sendo assim, mamãe Tetis resolve descontar sua raiva em Perseu, o teletransportando (se é que dá para chamar assim) da praia onde vivia para um anfiteatro abandonado na cidade de Jopa.

Reza uma lenda urbana que Arnold Schwarzenegger havia sido especulado para o papel de Perseu, mas as dificuldades do austríaco na época com o idioma bretão, fora o físico exagerado que não combinava em nada com a representação conhecida do personagem que era sim atlético, mas não uma montanha de músculos, fizeram tanto o diretor quanto os produtores desconsiderarem sua contratação.

Os deuses do Olimpo 

E este é um ponto que “Fúria de Titãs” foi muito feliz, tentando ao menos aqui se manter fiel a representação clássica da Grécia antiga, seus deuses e heróis. E uma boa prova disto é que os deuses do Olimpo se vestiam todos com alvas túnicas brancas, e não com armaduras como na descabida visão do remake na qual estes mais parecem os “cavaleiros de ouro” de “Cavaleiros do Zoodíaco”.

Afrodite (Ursula Andress) 



Ou alguém consegue imaginar a deusa do amor, Afrodite (Ursula Andress) de armadura de combate? (risos)

Amon (Burguess Mereditih)

Enquanto isto no anfiteatro, sem entender nada do estava acontecendo, Perseu trava contato com Amon (nosso inesquecível Burguess Meredith, eterno Pinguim do seriado do Batman, e Mickey o treinador de Rocky Balboa), um artista e poeta que ainda habitava o lugar. E lhe explicado como aquele lugar e a cidade de Jopa tinham caído em desgraça, amaldiçoados por Tetis.

Calibos (Neil McCarthy)

Tudo também por causa de Calibos, que estava noivo da bela princesa Andrômeda (Judie Bowker), até ser castigado por Zeus.

Andromêda (Judie Bowker)

Zeus que ao ver o que tinha sido feito ao seu filho, não deixa o rapaz sem suporte, lhe ofertando três armas especiais: um elmo que dava a quem usasse o poder da invisibilidade, uma espada de lâmina tão poderosa que faria He-Man ficar com vergonha e um escudo pelo qual enfim Perseu descobre sua verdadeira origem.

Só que o rapaz ao invés de ficar quieto, resolve dar um passeio por Jopa, no qual se depara com um mundo totalmente novo para ele, e fica sabendo sobre Andrômeda e a maldição que recaía sobre a princesa, seus pretendentes que tinham de decifrar um enigma ou seriam executados, e como isto se refletia sobre toda a cidade.

E Perseu fica sossegado? Que nada!

E é aqui que de fato toda a aventura tem início, pois usando do elmo, Perseu invade os aposentos de Andrômeda, e descobre que toda a noite um abutre gigante ia até a sacada, e a alma da princesa era “sequestrada” por Calibos, que era o autor dos enigmas.

Mas como nosso amigo Perseu, agora apaixonado, ia resolver aquele problema? Como seguir a gigantesca ave?

Perseu tenta domar Pégaso

E a resposta lhe é dada por Amon. Pégaso, o último dos cavalos alados. Com ele, Perseu poderia seguir o abutre, até onde levava a alma de Andrômeda. Na mitologia grega, é Balarofonte quem consegue “domar” Pégaso, mas aqui, seguindo aquilo que citei alguns parágrafos acima, tal feito fica por conta de Perseu, que vai assim até os domínios de Calibos, descobre a resposta ao enigma, mas é descoberto pelo “senhor do lodo”, com o qual entra em luta, perdendo o elmo da invisibilidade.

E aqui eu preciso com certo pesar, citar aquele que é talvez o único ponto vexatório deste ótimo filme, pois apesar de todo empenho de Ray Harryhausen em criar seus personagens em stop motion, e o excepcional trabalho de maquiagem em Calibos, os ajudantes do vilão são uma piada involuntária à parte, parecendo aqueles homens da caverna da “Família Dinossauro”.


A partir daí, Perseu retorna a Jopa, responde ao enigma, e vai se casar com Andrômeda. Só que a rainha Cassiopéia (Syan Phiplips) na hora de celebrar as bodas da filha não se contém e faz comparações entre a beleza de Andrômeda e da própria deusa Tetis. O que obviamente ativa o “modo fúria” da deusa, que já tinha até passado uma descompostura no filho, querendo dar fim aquilo tudo, mas que diante da bravata de Cassiopéia, ordena que Andrômeda seja sacrificada em trinta dias ao Kraken, para que Jopa fosse poupada.


Resumindo. Mais problema para Perseu resolver.

E não era pouca coisa, pois ele precisava encontrar um jeito de deter o Kraken. E novamente Amon dá a deixa ao jovem amigo. Ir até três bruxas cegas antigas que segundo contavam, tinham por hábito comer carne humana.


Vendo que a jornada de seu filho seria perigosa, Zeus decide lhe dar mais um presentinho, e ordena que Athena (Susan Fleetwood) dê à Perseu, sua coruja de estimação, Bubo. Mas apegada ao seu pet, Athena vai até Hefestos (Pat Roach), o armeiro dos deuses, e este cria uma versão mecânica (ou seja, um robô) da corujinha, dando uma das melhores memórias que toda uma geração teve numa poltrona de cinema.


E aqui preciso abrir o maior parêntese da história deste blog.

Como já citei antes em outros artigos, não sou destes chatos que pensa que tudo numa nova versão de uma obra tem de replicar ispis literis a obra original, e muito menos ficar soltando frases feitas bestas em rede social do tipo “destruíram minha infância”. Mas o que fizeram com Bubo no remake de 2010, é de um cinismo e deboche tamanho, que de fato me deixou um gosto amargo na boca, ao assistir a cena em que a corujinha é encontrada no meio de um monte de armas e tratada como um lixo.


E só posso classificar a cena, como mais uma bravata de pessoas ávidas por venderem uma suposta “visão moderna”, que militarizaram a nova versão, e nos tiraram todo teor lúdico que fez a fama do filme original.

Além disto, não posso deixar de mencionar a opinião equivocada, de certos “entendidos” em cinema, que querem imputar à Bubo a responsabilidade de ser um suposto ponto baixo de “Fúria de Titãs” por esta ter sido pensada em cima do R2D2 de “Guerra nas Estrelas”. Pois se isto fosse assim, o próprio R2D2 seria um ponto fraco da saga de George Lucas por ter sido pensado em cima do IQ9 de “Patrulha Estelar”.


E por falar em saga, Perseu, agora com a companhia de Bubo, continua a sua, indo até as bruxas que dizem que a única forma dele deter o Kraken seria usar a cabeça da Medusa, transformando o titã em pedra.

A medusa e suas duas versões
 

Mas lógico que a Medusa não daria sua cabeça de bom grado, e temos aí mais uma sequência em que brilha o talento de Ray Harryhausen, na qual o mestre do stop motion nos dá uma versão realmente apavorante da górgona, bem diferente da Medusa com perfil de modelo de 2010.


Calibos ainda tenta atrapalhar obviamente a jornada do herói, tendo até sequestrado Pégaso, mas nada que a corajosa Bubo não resolva.

E temos a sequência final, feita num ritmo perfeito, sublimada pela ótima trilha sonora, e que ao contrário da versão modernosa deixa o espectador curtir aquele momento, ao invés de tentar causar-lhe uma pane mental impondo um ritmo desnecessariamente frenético.


Muitos hoje até podem tentar usar do bizarro argumento que “Fúria de Titãs” não é um filme que teria “envelhecido bem”, mas no frigir dos ovos, mesmo usando técnicas consideradas ultrapassadas, permanece sendo lembrado e descoberto por novas gerações quase quarenta anos depois, justamente por ter sabido amalgamar seus diversos elementos, se tornando uma obra atemporal.


 


 

 

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

10 Regravações de Temas de Filmes


 Existem filmes que ficam marcados na história não apenas por sua trama, mas também por canções que compõe sua trilha sonora. Ou filmes que as vezes só são lembrados por sua trilha sonora.
E assim estas canções acabam por ser lembradas por anos a fio, sendo eventualmente regravadas por músicos, que seja lá por qual motivo resolvem revisitar os temas destes filmes.
E pensando nisto o Enquanto Isso na Ponte de Comando orgulhosamente apresenta...
10 Regravações de Temas de Filme



10 - Dragonland – The Never Ending Story
Filme: A História Sem Fim
Gravação original: Limahl

 


09 - Bonfire – Burning Heart
Filme: Rocky IV
Gravação original: Survivor



 
08 - After Forever – Who Wants to Live Forever
Filme: Highlander - O Guerreiro Imortal
Gravação original: Queen




07 - Bullet For My Valentine – No Easy Way Out
Filme: Rocky IV
Gravação original: Robert Tepper

 


06 - At The Movies – A View to a Kill
Filme: 007 Na Mira dos Assassinos
Gravação original: Duran Duran




05 - Northern Kings – We Don’t Need Another Hero
Filme: Mad Max Além da Cúpula do Trovão
Gravação original: Tina Turner




04 - Brother Firetribe – Chasing the Angels
Filme: Águia de Aço II
Gravação original: Mike Reno




03 - At The Movies – Power of Love
Filme: De Volta Para o Futuro
Gravação original: Huey Lewis and the News




02 - Brother Firetribe – Mighty Wings
Filme: Top Gun - Ases Indomáveis
Gravação original: Cheap Trick




01 - Within Temptation – Skyfall
Filme: 007 operação Skyfall
Gravação original: Adele







terça-feira, 1 de setembro de 2020

Batman - Estranhas Aparições - A Era Englehart


Em 1977 vindo da Marvel, após diferenças com Gerry Conway com o qual dividia a roteirização de “Vingadores”, o escritor Steve Englehart aceitou o convite da DC Comics, e assumindo a revista “Detective Comics”, marcou a história dos quadrinhos com aquela que muitos definem como a fase que deu a “arte final” ao Batman.
Um período bem curto, formado por apenas oito edições, mas que foi fundamental para evolução do “Morcego de Gotham”, e que ficou conhecido como “Estranhas Aparições”!


Se você que está lendo acompanha o “Enquanto Isso na Ponte de Comando”, já deve ter esbarrado em algum artigo que escrevi envolvendo Batman, e alguma citação a fase escrita por Steve Englehart, e que em sua maior parte foi ilustrada por Marshall Rogers, e para a qual creio se faz necessária uma retificação histórica.
Mas por que tal retificação?
Bem, para começar, é preciso se ter uma visão geral da indústria dos quadrinhos em meados dos anos 70 e alguns de seus hábitos, para entendermos porque o que Englehart fez foi tão diferente para a época, e porque foi base para muita coisa que veio a acontecer apenas anos depois.


Naquela época, o normal era que as HQ’s não compusessem o que aqui chamamos de arcos, e os norte-americanos comumente chamam de run. E ainda que coisas do tipo não fossem algo inédito - é só lembrarmos aqui da saga Lanterna Verde e Arqueiro Verde de O’Neil e Adams para o qual já escrevi um artigo - , o normal eram que as estórias se fechassem apenas em uma única edição, sem nem mesmo um fio condutor.
Só que o que Steve Englehart fez aqui foi algo até então impensado, pois ao ir para a DC, o escritor havia dito a todos que aquela seria sua última incursão por aquela mídia, e que depois se dedicaria apenas a escrever romances, na boa e velha literatura tradicional.
E ao contrário de qualquer outro autor até então, escreveu toda a saga de “Estranhas Aparições” sozinho, sem contato com nenhum dos artistas que a ilustraram, e tudo de uma vez só, isto antes até mesmo de entregar a primeira edição para a DC Comics.
Uma saga que não apenas manteve a reestruturação do personagem iniciada na fase de Dennis O’Neil e Neal Adams , mas aprofundou as relações interpessoais de Bruce Wayne/ Batman como nunca havia sido feito antes, com toques de filme de terror (como aliás também nunca tinha sido feito), criando novos personagens, trazendo para o “primeiro time de vilões” outros e que ainda teve espaço para homenagens a “Era de Ouro” dos quadrinhos.


O começo de tudo, mais especificamente as duas primeiras edições, desenhadas por Walt Simonson, mostravam o “morcegão” as voltas com um vilão chamado Dr.Fósforo , um personagem daqueles que podem parecer numa primeira olhada, absurdamente inverossímil, e difícil de se encaixar num contexto digamos, mais pé no chão e psicológico, mas é ele que acende (desculpe, não consegui evitar o chiste - risos), o estopim para quase tudo que acontece depois.
E a partir daí entramos numa das mais incríveis parcerias escritor/cartunista de todos os tempos, quando Marshall Rogers assume a arte da saga.


Não que Simonson fosse um artista ruim, mas a verdade é que Rogers, um discípulo de Neal Adams, mesmo sem ter nunca estado até ali numa mesma sala com Englehart, conseguiu captar de maneira perfeita oque o escritor queria passar, extrapolando com tudo que já tinha sido imaginado para o “Morcego de Gotham” até aquele momento

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Imprimindo um estilo que dava leveza às cenas de ação, opressão as cenas de terror, e que como nenhum outro até então (até mesmo Neal Adams, sim pode acreditar), dava uma especial atenção em como a cidade e todos os demais ambientes eram apresentados, sendo muito desta última característica devido sua formação como arquiteto.

Ser formado em arquitetura fazia Rogers ser quase um obececado pelos detalhes de Gotham

E se lembram do Dr.Fósforo? Pois é, graças a ele, Bruce Wayne vai parar numa clínica para se recuperar dos ferimentos, e fazer o Batman desaparecer por uns tempos, já que o chefe da máfia Rupert Thorne - um dos personagens criados por Steven Englehart - vinha usando de sua influência política para disseminar a ideia do Batman como um fora da lei.
E aqui de uma tacada só, Englehart costura toda uma trama que mistura terror, drama, intriga, e lógico, aquele bom heroísmo clássico. E com uma habilidade pouco vista até os dias de hoje para misturar o imponderável com o real.


Não é minha intenção aqui, ficar entrando nas minúcias da estória, até porque se você não conhece “Estranhas Aparições”, não quero tirar algumas das surpresas que nela estão.

Hugo Strange descobre que Bruce Wayne é o Batman...

Mas na tal clínica Bruce Wayne é drogado, e quando é tarde demais, descobre que o médico que dirigia o estabelecimento era ninguém mais, ninguém menos, que o Dr. Hugo Strange, um personagem que até ali estava “mortinho da silva”, até ser “ressuscitado” por Englehart, ganhando a notoriedade que tem até hoje.


E Strange tem a brilhante ideia de leiloar (sim, leiloar!), entre alguns dos principais antagonistas do “morcego” sua verdadeira identidade, enquanto ele próprio assume a identidade de Batman.
E neste contexto temos Silver St.Cloud!


Linda, inteligente e com um senso de humor afiadíssimo, a promotora de eventos, também criação de Englehart, era na época a namorada de Bruce, e que muitos defendem até hoje ter sido o único grande amor de Wayne nas HQ’s. Aqui vale ressaltar que naquela época esta relação foi absolutamente diferente de tudo, pois ao contrário de Thalia Al Ghul ou da Mulher-Gato que a bem da verdade nutriam um fetiche pelo Batman, aqui temos o primeiro relacionamento maduro de Bruce Wayne.


Ela então vai até a tal clínica saber do amado, numa tentativa que poderia ser descrita como decepcionante. Só que desconfiada de que algo de muito errado estava acontecendo, Silver resolve pedir ajuda. E liga para Dick Grayson, que na época estava na faculdade. E num primeiro momento Dick aparenta não levar muito a sério o que escuta... Num primeiro momento.
E eis que então surge Robin!

Um Robin casca-grossa como nunca tinha sido visto

Mas como assim Robin?! Não estavam querendo trazer o Batman para um espectro mais soturno e de acordo até mesmo com alguns pontos da ideia original do personagem?! É o que talvez você que esteja lendo possa estar pensando, não é?


Pois é, e aqui mais uma vez Steve Englehart mostra sua habilidade em caminhar numa fina linha que mistura o atual ou moderno (que permanece atual e moderno até hoje), com a linguagem mais clássica e simples do universo de heróis de quadrinhos.


Modernidade captada por Marshall Rogers, que reestilizou Floyd Lawton, o Pistoleiro, transformando-o quase que num caçador de recompensas de “Guerra nas Estrelas”. E que tem um embate clássico com Batman, numa daquelas cenas que citei, nas quais se percebe a fluidez e leveza que a perspectiva de Rogers dava.


A saga ainda abre espaço para dois vilões clássicos, o Pinguim e o Coringa. Quanto ao baixinho de cartola, ele se torna o antagonista da HQ em que a dupla dinâmica atua junta após muito tempo, e sua participação não vai além disto, mas quanto ao “Palhaço do Crime” temos um capítulo totalmente à parte.


Capítulo totalmente à parte, pois reza a lenda urbana, Englehart não tinha a menor intenção de incluir o “palhaço” em sua trama, e sua inserção teria sido imposta pela DC Comics.
Sendo assim, o que o escritor fez?


Simples, criou uma das HQ’s mais loucas de todos os tempos, a famosa estória dos “Peixes Risonhos”, na qual o Coringa contamina as águas de Gotham, fazendo os peixes ficarem com uma fisionomia parecida com a dele. Tudo um plano para cobrar royalties de direitos autorais sobre sua criação. Mas como o plano não dá certo, ele começa a assassinar os funcionários do escritório de patentes.
Aliás, uma representação que pessoalmente creio, Englehart tenha tido como inspiração sua própria persona. Pois de personalidade aguerrida e meio complicada, por várias vezes Englehart entrou em rota de colisão com editores e executivos de estúdios, na maioria das vezes cobrando direitos autorais sobre personagens seus que não nunca foram devidamente repassados os lucros ao serem usados em outras obras.

O traço de Marshall Rogers...

Uma mistura inusitada de um Coringa com um plano que parecia ter saído da animação do Batman derivada do seriado dos anos 60, mas que não deixou de mostrar o personagem como psicopata que era, e com uma representação visual que o deixava muito próximo ao ator que interpretou o “Homem Que Ri”, o personagem que foi inspiração para o “Palhaço do Crime”, mais uma vez mostrando como Rogers capitou com perfeição o que Englehart pensava.

...aproximou de vez o Coringa de sua inspiração primária.

E como “cereja do bolo” ainda somos brindados como a terceira versão do Cara de Barro, numa estória na qual Englehart se preocupa em contar toda a trajetória que fez o vilão chegar aquela condição, o que, aliás, já havia feito também com o Pistoleiro. E com aquela faceta de filme de terror que citei alguns parágrafos acima. Sendo que já no final desta run, o roteiro de Englehart teve a colaboração (ainda que a contragosto do escritor) de Lein Wein.

A imaginação da dupla Englehart/Rogers cria a mais amedrontaroa versão do Cara de Barro

Lógico que como nós sabemos, com o reconhecimento de “Estranhas Aparições”, Steve Englehart não abandonou os quadrinhos, e para nossa sorte alguns anos depois foi escrever Lanterna Verde, título para o qual criou um dos personagens mais carismáticos de todos os tempos, Killowog. E que ainda de quebra foi responsável pela reimaginação de Guy Gardner.

Killowog - Mais uma criação de Steve Englehart

Segundos relatos dele, desde o fim dos anos 1970 que a DC tinha planos para uma versão live action de Batman, movidos pelo sucesso do Superman de Richard Donner, e que ele mesmo teria apresentado três roteiros diferentes para o projeto, que dez anos depois acabou parando nas tresloucadas mãos do diretor Tim Burton, que descartou praticamente tudo que o escritor tinha pensado, só sobrando a inspiração de Silver St.Cloud para Vicky Vale (ainda que pessoalmente considere a personagem vivida por Kim Bassinger uma completa idiota, nem de longe se assemelhando a Silver), alguns traços do Coringa de Jack Nicholson, e obviamente inspiração do envenenamento que deixa as vítimas do Coringa com sua fisionomia.

Rupert Thorne em Batman TAS

Além disto, dá para se dizer que a obra de Englehart tem um fã ilustre em Bruce W. Timm, que em "Batman The Animated Series", não apenas “adotou” Rupert Thorne como seu mafioso de cabeceira, como adaptou duas estórias de “Estranhas Aparições”: Os Peixes Risonhos e Eu Sou O Batman (que ganhou o título de “O Estranho Segredo de Bruce Wayne).


Em 2006, enfim de fato trabalhando juntos, Steve Englehart e Marshall Rogers retornam a Batman e seu universo, era The Dark Detective. Porém, a obra, que teve alguns de seus elementos adaptados para o filme “Batman O Cavaleiro das Trevas”, ficou inacabada após a morte de Rogers em 2007.

Dark Detective marcou a volta da parceria Englehart/Rogers...


...mas a obra ficou "inacabada".

Lembrada, ovacionada e reverenciada em outros países, como uma das sagas que de fato definiram o assim chamado “Batman moderno”, segue aqui em Terra Brasilis pouco conhecida, por uma geração que nem faz ideia que muito daquilo que dizem gostar já tinha sido feito bem antes de outros autores que se valeram de tudo que já tinha sido construído e de um momento favorável para se autopromover, mas que até hoje bebem da fonte desbravada por Steve Englehart em Estranhas Aparições.

Uma das vezes que "Estranhas Aparições" foi publicada no Brasil, na revista "Superamigos"







Patrulha Estelar e suas vozes inesquecíveis!

  Fazendo uma rápida pesquisa na web, não é assim tão difícil encontrar alguns artigos que citam os dubladores que nos anos 1980 na extinta ...