sábado, 4 de novembro de 2023

Tia Carrere – De Honolulu à Caçadora de Relíquias

 

Tempos atrás aqui no blog fiz um artigo sobre Mark Dacascos, e como foi um dos rostos mais vistos nas telas durante os anos 1990 até começo dos anos 2000. Abordando sua ascendência multiétnica e sua carreira.

Mas nosso querido “Cryin Freeman” não foi o único astro que o Havaí exportou para o resto do mundo naquela época. E não, não estou me referindo a Dean Cain, o Superman havaiano, e sim a primeira e única... Tia Carrere!

Nascida Althea Rae Duhinio Janairo, nossa heroína adotou o nome artístico de Tia Carrere da junção do apelido “Tia” dado por sua irmã mais nova, e Carrere que foi uma homenagem a modelo e atriz Barbara Carrera.

De ascendência filipina, chinesa e espanhola (sim, eu sei, lembra bastante Mark Dacascos), cresceu numa família de renda baixa em Honolulu, não nutrindo muitas expectativas sobre seu futuro.

Aos treze anos foi “deixada para atrás” segundo relato dela mesma, quando seu pai conseguiu um emprego num banco em Samoa, e acharam melhor que ela permanecesse no Havaí sob os cuidados da avó, para não interferir em seus estudos. Contudo, o maior choque mesmo foi quando a mãe e as irmãs voltaram, e sem o pai, que tinha começado um relacionamento com a secretária, implodindo o casamento, e consequentemente a cabeça da jovem Tia.

"Zombie Nightmare", um trabalho sobre o qual Tia nem comenta

Sua primeira e fugaz aparição na tela, se deu num filme de terror, horrivelmente B (ou C, ou Q ou Z, dê a letra que preferir), chamado “Zombie Nightmare”, cujo o enredo lembra muito, para não dizer que seja idêntico, ao de “Eu Sei O que Vocês Fizeram No Verão Passado”. Só que colocando um tempero de voodoo no meio. E que por alguma razão desconhecida por este escriba, conta ainda com Adam West, o icônico Batman de 1966 no elenco.

Contudo, este é um trabalho, que seja lá por qual razão, Tia Carrere nem chega a citar quando dá entrevistas.

E tudo parecia estar dando errado para ela, quando num daqueles acasos que a gente acha que só acontecem em filmes, os pais de um produtor cinematográfico a viram num mercado em Waikiki, e a abordaram com uma das daquelas conversas que as mães de qualquer garota falaria: Cai fora que é fria!

Em foto promocional de "Aloha Summer"

Só que por incrível que pareça, era tudo real! E Tia foi convidada para fazer um teste para um filme que o filho do casal estava produzindo, que se chamava “Aloha Summer”. E a jovem foi ao teste, ganhando para surpresa dela mesma o papel de protagonista.

Aquilo mudou a trajetória e visão que tinha sobre sua vida, pois segundo seu próprio relato, sua família não tinha dinheiro para pagar uma universidade, e nem ela tinha notas boas suficientes para se candidatar a uma bolsa.

Então, com apenas dezessete anos, e o registro como atriz debaixo do braço, pegou um avião, e no melhor (ou pior) estilo “garota com um sonho” partiu para Califórnia, com um “namorado lixo” (descrição dada pela própria) a tiracolo, que agia como seu empresário, determinada a seguir carreira como atriz.

E as coisas durante um certo período pareciam estar dando certo, pois em poucos meses já havia conseguido vários trabalhos como modelo, e sua primeira oportunidade real com um papel fixo na novela “General Hospital”.

Fora participações em seriados bem conhecidos de nós brazucas, como “Águia de Fogo”, “McGuyver” e até “Esquadrão Classe A” para o qual estava certa nos planos dos produtores para assumir papel fixo a partir da quinta temporada.

Mas aqui as coisas começaram a andar para atrás de novo na vida de nossa heroína. Primeiro, pois devido ao seu contrato com “General Hospital” não pôde entrar para o elenco fixo de “Esquadrão Classe A”. Inclusive muitos atribuem a isto o começo do fim do seriado, pois uma grande expectativa foi criada com o último episódio da quarta temporada, no qual Tia Carrere participa como a filha vietnamita de um general estadunidense, porém, não se concretizando na temporada seguinte.

Tia quase entrou para o elenco fixo de "Esquadrão Classe A"

Só que o pior ainda estava por vir, pois “General Hospital” chegou ao fim, e logo depois, o tal namorado que bancava o empresário, deu um golpe nela, roubando todo seu dinheiro que ficava numa conta conjunta, deixando-a literalmente sem teto.

Tia Carrere então passou a “morar”, se é que dá para chamar assim, no corredor de um hotel entre dois quartos, sendo ajudada apenas por um agente de modelos que já a conhecia.

Porém, desistir nunca lhe passou pela cabeça, e voltar para a casa estava fora de cogitação. E ela foi em frente com pequenas participações aqui e acolá, como uma luta fake com Christina Applegate num episódio de “Um Amor de Família/Marrie...with Children”.

Até ganhar certa visibilidade novamente em 1991, quando esteve no clássico do exagero “Massacre no Bairro Japonês” ao lado de Doplh Lundgren e Brandon Lee.

Visibilidade que a levou aos estágios finais de teste para ingressar no elenco de “SOS Malibu”, como uma bióloga namorada do protagonista David Hasselhoff, até que um roteiro lhe chamou a atenção.

Mike Myers, Tia  e Dana Carvey

Baseado no esquete de humor “Wayne’s World” de Mike Myers e Dana Carvey para o programa “Saturday Night Live”, que aqui no Brasil passaríamos a conhecer como “Quanto Mais Idiota Melhor”, o papel de Cassandra Wong, uma roqueira fodona, de personalidade e estilo parecia perfeito para ela.

Durante uma entrevista, Tia Carrere lembrando do ocorrido, disse o que pensou na época:

'’Meu deus, esse papel pode mudar minha vida. E não sei de mais ninguém que possa atuar, cantar e arrasar. Mas eu posso! ”

E realmente foi isto o que aconteceu, ou como diriam Garth e Wayne, foi “Excelente!”.

Como Cassandra Wong em "Wayne's World"

O filme dirigido por Penelope Spheeris estreou em primeiro lugar nos cinemas estadunidenses, faturando só em território de Tio Sam mais de US$ 122 milhões em bilheteria.

Protagonizando a icônica sequência na qual, embrulhada num vestido de renda vermelho, canta o clássico “Ballroom Blitz” da banda Sweet. Sim! Nada de dublagem! Pois apesar da carreira como modelo e atriz, Tia Carrere sempre que tem oportunidade enfatiza que seu sonho sempre foi ser cantora.

Com o sucesso de “Quanto Mais Idiota Melhor”, do dia para noite todos só falavam nela, e não demorou para começar a chover as mais diversas propostas, conseguindo inclusive assinar contrato com uma gravadora para lançar um álbum.

Nesta mesma época interpretou a canção “I Never Even Told You” da trilha sonora do longa de animação “Batman A Máscara do Fantasma”.

E apesar de papéis de destaque para mulheres orientais serem uma raridade na época, Tia se manteve num fluxo constante de produções durante praticamente todos os anos 90.

Em "Sol Nascente" com Wesley Snipes

Com destaque para filmes como “Sol Nascente” ao lado de Sean Connery e Wesley Snipes, no qual faz Jingo Azakuma, uma genial mestre em computação de origem afro-nipônica. E sua icônica atuação em “True Lies” junto a Arnold Schwarzenegger, no qual faz a contrabandista Juno Skinner.

Em "True Lies"

Mas também atuando em produções menores como “Kull O Conquistador”, “Cidade do Medo” e "Ponto de Impacto".

Fazendo de Tia Carrere (mais uma vez se assemelhando a trajetória de seu conterrâneo Mark Dacascos), um dos rostos mais facilmente vistos durante aquela década, com uma média de três filmes por ano de 1992 até 1999.

Sobre esta época Carrere costuma a rir, ao pensar que interpretou, devido suas características físicas, personagens das mais diversas procedências, mas ironicamente nunca de sua principal linha de acedência, ou seja, uma filipina.

Mas a “cereja do bolo” ainda estava por chegar. A chance de ser 100% protagonista!

Era uma época diferenciada, onde os dois maiores destaques da televisão eram mulheres, com Gillian Anderson, a Dana Scully de Arquivo X de um lado, e Lucy Lawless com sua Xena, a Princesa Guerreira de outro, quase que monopolizando as atenções da mídia.

E uma produtora canadense vai procurá-la com a ideia de um seriado que misturava Indiana Jones com Lara Croft, e é obvio que estou me referindo ao pequeno grande clássico, “Caçadora de Relíquias”.

Um seriado que apesar de não ter o mesmo orçamento das produções estadunidenses, que cada vez mais se aproximavam dos orçamentos cinematográficos, soube capturar um espírito lúdico de antigos seriados que havia se perdido, durando cerca de quatro temporadas, nas quais Tia era a pesquisadora Sidney Fox. Um trabalho para o qual a atriz deixa a modéstia de lado e costuma se referir como “a melhor versão de Tom Raider”.

Apesar de todo destaque, ainda assim Tia teve que lidar com o assédio (e aqui leia-se assédio mesmo!), como quando foi para uma audição num quarto de hotel mal iluminado ocupado por Steven Seagal, que a olhou de alto a abaixo, a fez dar uma voltinha, e sem pudores perguntou se ela tinha algum problema com nudez.

Contudo, como ela mesma citou certa vez em uma entrevista:

“Graças a deus ninguém nunca veio pra cima de mim, ou eu teria que socar alguém no nariz ou dar uma joelhada no saco dele”

Em 2003 fez um ensaio para a "Playboy"

O que não quer dizer que nossa heroína tenha algum problema com o tema, muito pelo contrário, pois em 2003, surpreendendo a todos, lá estava Tia Carrere na capa da revista Playboy! E não, não era para uma entrevista (risos).

Diminuindo o ritmo de trabalho após o fim de “Caçadora de Relíquias”, Carrere seguiu com sua carreira como cantora, que desde 1993 nunca tinha sido interrompida, e que ao contrário do que você que está lendo possa imaginar passou longe da “esfera rock” para o qual ficou associada.

Com Danny Ho após ganhar um de seus dois Grammys

Ganhando inclusive dois prêmios Grammy de “Melhor Álbum de Música Havaiana” (sim, existe um prêmio só para música havaiana), numa parceria de quatro álbuns que fez com um amigo de infância, Daniel Ho.

Deu voz a Nani em "Lilo & Stich"...

Fora que passou a se dedicar cada vez mais a dar voz para personagens de animações, como por exemplo, Nani Pelekai, a irmã mais velha de Lilo em “Lilo & Stich”. 

...assim como a alienígena Darklos em "Mega XLR".

Além de fazer sua voz presente em outras animações como Jonny Bravo, Duck Dogers e Mega XLR.

Com o casal Julie Condra e Mark Dacascos

E não poderia deixar de mencionar que em 2016, as duas lendas havaianas enfim trabalharam juntas, pois Tia Carrere está no elenco de “Showdown in Manila” que fez justamente para dar uma força ao seu amigo e conterrâneo Mark Dacascos em sua primeira incursão como diretor.

E se você pensa que em 2023 nossa caçadora de relíquias já está aposentada só em casa cuidando da filha, aproveito estas últimas linhas deste artigo para dizer que ela não apenas lançou a canção “I’m Still Here” composta por ela, no começo deste ano.


         Como de quebra resolveu sensualizar para desespero “das inimiga”, publicando uma série de fotos de biquíni em seu Instagram, mostrando aos 56 anos que a estrada ainda não terminou, e avisando que o vestido vermelho de Cassandra ainda está no closet.


 

 

 

 

 

quarta-feira, 11 de outubro de 2023

Os 10 Melhores Filmes de Sylvester Stallone

Não é segredo para ninguém que vários atores que marcaram gerações estão começando a “sair de cena”. Seja por problemas de saúde como Bruce Willis ou simplesmente pois sabem que agora é hora de não serem mais refém do despertador e dos contratos.

E ao que parece o ícone Sylvester Stallone apesar dos fãs mais exaltados, que negam veementemente isto, já ensaia sua retirada de cena.

Por isto, o “Enquanto Isso na Ponte de Comando” está aqui para revisar sua carreira e mostrar que nem apenas de tiroteio Sly viveu (apesar de quase sempre) ...

Então vamos lá!

 

10 – Rota de Fuga:

Durante anos Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenegger foram adversários, quase inimigos mortais. Contudo, após vários acontecimentos, em especial na vida pessoal de Stallone, acabaram não apenas por se aproximar, como se tornaram amigos. E ainda que comumente possam ser lembrados pela franquia “Mercenários” é aqui em “Rota de Fuga”, uma trama de presídio muito bem amarrada, que de fato, todos os fãs do cinema de ação oitentista puderam ver seus ídolos de fato atuando juntos.



09 – F.I.S.T:

Stallone tem alguns capítulos à parte dentro sua filmografia que raramente são lembrados. E talvez este filme seja o mais emblemático de todos, um drama no qual Sly faz o papel de John Novak, um líder sindical durante a década de 1930. A curiosidade do filme fica por conta de Anthony Kieds, que anos depois se tornaria vocalista do Red Hot Chilli Pepers fazendo o papel de filho de Stallone.



08 – Creed, Nascido Para Lutar:

Rocky Balboa foi o personagem que abriu as portas de Hollywood para Stallone. Só que após décadas, a imagem do boxeador de bom coração parecia estar totalmente falida. Mas não é que Sly conseguiu se reinventar! E a estória sobre o filho de Apollo Creed não apenas lhe rendeu elogios, como um Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante.



07 – Condenação Brutal:

E aqui estamos mais uma vez num presídio, com Sylvester Stallone sofrendo barbaridades na mão do diretor da instituição. Mas aqui ao contrário de “Rota de Fuga”, que se permite até ter seus fugazes “momentos galhofas”, o clima de tensão e perda da esperança não largam do pé do espectador, e muito devido a ótima intepretação de Donald Sutherland.



06 – Daylight:

Com a imagem de “exército de um homem só” meio cansada, em meados dos anos 90 Stallone partiu para algumas outras aventuras, e entre alguns (ou diversos) erros, acertou em cheio neste filme catástrofe, onde tenta salvar sobreviventes do desabamento de um túnel que liga Manhathan à Nova Jersey.



05 – Rambo IV (ou John Rambo):

Na época deste filme, Stallone presumivelmente estaria colocando ponto final nas duas franquias que mais lhe deram fama. Um ano antes com “Rocky Balboa” e aqui com o que seria (infelizmente não foi) o capítulo final da saga de John Rambo. O filme sofreu na mão dos entendidos em sétima arte devido suas cenas de violência, mas a verdade que não pode ser negada é que o filme, dirigido pelo próprio Stallone, retoma o espírito desesperançoso do solitário ex-boina verde, não vendendo uma ideia de uma “guerra de plástico”, mas ainda sim tendo um final absolutamente perfeito, onde vemos enfim Rambo ao que parece, fazendo as pazes consigo mesmo. Pena que tudo isto foi anos depois exterminado no quinto e desnecessário filme da franquia.



04 – CopLand:

Dirigido por James Mangold (Logan) este filme pode ser considerado uma espécie de faroeste moderno. Onde Stallone tem a tarefa pra lá de espinhosa de ser xerife numa cidade fundada e dominada por policiais.



03 – Falcões da Noite:

Espremido entre as franquias Rocky e Rambo, como já citei anteriormente aqui no blog. Este filme é mais uma daquelas pérolas escondidas, que muitos já ouviram falar, mas nem todos assistiram na íntegra, e para a qual já foi feito todo um artigo aqui no blog.

Portanto caso queira saber mais é só acessar o link logo abaixo:

Falcões da Noite

   



02 – Rocky Um Lutador:

O filme que mudou a vida de Sylvester Stallone. Falido, Stallone não desistiu enquanto não convenceu um estúdio de que apenas ele poderia interpretar o desacreditado lutador de boxe da Filadélfia que ganha a chance de sua vida ao seu chamado pelo campeão mundial Apollo Creed (Carl Weathers) para uma luta. O filme rendeu a Sly o Oscar de roteiro original e o catapultou ao estrelato.



01 – Rambo - Programado Para Matar:

Rocky pode até ter mudado a história de vida de Sylvester Stallone, mas “Rambo Programado Para Matar” mudou a história do cinema.

O filme que, apesar de não ter sido pensado para ser um filme de ação, “elevou o sarrafo” por assim dizer das películas do gênero, criando um subgênero que ainda que não tendo a mesma força de anos atrás, possui um público bem cativo, e que persiste até hoje.

Baseado no livro “First Blood” de David Morrell, a saga do solitário veterano de guerra, perdido num mundo que o rejeitava e que não compreendia, é talvez o melhor drama de guerra de todos os tempos.

Sim! E isto por uma coisa muito simples.

Todos os filmes do tipo se passam necessariamente no local do conflito, se não em sua totalidade ao menos em uma boa parte, do qual se extrai o drama do protagonista, mas aqui, ainda que absurdamente diluído em relação ao livro de David Morrell, o roteiro saí deste lugar comum, mostrando sua força na fatídica cena final, que chegou a ser filmada exatamente de acordo com o livro, mas que foi pela “espertise” de Stallone mudada depois de uma exibição teste.






 

 

  

quarta-feira, 6 de setembro de 2023

Agarre-Me Se Puderes – As 28 Horas Mais Loucas do Cinema!

 

Quem é Dominic Toretto na fila da borracharia?

Burt Reynolds já era famoso em meados dos anos 1970, por filmes como “Amargo Pesadelo” de John Boorman, quando conversando com o amigo Hal Nedham, ex-dublê e diretor, durante as filmagens de “Gator - O Implacável”, ouviu de Nedham histórias de contrabandistas de bebidas no sul do país. 

Nascia ali uma das maiores surpresas do cinema de todos os tempos e um dos maiores clássicos de nossas “sessões da tarde”.

Agarra-Me Se Puderes!

Fãs de carros e filmes com perseguições, Reynolds e Nedham começaram a projetar o que viria a ser “Agarre-Me Se Puderes” (Smokey and the Bandit, no original), com a premissa de um caminhoneiro boa praça fugindo da polícia num caminhão cheio de bebidas contrabandeadas.

Porém, logo perceberam que a figura do caminhão sozinho não daria certo, e incluíram o carro de escolta.

No enredo que tão bem conhecemos, Bo Darvill (Burt Reynolds), que era mais conhecido como Bandido, seu apelido ou codinome de estrada, aceita o desafio lançado por um empresário conhecido como Grande Enos Burdette (Pat McCormick) e seu filho o Pequeno Enos (Paul Wiliams), de ir até Texarkana (Texas) buscar uma carga de cerveja Coors, e entregá-la em Atlanta (Georgia) no exíguo prazo de apenas vinte e oito horas.

E aqui já começo a abrir os parênteses deste artigo (e acreditem, serão vários), para uma explicação etílica.

Como é citado no roteiro, a cerveja Coors era proibida de ser comercializada em alguns lugares da terra de Tio Sam. Isto era devido as leis sanitárias de alguns estados, e por uma questão simples.

A citada iguaria alcoólica, nada mais é que nosso conhecido chopp!

Sim, nosso chopp! Que nada mais é que a cerveja em seu estado puro, antes de passar pelo processo de pasteurização, e sem nenhuma adição de estabilizantes ou algo do gênero que faça aumentar sua validade para consumo.

Para conseguir cumprir com o desafio de três mil quilômetros, que se vencido lhe renderia um prêmio de 80 mil dólares, Bandido vai procurar seu amigo Cletus Snow (Jerry Reed), o Homem de Neve, que no começo relutante, muda de ideia, e leva consigo seu pet de estimação, o basset hound Fred.

Originalmente Jerry Reed era para ter sido o “Bandido”, pois Reynolds só atuaria como produtor associado. Contudo, conforme a ideia do filme foi ganhando corpo, aliado a agenda de shows do próprio Reed que era cantor country, Burt resolveu assumir o protagonismo da película.

Reed que era conhecido como um dos caras mais bacanas do meio country aceitou a substituição sem problema. E a presença de Reynolds fez com que a Universal abrisse a carteira, e de um orçamento inicial de míseros 1 milhão de dólares, liberasse 6 milhões, mas que no meio do caminho acabaram se tornando apenas 4,5 milhões.

Hal Nedham passando instruções para Fred (risos)

Foi também foi de Burt Reynolds a escolha do cão que “interpretaria” Fred. Coloquei aspas aí, pois vamos combinar que o bonachão basset hound é quase uma versão canina do Garfield (risos).

No caminho de ida tudo corre como planejado, mas no caminho de volta, Bandido quase atropela e acaba por dar carona para Carrie (Sally Field), que posteriormente ganha o apelido de Rã.

Só que nosso anti-herói não fazia ideia que a moça, estava fugindo de seu casamento com Junior (Mike Henry), filho do xerife Bufford T. Justice (o veterano Jackie Gleason).

Aliás, por mais engraçado que possa parecer o nome do xerife, de fato existiu um policial chamado Bufford Justice, que era amigo do pai de Burt Reynolds.

Bem.... Daí por diante o filme desembesta, no melhor sentido da expressão!

Pois mesmo sem saber de nada sobre a carga ilegal da qual Bandido fazia escolta, o xerife começa a persegui-lo de forma alucinada, gerando as mais absurdas cenas de perseguição que o cinema tinha visto até então.

Com Jackie Gleason disparando uma quantidade inacreditável de gags que, segundo o diretor Hal Nedham, eram em ao menos 70% das vezes criações e improvisos do próprio ator, que teve carta branca total para tal. Responsável direto por pérolas do mais politicamente incorreto humor, como: “Eu não acredito que você saiu de mim” ou “Quando chegar em casa, a primeira coisa que vou fazer é dar uma coça na sua mãe”.

Hal Nedham se escangalhando de rir com Jackie Gleason.

Tornando o xerife Bufford, de um personagem que facilmente seria obliterado na trama ou se tornaria irritante, em um dos pontos mais altos do filme, seja nas inteirações pontuais com personagens esporádicos, mas principalmente ao contracenar com Mike Henry, o Junior.

Henry, um ex-jogador da NFL, que já era um rosto bem conhecido dos brasileiros por ter protagonizado três filmes de Tarzan, dentre os quais “Tarzan e o Grande Rio” que foi filmado em sua maior parte no Rio de Janeiro, mais precisamente na Barra da Tijuca, usando do complexo de lagoas desta região como Rio Amazonas. Além de já ter trabalhado com Burt Reynolds em "Golpe Baixo" (1974).

Um personagem que não existia no roteiro original, e foi um pedido de Gleason, pois segundo o próprio, caso não houvesse um personagem ao seu lado, não teria quem pudesse “usar de escada” para suas tiradas cômicas.

Enquanto isso para Jerry Reed, como recompensa por ter cedido o protagonismo do filme, além do papel de Homem de Neve, também ganhou a incumbência por parte do diretor de fazer a trilha sonora. Mas com filmagens que foram feitas em apenas um mês e meio, num clima de camaradagem absoluta, junto sua agenda de apresentações, não é que Reed simplesmente esqueceu de compor algo! Só sendo lembrado por Nedham já quando o filme estava quase todo montado.

Jerry então levou sua banda para a seu estúdio pessoal, e em apenas uma noite nasceu o clássico “East Bound and Down”. E não, isto não foi um eufemismo, pois a canção acabou ficando nada menos que dezesseis semanas consecutivas se revezando entre o primeiro e o segundo lugar da parada country da Billboard.

Quanto a Burt Reynolds e Sally Field, a química entre os dois era tão perfeita, que o namoro das telas passou para vida real, e o casal voltou a atuar junto em mais três filmes, incluindo aí a continuação das aventuras do Bandido, “Desta Vez Te Agarro” (uma inventividade brazuca na hora de colocar o título).

A multiplicação dos caminhões em "Desta Vez Te Agarro"

Continuação esta que apesar de manter toda equipe original, e pegar carona no apelo que os personagens tiveram junto ao público infantil, ao inserir a estória de uma elefanta como carga da vez, com todos os ganchos possíveis que uma situação desta acarreta, nem de longe conseguiu replicar a agilidade do roteiro da primeira aventura, ainda que tenha ótimas cenas, com destaque absoluto para a cena da “multiplicação dos caminhões”.

Jerry Reed enfim se torna o Bandido em “Agora Você Não Escapa”

O filme ainda ganhou um terceiro capítulo que graças mais uma vez a inventividade tupiniquim, ganhou o título aqui de “Agora Você Não Escapa”. Mas como nesta época, o namoro de Burt Reynolds e Sally Field já era passado, o filme não passou de um caça-níqueis. Porém, ao menos serviu para Jerry Reed enfim encarnar o Bandido, com Burt Reynolds aparecendo apenas numa ponta já no finalzinho.

Nos anos 1990 ainda tentaram ressuscitar o Bandido, numa série de quatro telefilmes que aqui no Brasil chegaram a ser exibidos pelo SBT. Mas a coisa foi no mínimo uma piada ruim, sem menor referência aos protagonistas do filme clássico.

Burt Reynolds e o icônico Pontiac Firebird TransAm 1977

Sem falar que a versão anos 90 do Firebird TransAm, nem de longe possuía o mesmo apelo visual e carisma que seu ilustre antepassado co-protagonista da aventura, que com o sucesso de “Agarre Me Se Puderes”, fez a Pontiac (uma divisão da GM), ver as vendas do modelo aumentarem em mais de 50% em menos de seis meses.

E por falar em aumentar lucros, “Agarre Me Se Puderes”, com seu modestíssimo orçamento de 4,5 milhões de dólares, se tornou um sucesso tão imediato e estrondoso, que foi a segunda maior bilheteria de 1977, deixando até os alienígenas de “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” comendo poeira, e só sendo vencido pela “força”, ou seja, por “Guerra nas Estrelas”.

Se tornando inclusive um sucesso entre os críticos que reconheceram ali, e isto é coisa rara, uma virada de página na história do cinema de aventura.

Além de, como era de se esperar, ganhar fãs ilustres ao longo do tempo. Como Quentin Tarantino, que em “Era Uma Vez Em Holywood” baseou toda a premissa da amizade entre os personagens de Brad Pitt e Leonardo Di Caprio, na amizade real entre Burt Reynolds e Hal Nedham.

Ou um certo Alfred Hitchcock...

Alfred Hitchcock era um grande fã das aventuras do Bandido

Sim, ele mesmo, o mestre do suspense, que segundo uma entrevista dada por sua filha poucos anos depois de sua passagem, tinha por hábito, quase que religioso, toda quarta-feira ficar em seu escritório assistindo seus filmes favoritos, e entre estes filmes, um que dos que o cineasta mais revia, praticamente toda semana, era justamente “Agarre Me Se Puderes”, e que foi o último filme que assistiu antes de morrer.

Por isto, apesar das possíveis torcidas de nariz de alguns “entendidos” da web, que tentam rebaixar “Agarre Me Se Puderes”, rotulando-o como sendo um mero filme de rednecks (os típicos caipiras sulistas estadunidenses), você que chegou até aqui ao final deste artigo, pode ter certeza.

Este é um dos filmes mais LEGAIS e feitos com mais coração que o cinema já teve, e que precisa sim ser descoberto por toda uma geração que cresceu pensando que “Velozes e Furiosos” inventou a roda.



 

Patrulha Estelar e suas vozes inesquecíveis!

  Fazendo uma rápida pesquisa na web, não é assim tão difícil encontrar alguns artigos que citam os dubladores que nos anos 1980 na extinta ...