domingo, 25 de dezembro de 2022

Filmation – A Terceira Força da Animação Norte-Americana

 

Aqui no blog, em oportunidades anteriores já visitamos a história de grandes nomes e produtoras de cinema de animação, como a Hanna-Barbera e Ruby&Spears.

Contudo, no meio da disputa das audiências das famosas “manhãs de sábado” nas tevês estadunidenses houve uma, digamos, terceira força. Que assim como suas coirmãs marcou época e faz parte da memória de muitos, a Filmation.

O começo, o embrião do que viria a ser a Filmation, tem início em 1957, quando Lou Scheimer e Hal Sutherland se conhecem enquanto trabalhavam na “Larry Harmon Pictures”, produtora bem conhecida de nós brazucas nos anos 80 pelos desenhos do Bozo e do marinheiro Popeye.

Em 1961 os dois amigos acabaram ficando sem emprego quando o senhor Harmon fechou a companhia, e aí foram descolar uns trocados numa outra produtora chamada True Line, da qual se tornaram sócios, onde foram abordados por uma empresa japonesa chamada SIB, a fim de produzir um desenho de cunho educativo chamado Rod Rocket, contando as aventuras de um garoto astronauta.

E logo depois acabaram por assumir o comando da produção de curtas-metragens sobre a vida de Jesus Cristo, patrocinados pela Igreja Luterana.

E então, já com alguma grana na conta, em 1962, Lou e Hal montaram, junto com um advogado chamado Ira Epstein - que acabou mesmo só sendo o famoso sócio administrativo -, a Filmation Associates, que acabou sendo creditada como design de produção nas produções que realizaram na True Line.

Mas calma! Esta ainda não era Filmation que conhecemos.

Esta só ganharia a luz do dia quando da chegada de um cara chamado Norm Prescott.

Da esq. p/ dir. - Norm Prescott, Hal Sutherland e Lou Scheimer

Que já chegou cheio das ideias, propondo uma sequência em animação para o clássico dos anos 30, “O Mágico de Oz”. Contudo, pela mais absoluta falta de verba para colocar o projeto para frente, foram “tocando a vida” como dava, fazendo vários comerciais.

Até que em 1965 ocorre o “pulo do gato”, se é que dá para chamar assim, na vida dos três, cujos caminhos se cruzam com o da DC Comics, mais especificamente com do célebre autor e editor Mort Weisinger, o criador do Aquaman.

Mort Weissinger - editor da DC

Ganhando assim um contrato para produzir uma série animada do Superman, a segunda animação do azulão após as clássicas animações feitas para o cinema pela Fleischer Studios.

E aí a coisa deslanchou de vez!

Com os heróis da DC a coisa começa a mudar para a Filmation

Lanterna Verde, Gavião, Flash, Átomo, Aquaman e até a Turma Titã, um embrião dos Novos Titãs, estavam lá nas telinhas pela primeira vez. Em animações que sim, estavam inseridas dentro do mesmo universo.

Sendo que só dois anos depois o Batman entraria para este time, com três séries distintas em momentos diferentes, e que chegaram a ter Adam West e Burt Ward, a clássica dupla do seriado de 1966, fazendo as vozes da dupla dinâmica.

E com a moral dada por estas produções de baixo custo e alta eficiência, em 1968 a Filmation fecha um baita contrato para produzir uma animação para a turma do adolescente Archie, personagem pouco conhecido aqui por estas plagas ao sul da linha do equador, mas que cujas tirinhas em quadrinhos eram um baita sucesso em terras de Tio Sam.

Aqui você que está lendo, já deve ter percebido que o forte da Filmation, ao contrário da Hanna-Barbera, era trabalhar sob encomenda. Mas com o sucesso alcançado, na virada para a década de 1970, decidem dar um passinho mais para frente, e fazerem algo que nos anos 80 a Ruby&Spears se tonaria especialista, que era produzir desenhos de celebridades, como dos comediantes Bill Cosby, e até do Rei da Comédia Jerry Lewis.

Conseguindo finalmente nesta época lançar nos cinemas o tão almejado projeto de Norm Prescott, a continuação em animação de “O Mágico de Oz”

Passando então a realizar aquilo que se tornou talvez sua maior marca até meados da década seguinte, que foram as adaptações de personagens bem conhecidos.

    E nesta lista temos as animações da cadelinha Lassie, e de Jornada nas Estrelas.

E dois daqueles que considero pessoalmente os três pontos altos da produtora, as adaptações de Tarzan (numa versão até bastante fiel aos originais de Edgar Rice Burroughs) e pegando carona no filme produzido por Dino de Laurentis, a adaptação de Flash Gordon.

E ainda que tenha sido nestas produções que a Filmation começou a usar a exaustão o processo conhecido como rotoscopia, não há como negar que se tinha um certo nível de esmero que não visto até ali, e nem repetido posteriormente.

Foi nesta mesma época também que começaram a abrir uma nova frente, investindo em seriados live action. Voltando a parceria com a DC Comics, e realizando o seriado do Shazam (que na época ainda atendia por Capitão Marvel).

Além de serem responsáveis pela criação simplesmente da Poderosa Ísis, que tempos mais tarde foi inserida no cânone oficial de personagens da DC. E lógico que não precisamos ser gênios para imaginarmos que houve crossovers entre os seriados dos heróis.

Fora que produziram um seriado, quase sitcom, dos Caças Fantasmas. Mas não aqueles Caça Fantasmas de Nova York e do Ecto-1, e sim aqueles que nos anos 1980 a mesma Filmation faria uma animação, mostrando as desventuras de dois amigos metidos a detetives que junto a um gorila falante viviam investigando casos envolvendo assombrações, sendo que na animação os personagens eram justamente os filhos dos personagens do seriado.

Fora a série da Ark II, que já tratava naquela época de um mundo pós- apocalíptico com extrema escassez de recursos naturais, na qual um grupo de jovens cientistas vagava por uma terra desolada em busca do que havia restado da humanidade, num plot quase Mad Max, só que com mais sentido.

Além de trazerem de volta ao menos dois clássicos das animações feitas para as matinês dos cinemas, Super Mouse, e Faísca e Fumaça.

Eis que então chegamos a década de 1980, e a Filmation resolve investir num personagem próprio, era vez de Blackstar!

Aqui preciso abrir um pequeno parêntese, para salientar o quanto este desenho foi importante. Primeiro por ter um protagonista, que ao menos para os padrões estadunidenses era negro; segundo por ter um dos vilões mais sinistros das animações para tevê, que sempre fica de fora daqueles posts de rede social sobre o tema, o carrancudo e pétreo Overlord; e terceiro que são seus diversos pontos de similitude, tanto na estória quanto visualmente com aquele que pouco tempo depois, viria a ser o maior sucesso da produtora.

E é óbvio que falo de He-Man e os Mestres do Universo.

Uma animação que se formos de fato parar para analisar sem o coeficiente da memória afetiva, se constitui num dos mais gritantes e bizarros casos de possibilidades perdidas que tive o desprazer de conhecer.

Com uma quantidade infindável de ganchos que poderiam ser desenvolvidos deixados de lado, em favor de uma cultura rasa de baba-eletrônica, sempre com aquela mensagem educacional tacanha no fim de cada episódio.

Mas como o que interessava ali era no fundo vender brinquedo e toda sorte de bugiganga, He-Man e os Mestres do Universo cumpriu seu papel com galhardia, alcançando altíssimos índices de audiência não importando o país que fosse exibido, vendendo de bonecos a lancheiras escolares como água no deserto.

Um sucesso tamanho que gerou a série de sua irmã, She-Ra!

Para o qual a origem é contada no longa-metragem de animação, “O Segredo da Espada Mágica”.

Os "Caça-Fantasmas" da Filmation

Contudo, porém, entretanto e, todavia, como se fosse uma lâmpada que brilha mais intensamente pouco antes de queimar, foi aí que coisa começou a descer a ladeira. E quando a Filmation resolveu ressuscitar em forma de animação seu antigo seriado dos Caça Fantasmas para pegar carona no sucesso da tripulação do Ecto-1, a coisa não deu certo.

Fazendo a produtora em 1987 “pagar pra ver”, e apostar numa outra produção que não era sob encomenda e com um personagem 100% próprio, o delegado espacial Brave Starr, que era descendente de índios, e que protegia o planeta Novo Texas.

Uma animação que a Filmation botava tanta fé que em 1988 chegou a lançar um longa-metragem nos cinemas norte-americanos, com gráficos muito mais caprichados, mas que nem de longe foram suficientes para evitar o fracasso nas bilheterias.

O longa-metragem de BraveStarr

Um baque tão forte que culminou com a venda da empresa em 1989 para um consórcio de investidores que tinha como cabeça a L’Oreal. Sim, ela mesma, a gigante mundial dos cosméticos, que vinha procurando outros campos de atuação para investir se dinheiro, mas que obviamente não tinha a menor noção do que fazer com uma produtora de desenhos animados.

E o que aconteceu? Nada! O mais absoluto nada!

Sem saber como gerir aquele acervo, salvo as produções que foram feitas sob encomenda, o catálogo da Filmation foi passando de mão em mão até 2004 quando foi comprada por uma empresa britânica chamada Entertainment Rights.

Para apenas em 2012 pousar em solos mais seguros quando foi comprado pela DreamWorks de Steven Spielberg.

Colocando um ponto final na trajetória de uma das maiores empresas produtoras de animação de todos os tempos.



 

sábado, 26 de novembro de 2022

E se Christopher Nolan dirigisse um filme do GI Joe? - O Fancast

 

Há algum tempo atrás aqui no blog, saindo um pouco dos artigos que usualmente costumo publicar, me dei a liberdade de criar um fancast para um filme da Patrulha Estelar (Patrulha Estelar - O Fancast!).

Agora venho aqui repetir a dose, só que com os GI Joe’s, nossos conhecidos “Comandos em Ação”.

E faço isto basicamente por um motivo muito simples:

Nunca engoli nenhum dos filmes da franquia, que jamais exploraram o potencial devido dos personagens (É difícil acreditar que Transformers deu mais certo...).

A premissa em questão foi criada por mim, levemente baseada em fatos reais. A escolha de Nolan como possível diretor se deve ao fato que acredito que apenas fugindo do tom cartunesco (cartunesco ruim, que fique claro), pode se pensar na revitalização desta franquia.

Então...boa diversão:

SINOPSE:

Na trama o alto comissário da ONU, Antônio Vieira (Morgan Freeman), tenta aprovar a ideia de que a Organização das Nações Unidas precisava ter uma força de resposta armada rápida para resguardar as vidas de inocentes em qualquer parte do mundo quando necessário.

Sua segurança era feita por um pequeno grupo multinacional de voluntários comandados pelo general Anthony Hawk (Thomas Jane). Uma espécie de embrião daquilo que Vieira tentava implementar.

Contudo uma série de atentados coordenados tiram a vida de Antônio, assim como de seu secretário Edward Natrix (Cillian Murphy) que é dado também como morto quando o avião em que estava cai no Oceano Indico.

O grupo de Hawk cai em desgraça, com o general perdendo sua patente enquanto sofre um processo por negligência na segurança de Antônio.

Contudo as coisas tomam um rumo inesperado, quando o misterioso Snake Eyes (Stephen Amel), busca contato com o general, tentando alertá-lo para todo um plano maior que estava por trás, e que a organização conhecida até então apenas como uma companhia militar privada chamada Cobra, era muito mais do que aparentava.


ELENCO PRINCIPAL:
Thomas Jane – General Hawk


Chris Hensworth - Duke


Scarlet Johansson - Scarlett


Christian Bale – Flint


Anne Hathaway – Lady Jaye


Terry Crews – Road Block


Stephen Amel – Snake Eyes


Bryan Cranston – Wild Bill


Jennifer Holland - Cover Girl


Cillian Murphy – Edward Natrix / Comandante Cobra


Adrew Koji – Storm Shadow


Doplh Lundgren – Destro


Meisa Kuroki – Baronesa


Timo Kotipelto – Han Xamot e David Duchovny – Tomax Han


PARTICIPAÇÃO ESPECIAL:Morgan Freeman – Alto Comissário Antônio Vieira


 DIREÇÃO: Christopher Nolan




segunda-feira, 24 de outubro de 2022

O Matador - The Killer

 

Durante todos estes anos de existência deste blog, já escrevi sobre alguns dos mais emblemáticos filmes de ação de todos os tempos. Desde o cartunesco “Comando Para Matar” até o tenso e realista “Lágrimas do Sol”.

Mas ainda havia um filme que não sei por que cargas d’água ainda não havia tido coragem de externar minha opinião. Talvez por ser um dos mais singulares exemplares de filmes que já tive o prazer de assistir,

Me refiro a “O Matador-The Killer”, a obra prima de John Woo.

O cinema de Hong Kong sempre foi profícuo em sua produção de filmes de ação, em geral voltados para o nicho das artes marciais. Mas em meados dos anos 1980 alguns cineastas passaram a querer dar um passo a mais, e quem sabe de passo a passo ir mais longe.

Na linha de frente deste movimento se encontravam os nomes de Tsui Hark e John Woo. Um movimento que teria grande influência sobre o cinema norte-americano da década seguinte.

Tsui Hark

E em 1989 os dois se unem, Tsui como produtor e Woo como diretor, para o que em tese poderia ser apenas mais um filme, mas que como outros já resenhados aqui se tornou um capítulo único nas histórias de seus realizadores.

John Woo

Quando se dá uma olhada na web, e nos deparamos com um resumo de “O Matador”, nem de longe se dá para imaginar o caldeirão de influências extremamente bem dosadas que este filme nos brinda e muito menos as outras tantas que foi capaz ade gerar.

No roteiro, Jeffrey Chow, o matador do título, vivido por Chow Yun Fat (estrela da maioria dos filmes de John Woo), ao realizar um “serviço” acaba disparando sua arma junto ao rosto da cantora Jenny (Sally Yeh) que lesiona as córneas.

Tempos depois, Chow acaba salvando Jenny de uma dupla de ladrões, e toma conhecimento do real estado da cantora que ainda sonhava com um transplante de córneas antes que perdesse por completo a visão. Então antes de se “aposentar”, nosso matador aceita um último trabalho, para com o dinheiro ganho financiar a operação de Jenny fora de Hong Kong.

Só que durante sua fuga enquanto era perseguido pelo policial Lee (Danny Lee), nosso matador é emboscado por atiradores contratados para fazer aquela tradicional “queima de arquivo”. E no meio do tiroteio uma menina é ferida.

E a forma como Jeffrey trata a situação da garota ferida, mesmo que colocando sua vida e liberdade em risco chama a atenção do policial.

A partir daí começa a se desenvolver uma outra estória envolvendo os protagonistas que até então se encontravam em lados antagônicos, mas que se veem um espelhado no outro, tanto pela forma como agem como ao perceberem estarem sendo manipulados num jogo sujo.

E em meio a alguns dos tiroteios mais insanos da história do cinema, John Woo vai tecendo sua colcha de emoções, sim emoções, pois “O Matador” é acima de tudo um filme que transborda em emoções das mais diversas, sem a menor vergonha de expô-las, mas sem em nenhum instante esquecer de ser um filme de ação.

Isto te lembra algo? Sim, é claro.

Não estou afirmando, mas é possível ver aqui um bocado da mesma atmosfera que anos depois Luc Besson aplicaria em seu “O Profissional”. Aliás roteiros de assassinos em crise de consciência se tornou uma premissa bastante utilizada durante os anos 1990, nos gerando alguns dos melhores filmes do gênero daquela década como “O Atirador” com Dolph Lundgren, ou “Assassinos Substitutos” protagonizado por ninguém menos que o próprio Chow Yun Fat.

Nos conduzindo através de um caminho de personagens que ainda que tenhamos visto em outras obras, poucas vezes foram tratados com a sutileza e profundidade que se vê aqui, embalados por uma trilha sonora melódica que lembra bastante a trilha sonora de algumas animações nipônicas da mesma época, em especial a já resenhada aqui “Wicked City”.

Hora reverenciando os antigos filmes de gangster, hora flertando com o faroeste (mais faroeste que a harmônica tocada por Chow é impossível). Numa mistura de cenas tocantes que se intercalam com cenas da mais crua violência gráfica, mas que estão lá para justamente complementar nossa experiência e nos fazer torcer por aqueles personagens.

Além lógico daquele festival de “maneirismos” típicos de John Woo e nos anos seguintes exaustivamente copiados pelo cinema estadunidense, como as famosas cenas em que um personagem em um momento crítico aponta a arma para o outro e vice-versa. E as indefectíveis pombas brancas, a marca registrada mais conhecida do diretor.

Como resultado desta pérola - além de outro filme seu, “Fervura Máxima”-, e o bom marketing que gente como Quentin Tarantino fez de seu trabalho, John Woo carimbou seu passaporte para Hollywood, levando a reboque seu amigo e maior astro, Chow Yun Fat, mas que estranhamente seguiu seus próprios rumos dentro do cinema norte-americano.

E eis que chegamos então em 2022. E não é que mais de trinta anos depois, é anunciado que “O Matador” ganhará um remake norte-americano. Até aí nada demais, mas o detalhe aqui é que o próprio John Woo está à frente do projeto.

A ideia é boa? Você que talvez nem tenha assistido ao filme original possa estar se perguntando agora.

Bem, na humilde opinião deste escriba, o fato de Woo estar envolvido com a coisa toda é muito bom, mas não dá para se ter certeza do êxito desta empreitada por dois motivos básicos.

O primeiro é que considero “O Matador” um daqueles filmes que estão no mesmo pacote de “Robocop” ou “De Volta Para O Futuro”, ou seja, são “inrrefilmáveis”.

E segundo, porque no fim das contas, o “Matador” acaba por ser sobretudo, uma jornada - ainda que meio frenética as vezes -, sobre amizade e honra.


E como diz o próprio Jeffrey Chow em determinado ponto do filme: O mundo agora está mudado. A palavra “honra” é palavrão.

Mas isto só o tempo dirá. O mesmo tempo que cunhou “O Matador” como um dos melhores filmes de todos os tempos.



 

sábado, 17 de setembro de 2022

A História Sem Fim - O Filme Mais Profético de Todos Os Tempos.

 

Durante estes cinco anos de existência do “Enquanto Isso na Ponte de Comando”, tive sentimentos conflitantes sobre escrever sobre “A História Sem Fim”.

Apesar de ter uma opinião bem formada sobre a proposta do filme, sempre fiquei reticente sobre escrever a respeito dele. Contudo, diante da passagem de seu diretor no último dia 12 de agosto, o icônico Wolfgang Petersen (O Barco, Inimigo Meu, Na Linha de Fogo), e de me deparar com algumas resenhas simplesmente horríveis (mas que ainda assim provam que o filme sempre esteve certo), percebi que a hora tinha chegado.

Baseado no livro de mesmo nome do alemão Michael Ende, e com roteiro do próprio Ende e de Petersen, A História Sem Fim nos apresenta a Bastian Balthazar Bux (Barret Oliver), um garoto solitário, que tem que encarar a barra da perda recente da mãe, a quase absoluta indiferença do pai, além do bulying dos valentões do colégio, e que procura se refugiar nos livros e em mundos de ficção para sobreviver a tudo isto.

Até aí nada demais, como todos nós sabemos, e A História Sem Fim poderia tranquilamente passar por mais um produto massificado, embrulhado numa capa de boas intenções e recheado de mais do mesmo.

Mas quando ao fugir de seus agressores, Bastian entra num sebo, e trava contato com um misterioso livro, ao qual malandramente leva consigo para o sótão da escola e  começamos a embarcar num dos maiores exercícios de metalinguagem que já vi num filme.

Bastian começa a travar contato com "Fantasia"

E que faria a geração acostumada a “Harry Potter” ter o crânio esmagado sob o martelo invisível do drama, depressão e agonia com o qual o roteiro é mergulhado. Isto ao mesmo tempo que “conversa” de forma absolutamente proposital com o mundo real.

E para quem ainda nos dias de hoje defende a tese que tudo que acontece na película é uma metáfora para o luto de nosso jovem protagonista, lamento informar que o buraco é bem mais embaixo.

Pois se no começo tudo parece um “conto de fadas” no qual somos apresentados a personagens como um caracol de corridas, ou um gigante comedor de  pedras, logo após sabermos qual seria a “jornada do herói” que Atreyu, o protagonista do livro deveria cumprir, a coisa começa a mudar um pouco (ou muito) de figura.

A Imperatriz Menina

Nosso jovem herói precisava viajar até os confins de Fantasia (o mundo do livro) a fim de conseguir a cura para Imperatriz Menina achando uma criança humana para tal, e impedir o avanço de uma entidade chamada de “O Nada”.

Atreyu recebe o Auryn

Tendo apenas como “proteção” uma joia, um pingente que lhe é ofertado chamado Auryn, o mesmo símbolo que adorna a capa do livro.

E a medida que Bastian vai mergulhando na trama do livro, o filme cria a percepção que a barreira entre a ficção que lia e a realidade aos poucos se torna mais tênue.

Algo que poucos percebem (e em razão disto saem por aí escrevendo bobagens), que a estória trata de Fantasia não como algo fictício, mas sim como uma realidade alternativa, que apenas existia em função de uma relação simbiótica com nosso mundo, sendo o livro o portal de ligação.

E que todo plano da Imperatriz era um grande ardil a fim de atrair a atenção de alguma criança. Algo bem complicado já naquela época.

E de certa forma cabe até uma comparação com nosso querido Mestres do Magos, pois para atrair a atenção de Bastian, Atreyu acaba passando por diversos desafios e mazelas. Sendo a pior delas sem dúvida a perda de Artax, seu cavalo de estimação que morre afundando aos poucos na lama do assim chamado Pântano da Tristeza.

Atreyu tenta salvar Artax

Do qual o próprio Atreyu acaba por ser salvo no último segundo por Falkor, o dragão (como cara de cachorro) da sorte, enquanto sem saber era perseguido por Gmork, um lobo enorme que havia se tornado uma espécie de arauto do Nada.

Atreyu e Falkor

Já tive o desprazer de ler resenhas que tentam desmerecer a trama com alegações das mais pífias, para não dizer preguiçosas, como o fato do filme ser “muito triste’’ e “depressivo”, quando na verdade trata justamente da recuperação da esperança, ao mesmo tempo em que lança um alerta (super atual, diga-se de passagem) de como as pessoas ao deixarem de sonhar também deixam de realizar. E que consequentemente passam a ser mais fáceis de controlar pois perdem as esperanças.

E aqui entramos naquilo que torna este filme o “Mais Profético de Todos os Tempos”. Algo que talvez nem o próprio Michael Ende tenha pensado ao escrever seu livro. E não, não me refiro aqui a nenhum futuro despótico.

O "Nada" ameaça destruir "Fantasia"

Como a metáfora do “Nada” viria a se aplicar tão bem aos dias hoje, numa sociedade que preferiu trocar seus sonhos e realizações pela anestesia da automatização em todas as facetas da vida. Algo mostrado inclusive na indiferença e falas do pai de Bastian na cena do café da manhã. 

Questões semânticas (ou nem tão semânticas assim) à parte, “A História Sem Fim” foi a produção mais cara do cinema alemão até então (27 milhões de dólares), superando com folga “O Barco” do próprio Petersen, que obcecado ao extremo por perfeição chegava a fazer quarenta cortes diferentes para uma mesma cena, e isto fez com que as filmagens que deveriam durar só três meses, se estendessem por quase um ano inteiro.

Wolfgang Petersen

Apesar de ter colaborado com o roteiro, a relação de Michael Ende com o estúdio e com Wolfgang Petersen começou a azedar ainda durante as filmagens. Já que o escritor foi contra várias representações visuais existentes na película, desde a famosa “cara de cachorro” de Falkor, até a cena das esfinges que soltam raios, que foram retratadas com seios fartos, um visual que Ende considerava constrangedor.

Fazendo o escritor pedir que tirassem seu nome dos créditos e até mudassem o nome do filme, chegando posteriormente inclusive a processar os produtores, mas perdendo.

Michael Ende e seu livro

Mais tarde Ende declarou que ninguém envolvido no filme entendeu coisa alguma que estava em seu livro. Contudo, ainda que o escritor possa lá ter sua cota de razão, o que vemos em tela retrata apenas a metade do livro, o que acabou deixando brecha para uma sequência, que esta sim mexeu bastante no conteúdo original. Houve até um terceiro filme, mas este é melhor nem comentar.

Steven Spielberg ganhou de Petersen o Auryn original

O que pouca gente sabe é que na versão norte-americana, “A História Sem Fim” recebeu uma ajudinha de Steven Spielberg, que encantado com o filme, ajudou Wolfgang Petersen a fazer pequenas edições, tirando cerca de sete minutos do filme à fim de deixa-lo mais ágil para o público estadunidense. Em agradecimento, Petersen deu para Spielberg o “Auryn” original usado no filme, que está guardado numa redoma de vidro no escritório de Steven.

Passados quase quarenta anos de seu lançamento “A História Sem Fim” permanece como um dos filmes de fantasia fantástica mais expressivos de todos os tempos, e que só cai na rotulação do “infantil” devido a necessidade da própria indústria em fazê-lo.

Mas que merece sempre ser revisto de tempos em tempos por aqueles que já o conhecem, assim como descoberto por novas gerações. Não pelo viés raso do saudosismo conveniente, mas por que permanece nos dias de hoje mais atual do que nunca!



 

 

Patrulha Estelar e suas vozes inesquecíveis!

  Fazendo uma rápida pesquisa na web, não é assim tão difícil encontrar alguns artigos que citam os dubladores que nos anos 1980 na extinta ...