terça-feira, 19 de abril de 2022

Ary Fernandes - O Pai dos Seriados Brasileiros

 

Hoje com todos os recursos digitais disponíveis, joint ventures com produtoras estrangeiras e até com um público considerável, capaz de assimilar com mais facilidade o conteúdo de seriados de ação e aventura para a tela pequena, vemos surgir séries, em geral feitas para o streaming, que procuram recriar ao nosso modo aquilo que a maioria de nós cresceu vendo apenas os norte-americanos e os japoneses com seus tokusatsus fazerem.

Mas houve um homem, que numa época em que se faziam passeatas contra guitarra elétrica em Terra Brasilis, acreditou num sonho. Criar heróis genuinamente brasileiros.

Seu nome? Ary Fernandes!

Nascido em 31 de março de 1931, Ary iniciou sua carreira como locutor de rádio em 1949. Tendo em 1952 sua primeira experiência cinematográfica como assistente no filme “O Canto do Mar”.

E se tornou um dos pioneiros de nossa tevê, quando da chegada da “novidade” em nossas terras. Contudo, ao contrário dos demais colegas contemporâneos que pensavam na teledramaturgia da época apenas como veículo para adaptações de romances de escritores como Machado de Assis ou Joaquim Manuel de Macedo, o jovem Ary, que cresceu assistindo as matinês de cinema e seus seriados, sempre teve em mente que precisávamos ter nossos próprios heróis.

E com esta ideia em mente, em 1958 iniciou o projeto que viria a mudar a cara da tevê brasileira, O Vigilante Rodoviário.

Contando as aventuras de inspetor Carlos (Carlos Miranda) e seu fiel companheiro o cão Lobo pelas estradas do Brasil.

Contudo, se lá no exterior, convencer anunciantes e produtores de que uma ideia é boa para se investida já era complicado, imagina em Terra Brasilis desta época. Sendo assim, apenas em 1959, foi produzido o episódio piloto, chamado “O Roubo do Diamante Gran Mongol”, tendo sua estreia ocorrido pela extinta Tevê Tupi só em março de 1961 quando estavam já prontos cerca de 10 episódios.

Devido as várias dificuldades técnicas da época, até para se duplicar um filme em película, o seriado era exibido as quartas-feiras em São Paulo, e mal terminava já viajava de carro para o Rio de Janeiro onde era exibido na quinta-feira.   

Mas isto não impediu que as aventuras do inspetor Carlos e Lobo causassem uma verdadeira revolução em nosso país, chegando a ter índices de audiência que dependendo da região do país variavam de 90% até 100%!

Ou seja, Vigilante Rodoviário era uma final de Copa do Mundo toda semana!

Com o sucesso e vislumbrando alcançar um público maior, já que ainda era bem baixo o número de aparelhos de televisão em nosso país na época, a série chegou aos cinemas em 1962 com o longa-metragem “O Vigilante Contra o Crime” e dois anos depois com “O Vigilante em Missão Secreta”.

O inspetor Carlos e Lobo - Dupla inseparável

Um feito que só Arquivo X foi capaz de repetir nos anos 1990, já que o longa-metragem do Batman derivado do seriado de 1966 pode até ter ido parar nos cinemas, mas foi pensado originalmente como um telefilme.

Mostrando que a aposta de Ary Fernandes estava mais que acertada ao criar seu personagem pensando na simpatia que a Polícia Rodoviária possuía com as pessoas da época.

Mas nenhuma escolha de Fernandes foi tão certeira quanto Lobo!

O SRD (Sem Raça Definida), filho de um pastor alemão com uma SRD, não apenas encantava a todos, como se tornou um caso único na história do audiovisual mundial.

Lobo - A grande estrela do seriado

Nascido em 1955, Lobo tinha como tutor um soldado da extinta Guarda Pública, e quando iniciou seus trabalhos na série até já era conhecido no meio publicitário por alguns trabalhos, mas o que Ary Fernandes nem imaginava era que seu ator canino se tratava de um indivíduo muito acima dos demais.

Pois o que poucos sabiam era que Lobo já acompanhava seu tutor nas rondas diárias pelo bairro, isto sem nenhum tipo de treinamento específico para tal, já estando mais que acostumado com aquele tipo de ação, o que fazia com que as filmagens dos episódios em geral ocorressem sem o menor tipo de contratempo.

Só para se ter uma ligeira ideia, no clássico seriado “Rin Tin Tin”, eram usados nada menos que dezoito cães diferentes para realizar cada ação que se via na tela. Mas Lobo fazia tudo sozinho, sem ter passado por nenhum tipo de adestramento específico.

Vou até me permitir um momento de empolgação neste texto, e afirmar que Lobo é até hoje o melhor representante da nossa miscigenação brazuca.

O único incidente sério que ocorreu durante filmagens, foi quando Lobo acidentalmente sofreu uma queimadura em sua cauda, ao encostá-la no cano de descarga da moto Harley&Davison do inspetor Carlos, obrigando a produção a trocar a moto pelo famoso Simca Chambord.

Carlos Miranda após se aposentar da Polícia Rodoviária

A identificação de Carlos Miranda com o personagem que vivia foi tanta, que o ator ao fim do seriado acabou ingressando de fato na Polícia Rodoviária de São Paulo, onde atuou em vários cargos, mas que graças a fama e prestigio dado pelo seriado, se tornou porta-voz e relações públicas da corporação.

Vigilante Rodoviário teve um total de três temporadas e 38 episódios, cujo o último foi transmitido originalmente em maio de 1967. um sucesso tamanho que até nos quadrinhos foi parar.

Mas Ary Fernandes queria mais, e em março de 1968 o público brasileiro era apresentado ao esquadrão “Águias de Fogo”.

Com uma abertura que para a época devia ser algo impressionante, mostrando os poderosos caças ingleses Gloster Meteor que a FAB operava naqueles tempos, Águias de Fogo apresentava as aventuras de um time de aviadores da nossa força aérea, formado pelo Major Ricardo (Dirceu Conte), o sargento Fritz (Edson Pereira) que apesar de nome era afrodescendente - ao que parece Ary Fernandes gostava de provocar os nazis - especialista em comunicações, o Aspirante Fábio (Roberto Bolant), piloto novato que costumava ser o “alívio cômico”, e Capitão César (interpretado pelo próprio Ary Fernandes), em missões que na maioria das vezes tratavam de resgates, mas que por vezes remetiam a filmes de espionagem.

Como no episódio “O Invento” no qual um cientista que havia perdido seu filho aviador na guerra (2ª Guerra para ser mais preciso, o seriado é de 1968), desenvolve um novo tipo de combustível que mesmo em grandes quantidades não se incendiava. E obvio que a invenção desperta o interesse de nações estrangeiras e de espertalhões que pretendem fazer fortuna vendendo a fórmula.

O esquadrão Águias de Fogo

Mesmo com o apoio oficial, Águias de Fogo era um projeto caro, e sua produção foi encerrada com apenas 26 episódios produzidos, mas não sem antes quase conseguir um feito histórico.

Pois hoje até podemos estar acostumados com crossovers entre seriados diferentes, especialmente quando fazem parte de uma única franquia como é o caso dos diversos CSI. Mas na época isto era algo que não acontecia, tendo historicamente seu primeiro caso ocorrido na série do Batman protagonizada por Adam West, no icônico episódio que promoveu o encontro entre Batman e Robin com Besouro Verde e Kato.

Mas aqui no Brasil, Ary Fernandes também brindou seu público com um destes encontros. No episódio “Imprevisto”, uma menina chamada Ritinha, que morava numa comunidade extremamente isolada no interior do Brasil (e não esqueça, é o Brasil da década de 1960, aqui isolado é isolado mesmo!) passa mal de repente. A mãe da menina a leva até a cidade mais próxima, mas o médico do local estava em viagem, e somente a união de nossos heróis poderia salvá-la.

Sim! O esquadrão Águias de Fogo une forças ao inspetor Carlos, o vigilante rodoviário, e seu fiel amigo Lobo. E enquanto os aviadores vão buscar a menina, os policiais (sim, usei plural, pois Lobo também entra na conta) vão buscar o médico.

Os Águias de Fogo e o Inspetor Carlos unem forças no crossover "Imprevisto".

Tais seriados hoje, aos olhos dos mais jovens, mesmo os acostumados com os pueris (em sua maioria) filmes de super-heróis feitos em frenéticas linhas de montagem, podem parecer tolos, mas em sua época foram absolutamente revolucionários, “colocando no bolso” diversas produções estadunidenses que a bem da verdade até nem fazem mais sentido no mundo em que vivemos hoje.

Em 1978 como parte de um projeto da extinta (ufa!) Embrafilme, Ary Fernandes tentou criar uma nova versão para Vigilante Rodoviário. Mas tem coisas que não dá para fazer duas vezes, e seja por dificuldades da própria Embrafilme, ou o fato de agora terem de utilizar nada menos que cinco cães dos quadros da Polícia Militar paulista, já que Lobo faleceu em 1971, a coisa toda não passou do episódio piloto.

Em 2009, Ary Fernandes selou um acordo com um canal por assinatura para a recuperação dos originais de suas criações. Sendo que do “Vigilante Rodoviário” 35 dos 38 episódios originais conseguiram ser recuperados, e de “Águias de Fogo” 22 dos 26 originais foram salvos.

Com passar dos anos, além de escritor, produtor, diretor, Fernandes “emprestou” seu dom de ator para algumas dublagens lendárias.

Como o Rocko de “A Vida Moderna de Rocko”.

A primeira voz do detetive Bowman de Superman TAS.

E até foi Albion de Cefeu, o mestre de Hyoga de Cisne em Cavaleiros do Zodíaco.

Então, toda vez que se lembrar que os Estados Unidos tiveram Irwin Allen, ou o Japão teve Eiji Tsuburaya, não se esqueça que nós aqui também tivemos nosso pioneiro, que contra todas as expectativas, fez do sonho realidade, e que com a coragem digna de seus personagens fez história encantando tantos por tanto tempo.

 

 

 

quinta-feira, 7 de abril de 2022

10 Músicos e Cantores que Resolveram Atuar!

 

Músicos e cantores se aventurando em maior ou menor grau na área da atuação, não são exatamente uma novidade, e em geral isto só é feito com o propósito de alavancar um dos lados da carreira por meio de contratos que visam exclusivamente o lucro conexo.

Contudo, existem exceções, que sejam pela mais pura brincadeira da experiência fazendo uma pequena aparição ou por uma vontade legítima de se aventurar em outra forma de arte, apareceram em filmes e séries de tevê, e é sobre algumas destas exceções que esta lista vai tratar, então vamos lá...

10 Músicos e cantores que se resolveram atuar!

 

10: Zakk Wylde (Ozzy Osbourne / Black Label Society)

O guitarrista fez uma ponta na quarta temporada do seriado “Californication” como um vendedor de uma loja de instrumentos musicais.



09: Jon Bon Jovi

O vocalista coleciona algumas aparições, mas aqui cito sua aparição no filme “A Corrente do Bem” no qual faz o marido abusivo da personagem de Helen Hunt.



08: Jeff Healey

O guitarrista canadense de blues fez um pequeno papel no filme “Matador de Aluguel” ao lado de Patrick Swayze.



07: Corey Glover (Living Colour)

Antes de ficar famoso como cantor do Living Colour, Corey Glover pode ser visto num pequeno papel em “Platoon” de Oliver Stone.



06: Keith Richards (Rolling Stones)

Um dos mais antigos seres sobre a terra, junto com as cecoias e as oliveiras de Israel (risos), o guitarrista participou da franquia “Piratas do Caribe” como o pai do protagonista Jack Sparrow (Johnny Depp)



05: Mick Jagger (Rolling Stones)

E por falar nas “pedras rolantes”, Mick Jagger aparece aqui nesta lista pelo seu papel no filme “FreeJack - Os Imortais”. Ainda que não seja sua primeira aventura cinematográfica, já que possui inclusive um capítulo constrangedor em terras tupiniquins, quando o vocalista produziu e protagonizou o inexplicável “She’s the Boss”, um filme para lá de louco no qual Jagger é sequestrado após uma noitada, e vai parar numa fazenda onde é feito de escravo por uma fazendeira vivida por Norma Bengell.



04: Tina Tuner

Ela não podia faltar! Anna Mae Bullock, nossa querida Tina Tuner, que no auge da fama, não recusou a proposta de protagonizar “Mad Max  -  Além da Cúpula do Trovão” ao lado de Mel Gibson.



03: Alice Cooper

O senhor Vincent Furnier, que tão bem conhecemos como Alice Cooper, em 1984 produziu e protagonizou um filme que é absolutamente a sua cara. O terror trash B, “Matilha da Maldição”.



02: Roger Daltrey (The Who)

Ainda que não seja sua estreia como ator, o cantor do The Who está neste segundo lugar devido sua surpreendente atuação na sétima temporada de CSI, vivendo um psicopata chamado Mickey Dunn, que assume diversas identidades diferentes, tanto para fugir da polícia quanto para fazer novas vítimas.



01: David Bowie

O cantor inglês possui uma extensa lista de papéis em sua filmografia, e é com certeza o melhor exemplo de um astro da música que sempre atuou (e bem) por gostar disto, sem precisar do cinema como “muleta” para divulgar sua música. E entre seus diversos papéis marcantes, John Celliers, o oficial inglês preso num campo de concentração nipônico na ilha de Java, talvez seja o mais impactante. Não pela atuação em si, mas por vermos um Bowie vivendo uma “pessoa normal”, e não alguém que se relaciona com vampiros como em “Fome de viver” ou um ser fantástico como em “Labirinto”.



 

quarta-feira, 2 de março de 2022

A Marca do Zorro - 1974 - Nunca a espada dos De La Vega conheceu tamanha distinção!

 

Desde que surgiu em 1919 no romance pulp “A Maldição do Capistrano”, a lenda de Don Diego de La Vega, um jovem de uma família abastada da Califórnia espanhola, que a noite se torna um justiceiro mascarado vestido de preto, se tornou uma das maiores referencias para criação de outros personagens, em especial um certo “morcego”.

Assim como ganhou uma infinidade de versões em outras mídias, e em especial as cinematográficas. Algumas clássicas como a protagonizada por Tyorne Power na assim chamada era de ouro do cinema, e outras nem tanto como várias versões italianas B, C, D...

Sem falar na icônica série produzida pela Disney, protagonizada por Guy Williams, que com certeza é a versão mais festejada e lembrada até hoje.

Mas em 1974, um telefilme resolveu contar mais uma vez a lenda da “raposa”, e o resultado foi algo até então nunca feito e jamais repetido.

O filme abre com nosso querido Don Diego De La Vega (Frank Langella, simplesmente sensacional) ainda na escola militar na Espanha se despedindo dos amigos. E nas duas rápidas cenas que abrem a película duas coisas chamam a atenção.

Don Diego ainda na Espanha

A primeira era que o Zorro já havia atuado lá em terras europeias num passado bem recente. Algo que até então só havia sido usado anteriormente na produção italiana “Zorro e os Três Mosqueteiros” nove anos antes. E junto a esta constatação, já fica nítido que Don Diego era bem avesso a injustiças.

Chegando então de volta a Califórnia, Diego logo se dá conta de que as coisas estavam bem piores do que as cartas de sua família diziam, ao ter contato com ao menos dois camponeses, um deles que teve a língua cortada por ordem do alcaide, cargo que até aquele momento Diego achava ser de seu pai, Don Alejandro (Gilbert Holand).

Capitão Esteban e Don Diego - Contato Imediato do Pior Grau

Então descobre que seu pai tinha sido destituído do cargo, que agora era ocupado pelo nefasto Don Luis Quintero (Robert Midleton) com a ajuda de seu “braço-armado”, o capitão Esteban Montenegro (Ricardo Montalban).

Mas afinal, o que esta versão do Zorro possui de tão especial?

Se formos levar em consideração seu mero título, A Marca do Zorro, não há nada de mais, pois o bojo da estória é exatamente aquele que todos nós conhecemos. Mas numa olhada mais detalhada é possível ver o quanto este filme é diferente.

Para começar é impossível não citar a forma como Frank Langella constrói seu Don Diego. Pois para fazer com que ninguém desconfiasse de que ele era o Zorro, Langella vai além do estereótipo de um “garoto mimado”, pouco preocupado com responsabilidades, incorporando trejeitos extremamente mais delicados, digamos assim, ao personagem, logo que é confrontado num “teste” pelo capitão Esteban.

Aliás, uma brincadeira com bases históricas, já que isto era algo que muito se falava dos filhos de famílias ricas que iam estudar na Europa naquela época, e voltavam com hábitos refinados demais, que suscitavam muitas fofocas.

Outra coisa que chama a atenção, é que este é até hoje o único filme do Zorro no qual podemos de fato sentir o peso do preconceito arraigado na sociedade nas reações dos camponeses que eram humilhados sem nada poder fazer.

Nesta versão de Zorro, nem o padre escapa da opressão.

     E isto fica bem claro na cena em que a esposa do prefeito (Louise Sorel) conversa com Teresa (Anne Archer), sobrinha de Quintero e que se torna de imediato o interesse amoroso de Diego.

Num diálogo absolutamente solto na trama, onde ambas travam um embate de palavras, tendo como estopim o tema casamento, diante de uma frase da esposa do alcaide sobre as diferenças entre Teresa, que tinha em suas veias sangue de fidalgos, e outra moça que era descendente de camponeses, é nítida a sensação de desconforto e humilhação pela qual passa Maria (Inez Perez, espetacular nesta cena), a criada pessoal de Teresa.

Depois é preciso se atentar que a despeito do título, este A Marca do Zorro, ao contrário de seus coirmãos, parece girar sobretudo em torno do próprio Don Diego, e não do personagem título.

 “Adorei fazer isso. Aqui estava uma chance de jogar em três níveis: o jovem cadete na Espanha, o almofadinha Don Diego - e, em sua máscara, Zorro. Eu estava me revivendo como um garotinho sentado no teatro escuro emocionado com Tyrone Power cavalgando pela noite como Zorro” – Frank Langella

Bem, aqui acho que preciso abrir um bom parêntese neste artigo.

Pois como nós sabemos, o Zorro foi com certeza a maior inspiração para a criação do Batman. Só que aqui, nesta produção de 1974, parece que a coisa foi seguida mais à risca do se pode imaginar.

Quando me propus a escrever este artigo, era certo que alguma citação ao “Morcego de Gotham” iria acontecer. Só que ao assistir ao filme após anos, não apenas para refrescar minha memória, como fazer uma resenha o mais isenta possível, acabei me deparando com determinadas situações que fizeram minha mente explodir, e que promovem ligações diretas com a trilogia cinematográfica de Christopher Nolan.

Primeiro, este conceito descrito por Langella, de se “jogar em três níveis diferentes”, o que foi algo que a interpretação de Christian Bale fez a perfeição, melhor que qualquer interprete de Bruce Wayne/Batman.

Mas isto é uma questão semântica a respeito do personagem que não prova nada.... Talvez seja oque que que está lendo possa estar pensando, certo?

Até poderia ser, se não me deparasse com duas pequenas cenas que Nolan praticamente replicou ipsis literis em seus filmes.

A primeira num jantar, no qual obviamente o assunto era o Zorro, e no qual todos à mesa davam suas opiniões sobre o mascarado, tendo na interpretação de Frank Langella, o mesmo tom de deboche e tédio ao falar do Zorro, como Christian Bale fez ao se referir ao Batman em Cavaleiro das Trevas.

Garotos fazem a marca do Zorro numa parede...

E a outra é quando dois garotos, com o que aparenta ser carvão, fazem a marca do Zorro numa parede e fogem ao ser surpreendidos pelo alcaide, numa cena extremamente semelhante a que ocorre em Cavaleiro das Trevas Ressurge.

...assim como a marca do Batman no filme de Nolan

Não estou aqui afirmando taxativamente que Nolan tenha assistido a este filme, mas as semelhanças são demasiadas gritantes para passarem despercebidas de um olhar mais cuidadoso.

Cuidado, entretanto, é algo que parece passar um pouco longe de alguns aspectos técnicos do filme, configurando os poucos pontos negativos seus. Dentre estes, o mais perceptível é a péssima montagem sua em alguns trechos, deixando-o meio que picotado demais, nos fazendo ter a nítida sensação que muito do que poderíamos ver em tela foi cortado para fazer a película caber “na grade de programação”. Não vamos nos esquecer que aqui falamos de uma produção feita para tevê.

O que poderia ter levado a uma certa inconsistência em alguns diálogos.

Não que o próprio criador de Zorro, Johnston MuCulley tenha sido o escritor mais consistente de sua época. Mas ao menos em duas ocasiões, em que o pivô do diálogo era a mãe (Yvone de Carlo) de Don Diego, se percebe uma pequena falta de nexo.

O primeiro momento é quando Diego ao discutir com o pai sobre seu futuro casamento diz que não havia se metido no casamento de Don Alejandro. Lembrando que originalmente nos pulps de MuCulley, Don Alejandro sempre foi retratado como viúvo. Uma fala então que viria de encontro aos textos originais, deixando claro que o patriarca do De La Vega havia se casado de novo.

Mas em outra situação, Don Alejandro reclama com a esposa sobre o filho, soltando a frase: Este foi o filho que me deu!

Isto como se a esposa fosse a progenitora de Diego.

Haveria então mais cenas que explicassem melhor isto?

Tudo bem, eu sei que este pode até ser um detalhe tolo, mas não paro de pensar que tais situações possam ter contribuído para algumas críticas desfavoráveis que a produção recebeu na época de seu lançamento.

Contudo, com muito mais qualidades (algumas até hoje não replicadas), que defeitos, a Marca de Zorro de 1974, é diversão garantida, e sem excessos de “alegorias”, configurando até hoje, na modesta opinião deste escriba, a melhor representação de Zorro.

E faço minhas as palavras de Don Alejandro:

Nunca a espada dos De La Vega conheceu tamanha distinção!



 

 

 

 

 

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Pacificador - O Absurdo Teatro Rock n' Roll de James Gunn

 

Se tem uma coisa que desde seu começo, pelas mais diversas razões nunca chegou a se concretizar foi o assim chamado “Universo Estendido” da DC nos cinemas.

Que com as honrosas exceções do primeiro filme da Mulher Maravilha e do filme do Aquaman, nunca de fato se formatou nos moldes supostamente esperados.

Num festival de momentos que sempre oscilaram entre o absurdo e o vexatório, nos quais por mais de uma vez Lois Lane chama o Superman de Clark na frente de estranhos, ou o próprio Bruce Wayne que nem se importa com o monte de gente a sua volta na vila em que encontra o Aquaman. Ou seja, identidade secreta, segredo, preocupação com a segurança de terceiros virou uma lembrança distante.

Sem falar na morte de Clark Kent, e seu velório de caixão aberto e presença até de Perry White, mas que após da ressureição de Clark, nem é mencionado, como se nada houvesse acontecido.

E nem vou mencionar algumas das mais medíocres versões que alguns dos mais icônicos vilões da história acabaram tendo, senão nem entro no assunto principal deste artigo.

Resumindo, um completo cenário de caos, no qual a dupla Warner e DC começou a atirar para todos os lados, como que admitindo a “festa da goiaba” que este suposto universo se tornou.

Mas eis que em meio a este festival de pirotecnia sem conteúdo, meio mundo se surpreendeu quando foi anunciado que James Gunn, famoso pelos filmes dos “Guardiões da Galáxia” na Marvel Studios, ia vestir a camisa da concorrência para fazer um filme do “Esquadrão Suicida”.

Um filme que ninguém. Mas ninguém mesmo! Sabia se classificava como remake, sequência, ou seja lá o que for, do famigerado filme dirigido por David Ayer em 2016.

Aqui eu preciso abrir um parêntese nesta narrativa para deixar bem claro, límpido e cristalino, que nunca fui admirador do trabalho de James Gunn. E isto não é de hoje. Pois desde seu bizarro (para não dizer horroroso) roteiro para o filme do Scooby Doo, e seu final no mínimo ridículo (para ser minimamente educado) o estilo de Gunn sempre esteve anos luz de qualquer coisa que possa, ao menos na opinião deste escriba ser considerado um lampejo de talento, mas que logicamente sempre encontrou seguidores nestes tempos de “tenho pressa, tanta coisa me interessa, mas nada tanto assim”.

Só que aí de sua forma peculiar pensar, Gunn parece ter visto o cenário a sua frente, e recebendo carta-branca, brindou o mundo com um filme absolutamente tresloucado, cheio de violência gráfica exagerada, que em nenhum momento parece de fato se levar plenamente a sério.

Bastidores de "O Esquadrão Suicida"

Porque a impressão nítida que se tem, é de que James Gunn viu aquele amontoado de erros feitos nos filmes anteriores, e decidiu mergulhar de cabeça na bagunça, assumindo-a, e transformando-a num teatro do absurdo, sabiamente usando para isto personagens de terceiro, quarto ou até quinto escalão da DC Comics, enquanto brinca com o exagero e o visual caricato dos personagens.

E bingo! Funcionou!

E se a coisa funcionou, por que não expandir?

Chegamos então aqui a razão deste texto para o qual precisei tecer todas estas considerações acima. A série do Pacificador!

Lógico que a ideia do seriado já estava na mente de James Gunn bem antes de sua versão de Esquadrão Suicida ganhar a luz do dia, mas é obvio que era preciso esperar a recepção ao longa para que a Warner liberasse a realização do projeto.

Mas como nunca fui admirador do trabalho de Gunn, pouco ou nada me empolguei com ideia. Até que a série estreou e fui nocauteado por uma das aberturas mais desconcertantes e geniais de todos os tempos!

Primeiro pela ideia de colocar todos os personagens da série surgindo fazendo dancinhas ridículas enquanto mantinham expressões de seriedade absoluta. Mas principalmente porque uma das melhores bandas de hard rock surgidas nos anos 2000 estava ali tocando!!!

Não conseguia acreditar que “Do You Wanna Tasted It” do Wig Wam, do álbum “Non Stop Rock n Roll” (2010) tinha sido escolhida para a abertura da série, ao mesmo tempo que ria dos comentários de redes sociais que não faziam ideia que música seria aquela e muito menos quem a tocava.

Mas isto era apenas a ponta de um imenso iceberg. Um bombardeio insano de hard rock, para desespero dos teóricos sabichões da música, no qual Gunn (acho que este sobrenome enfim fez sentido), dispara uma mistura de temas antigos com mais recentes, com nomes como The Poodles, Faster Pussycat, Reckless Love, Firehouse, Hanoi Rocks, a rainha do hard Lita Ford e até Dynazty.

A trilha sonora perfeita para embarcarmos numa verdadeira montanha russa de momentos engraçados, as vezes chocantes e muitas vezes debochados, e até mesmo emotivos, nos quais Gunn - que é o autor da estória e diretor de cinco dos oito episódios - apenas aparenta estar digamos, “sem freio”.

Muitos podem até achar que “Pacificador” seja James Gunn no seu modo mais louco desvairado, fazendo tudo aquilo que sempre quis. E até certo ponto, não estão errados. Só que numa olhada mais cuidadosa, vemos que a coisa toda passa muito longe disto.

Lógico que a premissa básica desta primeira temporada, é uma versão de Gunn para o clássico “Invasores de Corpos”. Qualquer dúvida é só comparar os sons que os “assimilados” de ambas as obras soltam.

James Gunn com seu elenco - Excelente sintonia

Fora uma sequência no primeiro episódio, na qual após ter relações, que de íntimas não tinham nada, já que tanto o Pacificador quanto sua parceira, devem ter sido escutados até em Gotham, se inicia uma contenda entre eles, que remete de imediato a uma sequência do clássico anime “Wicked City” que já foi resenhado aqui.

E isto não é nenhum demérito, muito pelo contrário, pois para cair no atoleiro do “mais do mesmo” seria muito fácil assim. O que para nossa felicidade passa longe!

Mas o que de fato chama a atenção é a forma como o roteiro que muitas vezes parece uma mera sitcon com suas gags, e seu alto e proposital grau de caricatura, consegue costurar as diversas estórias de seus personagens, e não apenas de seu protagonista título, mesmo que sem a necessidade de aprofundamentos que certamente causariam “barrigas” na narrativa. Há até uma escorregada feia numa única cena, onde a mão de Gunn pesou num gore absolutamente desnecessário, e que até o roteiro tenta amenizar depois, mas aí já era. Mas de resto, tudo está incrivelmente bem dosado.

Entendendo-se lógico qual a proposta geral da série e a cabeça de quem a criou.

E isto para um cara, que começou a carreira fazendo vergonha num filme do Scooby Doo e que nunca antes tinha demonstrado maiores talentos além de causar hype tolo, seja em cenas supostamente engraçadinhas, ou gore, para o qual momentos emotivos pareciam mais fakes que o CGI das cenas dos sonhos de “Pantera Negra”, é uma evolução gigantesca!

Fazendo nos importar com personagens que em outras obras não passariam de meras alegorias. Veículos para o ego de diretores que se consideram os reinventores da roda.

Fora referências a outras obras e nomes da cultura pop. A editora original do Pacificador, a Charlton, nos carros de polícia. E até uma rápida homenagem a Richard Donner numa cena que Murn (Chukwudi Iwuji) está assistindo televisão e se vê uma cena de Máquina Mortífera 4.

E não posso de forma alguma deixar de mencionar como John Cena vem surpreendendo, nem tanto como o personagem-título, mas sim como seu alter-ego, Christopher Smith. Não que Cena tenha se tornado da noite para o dia um ator de grande calibre, mas fica nítido um daqueles casos em que ator encontra personagem, numa daquelas conjunções que só ocorrem muito raramente. Mostrando talentos até então impensados, como quando numa cena ele mesmo toca num piano, o clássico “Home Sweet Home” do Motley Crüe.

Ahhh sim! E não poderia de forma alguma não citar Eagly, a águia de estimação do Pacificador, toda feita em CGI, ainda que a ideia original fosse usar uma águia de verdade. Que quando surge, rouba tanto a atenção, que se tivesse mais tempo de tela, talvez pudesse até se pensar numa série só dela. Aliás, uma ideia deveras interessante, para talvez ser desenvolvida no campo da animação.

E agora, ao redigir estas últimas linhas, sem ainda saber o desfecho da “Saga das Borboletas”, só peço que James Gunn, depois de costurar todas esta trama incrível, não nos brinde com mais um final estilo “Scooby Loo era o vilão”, já que possui esta mania estranha de finais ruins, como se estes fossem um deboche final em cima do público.

Pois a maior lição que a série do Pacificador já passou, é a forma como seu realizador ao receber um imenso saco de limões, resolveu fazer caipirinha, e dividi-la com todos nós.



 

Patrulha Estelar e suas vozes inesquecíveis!

  Fazendo uma rápida pesquisa na web, não é assim tão difícil encontrar alguns artigos que citam os dubladores que nos anos 1980 na extinta ...