terça-feira, 16 de junho de 2020

Homem Aranha - A Trilogia (parte 1)


Apesar da espetacular semente plantada pelo Superman de Richard Donner em 1978, os filmes de heróis de quadrinhos, pelas mais diferentes razões, até começo dos anos 2000, pouca relevância possuíam em meio à indústria cinematográfica.
Não que deixassem de acontecer, mas em geral tais produções eram de orçamentos pouco ou nada adequados aos planos que qualquer realizador gostaria de ter, e em geral eram destinados a personagens de segundo escalão, vide os casos de Supergirl, Justiceiro, o juiz Dredd e até de Blade, que logicamente geravam menos riscos aos estúdios caso a película acabasse em fracasso.
E mesmo quando o personagem retratado era do chamado “primeiro time”, o desdém dos produtores pela mitologia e preservação do cerne era tão grande que permitiam dicotomias insanas como o teatro gótico/infantil dos filmes do Batman de Tim Burton.


Porém, em 2002, sob o comando do diretor Sam Raimi, um novo capítulo começava a ser escrito, e chegava aos cinemas “Homem Aranha”.
Tudo bem, eu sei que dois anos antes havia acontecido o filme dos XMen, que pode ser considerado uma espécie de “ponta-pé-inicial” desta nova era, e até o já citado filme de Blade e sua trilogia, contribuíram para chegar neste citado momento. Mas em ambos os casos, seja porque não tinham, ou porque o roteiro apressado não explorou, não se consegue enxergar aquele viés de humanização que faz mesmo o público que não é de quadrinhos se importarem com o personagem.
E que personagem seria melhor para fazer isto que a mais perfeita encarnação do perdedor, o “Charlie Brown” dos super-heróis, o “Amigão da Vizinhança”, o Homem-Aranha?!


Sim, perdedor. E digo isto, sem um pingo de remorso e até uma ponta de satisfação, pois no fim das contas, a despeito da visão míope de parte da audiência destes filmes, o herói em síntese é um grande perdedor, aquele que destrói a vida pessoal para defender aquilo que acredita, mesmo que durante sua jornada se questione da validade de tudo aquilo.


Mas como o Homem-Aranha de Sam Raimi se tornou algo tão relevante?
Bem simples, seguindo a cartilha escrita por Richard Donner lá em 1978. Duvida? Tudo bem, então, vamos lá.
Assim como na obra de Donner, aqui o roteiro não tem a menor pressa em mostrar o personagem título na sua forma e visual heroicos, se preocupando antes de tudo em contar a história de Peter Parker, seus problemas (e bota problemas nisto), e lógico, sua paixão não correspondida pela vizinha Mary Jane. Pois antes de fazer o público se importar com o cara mascarado e de colam colorido, o mais importante era fazer as pessoas se importarem com quem de fato poderiam se identificar, seja na timidez, nos problemas do cotidiano e até para pagar as contas.
E também a escolha do amor de Peter por Mary Jane como fio condutor da trama, que assim como no Superman de Donner, e o amor de Clark por Lois, não é correspondido. Algo que, aliás, a própria narração de Peter no começo do filme já deixa mais que claro.

A homenagem explícita de Sam Raimi...

E se você que está lendo ainda duvida do respeito pela obra de Richard Donner, lembro aqui da cena em que Peter corre por um beco, e abre a camisa mostrando o uniforme de herói por baixo da roupa, numa referência e reverência explícita ao Superman de 1978.

... ao Superman de Richard Donner



Tendo esta base pronta Sam Raimi partiu para a produção propriamente dita, e aqui estão alguns erros, alguns acertos, e alguns erros que deram certo. Como assim?
No plano original era para que Peter usasse os conhecidos lançadores de teia criados por ele mesmo. Contudo, não sei de quem ali foi a ideia, optaram por teias orgânicas, geradas pelo próprio corpo do herói. Não vou entrar aqui em minúcias biológicas, pois não é o foco deste blog, mas aqui se iniciou aquele que é o maior “calcanhar de Aquiles” desta trilogia cheia de méritos, que foi não explorar a inteligência de Parker, um dos personagens, senão o personagem, mais inteligente da Marvel.
Contudo, nem todas as mudanças nas ideias primárias para a película foram assim tão desastrosas.
Um amigo meu, costuma dizer que bons diretores de filmes de terror, dão bons diretores de filmes de super-heróis. E esta máxima parece se confirmar mais uma vez aqui, já que Raimi se notabilizou pelos filmes da franquia “Uma Noite Alucinante” (Evil Dead no original), e como não poderia deixar de ser, tentou imprimir tal marca ao filme, projetando com sua equipe uma máscara para o Duende Verde.

A primeira versão do Duende Verde

Entretanto tal caracterização acabou sendo considerada assustadora demais para um filme que se pretendia conversar com um público bem jovem, e a ideia de Sam Raimi foi descartada. Sendo substituída pela armadura que conhecemos e sua máscara/capacete.


E qual seria a importância disto?
Um precedente importante foi aberto aqui, pois a despeito das deploráveis opiniões dos puristas fãs de quadrinhos que se consideram os “deuses da razão” e adoram soltar bravatas vazias em grupos de redes sociais, com a aceitação desta versão mais “verossímil” do vilão (eu sei que deveria colocar mais aspas aqui, mas não dá – risos), e bem de acordo com oque o roteiro nos mostra, ficou provado que a caracterização de um personagem de quadrinhos ao ser transposto para o cinema live action, uma mídia tão diferente de sua original, não precisaria ser tão desesperadamente idêntica.

Sam Raimi orientando seus atores durante as filmagens

Algo que a produção de “XMen - O Filme” poderia ter pensado dois anos antes, nos poupando de exageros visuais como o do Dente de Sabre.
E que aqui numa consideração absolutamente pessoal afirmo, foi determinante para algumas escolhas visuais que Christopher Nolan tomou em sua trilogia do Batman, assim como a mudança na origem de alguns personagens.
E se você que está lendo neste momento, possa estar ensaiando uma leve risada, preciso lembrar da homenagem que Nolan presta a trilogia de Raimi, colocando um cartaz de Homem-Aranha 3 em “Cavaleiro das Trevas”.

A referência a Homem Aranha 3 em Batman O Cavaleiro das Trevas

Mais um ponto em que o Aranha de Raimi seguiu passo a passo a cartilha do Superman de Donner foi a escolha de seu elenco.


Começando por escolher o desconhecido Tobey Maguire para viver o protagonista-título e seu alterego, fora o restante do que seria o núcleo jovem que tinha quase estreante James Franco como Harry Osborn.


E cujo rosto mais conhecido era de Kristen Dunst, a eterna crush do herói, que era lembrada por sua participação ainda criança em “Entrevista com o Vampiro”.


Mas como aqui estamos falando de um trabalho de fato autoral,  lógico que Sam Raimi não abriria mão de colocar os amigos no filme, uma característica marcante do diretor.

Ted Raimi

E obviamente lá estava Ted Raimi, seu o irmão mais novo, e eterno Joxer de “Xena A Princesa Guerreira”, como Hoffman, assessor de J.J. Jameson.

Lucy Lawless

E por falar na princesa guerreira, como Sam Raimi foi um dos produtores do seriado, temos Lucy Lawless fazendo uma ponta como uma punk.



Bruce Campbell

E como era de se esperar temos Bruce Campbell, o Ash de “Evil Dead” como o apresentador do torneio de luta livre no qual Peter se envolve. Campbell que, aliás, aparece nos dois filmes posteriores também, como gerente do teatro onde Mary Jane se apresentava, e no terceiro como maitre do restaurante no qual Peter vai jantar com sua amada.
Há uma teoria maluca que circula na web de que Campbell possivelmente viria a ser o vilão Mysterio no quarto filme da franquia, isto devido uma entrevista que o ator deu em 2009.

Dylan Baker era o professor Connors

Mas pessoalmente é algo que este escriba aqui nunca levou em consideração, pois sempre considerei bem mais plausível que se o quarto filme viesse a ganhar a luz do dia este vilão seria o Lagarto, já que o professor Connors (Dylan Baker) que nós sabemos se transforma no vilão, está lá presente na trilogia, fora que o personagem acabou se tornando o antagonista do reboot protagonizado por Andrew Garfield.


Ainda seguindo a “cartilha de Donner”, Raimi se calçou de experientes atores para papéis chave, como Williem Dafoe para ser Norman Osborn/Duende Verde.


E J.K Simons para J.Jonah Jameson numa representação absolutamente impagável do editor-chefe do jornal “Clarim Diário”. Tão perfeita que quase vinte anos depois fez Simons retornar (ainda que de forma breve) ao papel em “Homem Aranha Longe de Casa”.


Mas aqui eu preciso salientar a magnífica atuação de Rosemary Harris! A veterana atriz inglesa que deu vida com incrível sutileza a tia May, e que por mais de uma vez rouba a cena para si, em especial quando sua personagem demonstra que de fato era capaz de qualquer sacrifício pelo sobrinho.


Em situações de relações interpessoais que só mesmo nosso querido “cabeça de teia”, e talvez os XMen, consigam replicar na Marvel, numa característica que em geral a concorrente DC Comics sempre foi mais feliz em explorar, ou seja, seus núcleos de “pessoas normais” e a base que geram para os protagonistas de suas HQs.


Coisa que fã padrão de quadrinhos em geral se irrita, pois tudo que quer é a exacerbação unilateral daquela característica que para ele define isoladamente o personagem, e da mesma forma que o Batman sofre na DC sendo visto apenas como um mero espancador de criminosos sombrio, aqui o “Amigão da Vizinhança” pena por causa de seu bom humor.
Como se a despeito de toda sua trajetória sofrida, o personagem tivesse que agir como uma stand up comedy ambulante, ou ainda pior, que sua personalidade livre, que só a máscara do Aranha consegue lhe dar, tivesse que ser característica presente em tempo integral.


Mas ao que parece Sam Raimi seguiu o conselho do Tio Ben, de que com grandes poderes vêm grandes responsabilidades, e manteve seu rumo, referenciando sem pudores outras obras de quadrinhos e até brincando (tirando sarro para ser mais específico) do que parte dos fãs bradava ser o correto.


Mas isto vou deixar para segunda parte desta incrível trilogia, seu segundo e marcante filme com uma das melhores cenas de filmes de super-heróis de todos os tempos, e seu tão mal falado terceiro capítulo, mas que ainda sim, possui algumas sacadas geniais.


Então... Até lá!




terça-feira, 12 de maio de 2020

Desmitificando Watchmen

O que faz uma obra se tornar um clássico?
Apenas seus atributos que fazem sua fama num processo natural de “boca a boca” entre seu público?
Ou uma refinada conjunção de fatores, que por vezes só ocorrem para atender a interesses que muitas vezes passam longe de qualquer viés que possa ser considerado artístico?
E o quanto que o público alvo de tal obra é capaz de conseguir interpretá-la corretamente e ainda construir uma opinião de fato pessoal baseada em sua própria perspectiva?
Caso você que esteja lendo tenha estranhado a introdução deste texto, peço que antes de prosseguir em sua leitura faça estas perguntas a si mesmo. Não é preciso tentar buscar alguma resposta agora. Apenas levantei tais questionamentos, pois este com certeza é um dos textos mais fáceis e ao mesmo tempo mais complicados que me propus a fazer.


Pois como já no título está descrito, este artigo se propõe a desmistificar a icônica obra dos quadrinhos escrita pelo “bruxo” Allan Moore e desenhada de forma primária por Dave Gibbons que há anos todos os ditos veículos especializados em cultura pop ficam repetindo se tratar de uma obra-prima.
Rótulo este que pessoalmente sempre contestei por uma série de motivos, que infelizmente de um modo meio didático (coisa que detesto fazer) pretendo explicar, sobre o qual há um culto totalmente descerebrado, norteado por “verdades absolutas” tolas e convenientes que por si só já entram em contradição com a própria estória. Já que muitas (para não dizer todas) as características de Watchmen já tinham sido apresentadas em outras obras antes.
A primeira, mais obvia, factual e inconteste é o seu formato, mais conhecido como “maxi-serie”. Uma estória fechada que corre ao longo de algumas edições, em geral doze. Algo que como sabemos começou lá em 1982 com “Camelot 3000”.
Em condições digamos “normais” e saudáveis de debate isto nem deveria ser preciso citar, mas infelizmente quando se trata de Watchmen e seu séquito de seguidores, é algo que precisa ser citado sim. Até porque existem páginas na web que insistem em divulgar tal informação equivocada como sendo correta, tratando a HQ de Moore como desbravadora do formato.

Camelot 3000 - A verdadeira primeira maxi-série

E por falar em “Camelot 3000”, outra bobagem que os seguidores de Watchmen tentam argumentar é que a clássica HQ de Mike W Barr, e magistralmente desenhada por Brian Bolland não poderia ser considerada uma “HQ de Super Herói” e por isto não deveria ser levada em consideração.
Mas vamos parar por um momento para fazermos um pequeno exercício de memória. Vamos pegar o termo “super-herói” dentro de sua forma mais circunspecta.
Quantos seres incríveis existem em Watchmen? Pelo que eu me lembre o único personagem que se enquadra nesta categoria é o Dr.Manhathan, sendo todos os demais “heróis” da saga pessoas comuns ainda que com certas habilidades que a maioria as pessoas não tem, mas ainda sim, pessoas normais como eu ou você que está lendo.
Ok. Eu sei que neste exato momento se você é um fã (nático) por Watchmen deve estar com a resposta (em forma de pergunta) na ponta da língua, exigindo a contraparte em “Camelot 3000” certo?
E a resposta é: Arthur Pendragon.
Sim! Nosso bom rei, que retornou dos mortos milhares de anos depois. Ou vai me dizer que voltar dos mortos é pouca coisa? E nem vou entrar no mérito do mago Merlin aqui, ou de Percival que teve sua genética alterada.
Explicada esta parte, é preciso entender oque Allan Moore queria mostrar ao escrever Watchmen. E vamos ser sinceros, já se passou tempo suficiente para todos concordarmos que o principal plot da HQ é questionar a validade de heróis e principalmente a validade de seu culto, apenas usando do pano de fundo (como tantas outras obras da época) a questão de um eminente conflito nuclear.
E para isto Moore mostra seus personagens como seres absurdamente falhos, com erros de julgamento e até egoístas em alguns momentos.

Heróis de comportamento falho já haviam sido mostrados bem antes "Watchmen"...

Mas espera um pouco! Isto já tinha sido mostrado bem antes também. Na clássica saga escrita por Dennis O’Neil e soberbamente desenhada por Neal Adams que uniu Lanterna Verde e Arqueiro Verde ainda no comecinho dos anos 1970.
E isto pode ser muito bem exemplificado na icônica cena na qual Oliver Queen descobre que seu protegido Roy Harper se tornou um viciado em heroína, e o verniz de progressista e tolerante de Queen cai por terra.

...como na saga Lanterna e Arqueiro Verde

Tudo bem. Eu sei que neste momento alguém deve estar bradando e rangendo os dentes que Watchmen é um “capítulo” diferente na história dos quadrinhos, pois supostamente foi a primeira HQ a receber o rótulo de literatura, principalmente pelo suposto “teor adulto”.
Bem, acredito que este “teor adulto” já foi bem explicado nos parágrafos acima, não é? Mas ainda sobra a questão da literatura.

"A Torre do Elefante" - Um dos contos de Robert Howard transposto para os quadrinhos

Poderia até ficar citando exemplos de obras que saíram da literatura convencional e foram transpostas para os quadrinhos, como alguns contos de Robert E. Howard.
Mas para explicar este factoide melhor vou dividir as minhas considerações em duas partes: “Quem disse” e “Quem acreditou em quem disse”.
Na parte do “Quem disse” precisamos entender a época em que Watchmen, assim como outras HQ’s como “Cavaleiro das Trevas” ou “A Queda de Murdock” foram lançadas.


Em meados dos anos 1980 a mídia sobre cultura pop começava a querer aprender a andar com as próprias pernas, mas assim como qualquer bebê que tenta o mesmo, mais tropeçava e caía que realmente andava. E óbvio que como uma criança pequena, estava sempre tutelada por um adulto por perto, neste caso um veículo de comunicação maior. Mesmo se levarmos em consideração veículos de comunicação que supostamente seriam ligados à cultura pop como algumas revistas com nome de bandas de rock por exemplo.
Isto quando os ditos “especialistas” (argh!) no assunto não estavam atrelados aos famigerados “segundos cadernos” dos tabloides matutinos.
E não pensem que tais “jornalistas” eram pessoas experientes na arte da observação não. Salvo honrosas exceções, estas figuras que infelizmente (principalmente em países subdesenvolvidos culturalmente) tiveram uma esfera de influência razoável pelo menos até a segunda metade da década de 90, sempre se mostraram formas de vida ávidas em evoluir rápido em seu meio.
Para os quais o mais importante era se promover fazendo parecer para os menos experientes que aquilo que eles resenhavam naquele exato momento era a maior novidade do planeta, quase a reinvenção da roda.
Mesmo que soubessem que não era nada daquilo.


Aí entramos na segunda parte, “Quem acreditou em quem disse”.
E para descrever isto preciso contar um fato real.
Na década de 1990 ainda tinha por hábito ler algumas resenhas de música que vinham no segundo caderno de um conhecido tabloide (ainda que costumasse a não concordar com nada ali). E certa vez li uma resenha do álbum “Cross Purposes” do Black Sabbath. Naquele mesmo dia, só que na parte da tarde, estava eu numa loja de discos, e ao meu lado dois sujeitos de pouca idade que conversavam.
E um destes cidadãos descreveu o mesmo álbum do Black Sabbath para o amigo, usando ipis literis, as mesmas palavras do artigo postado no tabloide naquela manhã, como se as palavras fossem dele!
Um episódio real, que na época me abriu os olhos para a verdade do público médio de qualquer forma de arte, que se considera muito diferente por ler determinada obra, ou ouvir determinada música.


Acredito que com isto tenha conseguido explicar bem como o público alvo daqueles que promoveram a aura que envolve “Watchmen” se comporta. E isto também serve para explicar como o próprio Allan Moore e outros escritores em algumas obras, sabendo como funcionam as cabeças de seu público alvo, inserem elementos para criar oque hoje chamamos de hype.
Aspectos que trabalhos seminais como a “Camelot 3000” e a saga “Lanterna e Arqueiro” já citadas, ou até “Esquadrão Atari”, cada um com sua devida parcela de responsabilidade já tinham mostrado, mas que não foram esfregados na cara do leitor como uma torta em um filme pastelão.


Watchmen acaba por ser uma mistura de muitas outras situações que vieram antes. Com a única diferença que Moore, seja na forma de apelações baratas representadas no Dr.Manhathan e uma pseudofilosofia preguiçosa, ou em frases de efeito de Ozzymandias, um dos antagonistas mais precariamente construídos da história, sabe exatamente quais cordões puxar e destacar.
Isto torna Watchmen uma obra ruim? Não! De forma alguma.
Isto seria como se eu dissesse que Mogo, o Lanterna Verde que é um planeta, outra criação de Moore, fosse ruim, só porque o conceito de um planeta como um único ser vivo consciente já tivesse sido mostrado, por exemplo, na animação “Patrulha Estelar 3 - A Crise do Sol”.

Em "Monstro do Pântano", Moore apresenta um texto bem mais maduro que em "Watchmen"

Apenas que todos os pontos que são exacerbadamente bradados pelos “entendidos” na matéria que tornariam Watchmen um suposto “ponto de virada” já haviam sido abordados anteriormente, e sobre os quais o próprio Alan Moore foi bem mais feliz em escrever em outras obras como “Monstro do Pântano”, só para citar um exemplo.


E que “Watchmen” mesmo com suas inegáveis boas características é acima de tudo obra do momento em que foi lançada, a forma como foi promovida e a sagacidade de seu criador em entender como funciona a mente de quem queria atingir, mas que pouco arrisca de fato, por vezes se escorando em cenas que beiram o gore e um glossário recheado de xingamentos para se fazer parecer de transgressora.
E que se contém alguma característica de fato original, foi ter contribuído para o bizarro fenômeno da gourmetização dos quadrinhos.



terça-feira, 14 de abril de 2020

Patrulha Estelar – Space Battleship Yamato 2202


Com a boa aceitação da nova versão da Patrulha Estelar, apesar de nem todas as mudanças em relação à obra original terem sido assim tão felizes, era obvio que seus realizadores não perderiam muito tempo.
E em 25 de fevereiro de 2017 chegava aos cinemas nipônicos o primeiro dos sete longas metragens que tinham como pretensão recontar a saga do que tornou Patrulha Estelar um ícone da cultura pop mundial.
Space Battleship Yamato 2202!


E se resenhar Yamato 2199 já não foi uma tarefa das mais fáceis, resenhar a nova versão para a saga do “O Cometa Império” é com certeza mais difícil ainda.
O que em tese não seria para ser, já que aqui ao contrário de 2199, que ainda guardava alguma similitude com a saga original de “Busca Por Iscandar”, pouca coisa sobrou de “O Cometa Império” que conhecemos, se tornando quase que uma “obra original”.


O porquê disto?
Bem, primeiro vamos à estória.
Depois da guerra de anos, terráqueos e gamilons passaram a coexistir em paz cooperando entre si.


Porém, esta paz só existia mesmo entre os dois povos.
Pois logo de cara, somos bombardeados pela guerra que já estava sendo travada entre os gatlantis , o nome criado para o povo do Cometa Império e que aqui se reproduz por clonagem, e as forças unidas da Terra e Gamilon.
À primeira vista, assim como algumas tramas de 2199, isto parece algo incrível, até porque a guerra entra gamilons e gatlantis já tinha sido mostrada de forma rápida na primeira saga, demonstrando certo grau de planejamento.


Contudo, oque se vê aqui é mais uma vez a tentativa dos realizadores desta nova Patrulha Estelar em manter uma relação de proximidade com uma parcela mais nova do público, desconsiderando aquilo que de fato tornou a saga do Yamato algo diferenciado.
Pois todo clima de mistério que envolvia aquele novo inimigo desaparece aqui. Toda a trama de como o Cometa Império cria o caos no planeta cortando o suprimento de energia aqui só surge num lampejo lá no final da série.


Mas calma. Isto é só o começo de uma saga que prima por dois pontos básicos, o exagero e a filosofia forçada. E que de quebra ainda resolveu criar um amálgama entre as duas versões de “O Cometa Império”, a do longa-metragem “Adeus Yamato” e a segunda série de tevê que fez o retcon da estória.
Aqui no blog já resenhei algumas obras que pela quantidade de detalhes que cercam sua produção ou curiosidades, me deram bastante trabalho para concluir o texto sem cair para o didatismo que sempre procuro evitar, mas confesso que no caso de “Yamato 2202” esta tarefa se complica e muito devido ao verdadeiro “sarapatel de caroço” que fizeram com o roteiro.


E principalmente por não conseguir saber ao certo em alguns casos se as decisões de roteiro tomadas de fato faziam parte de um plano traçado ou em alguns casos foram apenas tentativas de consertar os erros cometidos em “2199”.
No que diz respeito aos protagonistas pouca coisa mudou em relação à série anterior.


Como no caso de Derek Wildstar/Sussumu Kodai que permanece sendo apenas um oficial, não assumindo o comando do Yamato que acaba indo parar mesmo nas mãos de Gideon/Hijikata, assim que este é resgatado junto com os Fuzileiros Espaciais, mas que pelo, menos não mais está tutelando Lola/Yuki.


Oque não significa que a namorada de Derek tenha deixado de ser nesta nova versão, a forma de vida mais sem sentido do cosmos.
E a Andrômeda? Esta acaba nas mãos de Yamanani. Sim ele mesmo, que na saga original tinha assumido o comando do Yamato no longa-metragem “Para Sempre Yamato”, e que aqui protagoniza um dos pontos mais baixos desta nova versão.




Na série de tevê clássica do “Cometa Império” um dos momentos que ficaram mais marcados na memória de cada admirador da saga foi o embate, sem um único disparo entre o Yamato e a Andrômeda, e seus capitães. Numa relação conflituosa que com extremo esmero foi costurada desde os primeiros capítulos até culminar num confronto absolutamente tenso, contado sem o disparo de uma única arma.


Porém, repetindo os mesmos equívocos (talvez até um pouco mais) de “2199”, não é que forçaram a barra para que as duas naves se digladiassem, numa cena que apesar das “pirotecnias”, nem de longe replica o mesmo nível de tensão do original no seu “durante” e muito menos de encanto em seu “depois”.


Escancarando a maior falha de um roteiro confuso, cheio de idas e vindas, para justificar ações de alguns personagens, que podem parecer à primeira vista algo correto (roteiristicamente falando), mas que no “frigir dos ovos” não impactam em nada para a trama como um todo, apenas, como disse na minha resenha sobre “2199” para tentar sem sucesso replicar o argumento humanizado de Leiji Matsumoto.
Exemplos?


Temos o caso do líder dos Tigres Negros, Kato. Que num vem e vai sem precedentes, sabota o Yamato sob a justificativa de conseguir a cura para doença do filho, usando uma ferramenta que já tinha sido usada para sabotar a nave pelo tenente gamilon Keyman.


E Keyman que por sua vez também já tinha passado por situação semelhante em ter de fazer escolhas. Que, aliás, acabamos por descobrir depois ter ligações bem próximas a Deslock.
Aliás, esta é mais uma característica repetitiva desta nova versão de “O Cometa Império”, que às vezes mais parece uma sessão de terapia, tamanha a quantidade de neuroses a se resolver em diversos personagens, novamente como eu disse, tentando com isto replicar o toque de humanização que os roteiros de Leiji Matsumoto tinham.




E que dá a impressão que tenta usar de Trilena, aqui numa versão mais próxima a do longa “Adeus Yamato”, como uma espécie de terapeuta de grupo, em especial para Deslock.
Tá bem. É lógico que tudo isto pode ser considerado dentro do escopo do roteiro, e a busca pelo que seria o “amor”. Mas aí caímos na tal filosofia forçada que citei alguns parágrafos acima, criando várias “barrigas” no roteiro que em nada contribuem de fato para o desenrolar da coisa toda.


E quando isto acontece o que é necessário fazer?
Preencher o vazio destas “barrigas” com espetaculares batalhas espaciais. O problema é que aí somos bombardeados pelo exagero que citei. Algo que não vou ficar aqui entrando em minúcias, mas só para citar um caso, há um momento em que para criar uma “superarma”, 2.500 naves gatlantis se unem.


Sim, você não leu errado... 2.500!
Então como a Terra e Gamilon poderiam lidar com tal poderio bélico?


Simples, com o mais malandro e sem-vergonha recurso que já vi numa obra do gênero. Um lapso temporal no centro de nosso planeta, que somos apresentados logo no começo deste remake, e que serviu de desculpa para que naves e mais naves pudessem ser “vomitadas” na nossa frente.


Sem falar no descomunal tamanho do Cometa Império, tão grande que pode esquecer aquela clássica cena de seu pouso na baía de Tóquio, e num formato que mais parece a gaiola do Piu-Piu (sim, aquele mesmo do Frajola) do que um cometa.
Mas tudo é assim tão ruim e confuso? Você deve estar se perguntando.




Bem, na humilde opinião deste escriba, se há um ponto positivo nesta nova versão é o destaque que alguns personagens antigos têm nela, em especial nosso querido sargento Knox/Saito dos Fuzileiros Espaciais, que aqui inclusive sai no braço com o comandante da unidade de tanques dos gatlantis, num embate que consegue ser melhor que a maioria das cenas de batalhas espaciais que vemos.




Ou no caso da filha (neta da dublagem clássica brasileira) do comandante Todo, que originalmente só aparece em “A Crise do Sol”, e que aqui comanda uma nova nave, a Ginga. Uma nave que seria de uma nova classe baseada no Yamato. Pessoalmente não gostei muito da ideia visual da Ginga, mas é nela e sua tripulação que temos aparentemente alguns possíveis spoilers do que poderá vir na próxima série destes remakes.


O que não quer dizer que todos estes destaques tenham sido assim tão felizes como, por exemplo, Toko Katsuragi, que seria nossa conhecida Ivídia, a irmã de Zordar, que passa a ser uma mera espiã, nos privando inclusive da trama na qual ela planeja trair o líder do Cometa Império com a ajuda do general Dier. Uma trama fundamental, pois na versão original é um dos pontos que criam a “virada” para Deslock, que ali começa a se questionar com que tipo de criaturas tinha se aliado apenas para se vingar da tripulação do Yamato.


Não sou nenhum purista, que exige que tudo numa nova versão tenha que ocorrer exatamente igual à obra original, até porque isto tiraria toda a graça de se assistir. Mas há coisas em obras como Patrulha Estelar que não podem ser mexidas de forma alguma, pois alteram o cerne dos personagens, e fazem suas trajetórias na saga ser apenas um ponto a mais quando na verdade deveriam ser seu alicerce.


Acredito que, por um prisma bem pessoal, um dos maiores problemas para se recontar a saga do Yamato resida na questão de direitos autorais.
Nós sabemos que depois de uma guerra judicial de anos o falecido produtor Yoshinobu Nishizaki havia ganhado os direitos sobre a saga e seus personagens. Mas e os roteiros? Sim, os roteiros!


Não quero ficar aqui divagando e especulando demais sobre tais assuntos, até porque não é o foco deste blog, mas é impossível não deixar de pensar que tudo que foi mexido em “2199”, e principalmente aqui em “2202” simplesmente tenha a ver com a tentativa de não pagamento de direitos autorais para Leiji Matsumoto.


E agora ao terminar mais este texto, fico me indagando o que veremos na já anunciada continuação que atenderá pelo título de “2205”.
Sejam estas escolhas quais forem que seus realizadores possam olhar para trás, e focar naquilo que tornou a saga do Yamato uma das obras mais relevantes da ficção científica de todos os tempos.
E que com certeza vai muito além de meras batalhas espaciais.

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Patrulha Estelar e suas vozes inesquecíveis!

  Fazendo uma rápida pesquisa na web, não é assim tão difícil encontrar alguns artigos que citam os dubladores que nos anos 1980 na extinta ...