terça-feira, 12 de maio de 2020

Desmitificando Watchmen

O que faz uma obra se tornar um clássico?
Apenas seus atributos que fazem sua fama num processo natural de “boca a boca” entre seu público?
Ou uma refinada conjunção de fatores, que por vezes só ocorrem para atender a interesses que muitas vezes passam longe de qualquer viés que possa ser considerado artístico?
E o quanto que o público alvo de tal obra é capaz de conseguir interpretá-la corretamente e ainda construir uma opinião de fato pessoal baseada em sua própria perspectiva?
Caso você que esteja lendo tenha estranhado a introdução deste texto, peço que antes de prosseguir em sua leitura faça estas perguntas a si mesmo. Não é preciso tentar buscar alguma resposta agora. Apenas levantei tais questionamentos, pois este com certeza é um dos textos mais fáceis e ao mesmo tempo mais complicados que me propus a fazer.


Pois como já no título está descrito, este artigo se propõe a desmistificar a icônica obra dos quadrinhos escrita pelo “bruxo” Allan Moore e desenhada de forma primária por Dave Gibbons que há anos todos os ditos veículos especializados em cultura pop ficam repetindo se tratar de uma obra-prima.
Rótulo este que pessoalmente sempre contestei por uma série de motivos, que infelizmente de um modo meio didático (coisa que detesto fazer) pretendo explicar, sobre o qual há um culto totalmente descerebrado, norteado por “verdades absolutas” tolas e convenientes que por si só já entram em contradição com a própria estória. Já que muitas (para não dizer todas) as características de Watchmen já tinham sido apresentadas em outras obras antes.
A primeira, mais obvia, factual e inconteste é o seu formato, mais conhecido como “maxi-serie”. Uma estória fechada que corre ao longo de algumas edições, em geral doze. Algo que como sabemos começou lá em 1982 com “Camelot 3000”.
Em condições digamos “normais” e saudáveis de debate isto nem deveria ser preciso citar, mas infelizmente quando se trata de Watchmen e seu séquito de seguidores, é algo que precisa ser citado sim. Até porque existem páginas na web que insistem em divulgar tal informação equivocada como sendo correta, tratando a HQ de Moore como desbravadora do formato.

Camelot 3000 - A verdadeira primeira maxi-série

E por falar em “Camelot 3000”, outra bobagem que os seguidores de Watchmen tentam argumentar é que a clássica HQ de Mike W Barr, e magistralmente desenhada por Brian Bolland não poderia ser considerada uma “HQ de Super Herói” e por isto não deveria ser levada em consideração.
Mas vamos parar por um momento para fazermos um pequeno exercício de memória. Vamos pegar o termo “super-herói” dentro de sua forma mais circunspecta.
Quantos seres incríveis existem em Watchmen? Pelo que eu me lembre o único personagem que se enquadra nesta categoria é o Dr.Manhathan, sendo todos os demais “heróis” da saga pessoas comuns ainda que com certas habilidades que a maioria as pessoas não tem, mas ainda sim, pessoas normais como eu ou você que está lendo.
Ok. Eu sei que neste exato momento se você é um fã (nático) por Watchmen deve estar com a resposta (em forma de pergunta) na ponta da língua, exigindo a contraparte em “Camelot 3000” certo?
E a resposta é: Arthur Pendragon.
Sim! Nosso bom rei, que retornou dos mortos milhares de anos depois. Ou vai me dizer que voltar dos mortos é pouca coisa? E nem vou entrar no mérito do mago Merlin aqui, ou de Percival que teve sua genética alterada.
Explicada esta parte, é preciso entender oque Allan Moore queria mostrar ao escrever Watchmen. E vamos ser sinceros, já se passou tempo suficiente para todos concordarmos que o principal plot da HQ é questionar a validade de heróis e principalmente a validade de seu culto, apenas usando do pano de fundo (como tantas outras obras da época) a questão de um eminente conflito nuclear.
E para isto Moore mostra seus personagens como seres absurdamente falhos, com erros de julgamento e até egoístas em alguns momentos.

Heróis de comportamento falho já haviam sido mostrados bem antes "Watchmen"...

Mas espera um pouco! Isto já tinha sido mostrado bem antes também. Na clássica saga escrita por Dennis O’Neil e soberbamente desenhada por Neal Adams que uniu Lanterna Verde e Arqueiro Verde ainda no comecinho dos anos 1970.
E isto pode ser muito bem exemplificado na icônica cena na qual Oliver Queen descobre que seu protegido Roy Harper se tornou um viciado em heroína, e o verniz de progressista e tolerante de Queen cai por terra.

...como na saga Lanterna e Arqueiro Verde

Tudo bem. Eu sei que neste momento alguém deve estar bradando e rangendo os dentes que Watchmen é um “capítulo” diferente na história dos quadrinhos, pois supostamente foi a primeira HQ a receber o rótulo de literatura, principalmente pelo suposto “teor adulto”.
Bem, acredito que este “teor adulto” já foi bem explicado nos parágrafos acima, não é? Mas ainda sobra a questão da literatura.

"A Torre do Elefante" - Um dos contos de Robert Howard transposto para os quadrinhos

Poderia até ficar citando exemplos de obras que saíram da literatura convencional e foram transpostas para os quadrinhos, como alguns contos de Robert E. Howard.
Mas para explicar este factoide melhor vou dividir as minhas considerações em duas partes: “Quem disse” e “Quem acreditou em quem disse”.
Na parte do “Quem disse” precisamos entender a época em que Watchmen, assim como outras HQ’s como “Cavaleiro das Trevas” ou “A Queda de Murdock” foram lançadas.


Em meados dos anos 1980 a mídia sobre cultura pop começava a querer aprender a andar com as próprias pernas, mas assim como qualquer bebê que tenta o mesmo, mais tropeçava e caía que realmente andava. E óbvio que como uma criança pequena, estava sempre tutelada por um adulto por perto, neste caso um veículo de comunicação maior. Mesmo se levarmos em consideração veículos de comunicação que supostamente seriam ligados à cultura pop como algumas revistas com nome de bandas de rock por exemplo.
Isto quando os ditos “especialistas” (argh!) no assunto não estavam atrelados aos famigerados “segundos cadernos” dos tabloides matutinos.
E não pensem que tais “jornalistas” eram pessoas experientes na arte da observação não. Salvo honrosas exceções, estas figuras que infelizmente (principalmente em países subdesenvolvidos culturalmente) tiveram uma esfera de influência razoável pelo menos até a segunda metade da década de 90, sempre se mostraram formas de vida ávidas em evoluir rápido em seu meio.
Para os quais o mais importante era se promover fazendo parecer para os menos experientes que aquilo que eles resenhavam naquele exato momento era a maior novidade do planeta, quase a reinvenção da roda.
Mesmo que soubessem que não era nada daquilo.


Aí entramos na segunda parte, “Quem acreditou em quem disse”.
E para descrever isto preciso contar um fato real.
Na década de 1990 ainda tinha por hábito ler algumas resenhas de música que vinham no segundo caderno de um conhecido tabloide (ainda que costumasse a não concordar com nada ali). E certa vez li uma resenha do álbum “Cross Purposes” do Black Sabbath. Naquele mesmo dia, só que na parte da tarde, estava eu numa loja de discos, e ao meu lado dois sujeitos de pouca idade que conversavam.
E um destes cidadãos descreveu o mesmo álbum do Black Sabbath para o amigo, usando ipis literis, as mesmas palavras do artigo postado no tabloide naquela manhã, como se as palavras fossem dele!
Um episódio real, que na época me abriu os olhos para a verdade do público médio de qualquer forma de arte, que se considera muito diferente por ler determinada obra, ou ouvir determinada música.


Acredito que com isto tenha conseguido explicar bem como o público alvo daqueles que promoveram a aura que envolve “Watchmen” se comporta. E isto também serve para explicar como o próprio Allan Moore e outros escritores em algumas obras, sabendo como funcionam as cabeças de seu público alvo, inserem elementos para criar oque hoje chamamos de hype.
Aspectos que trabalhos seminais como a “Camelot 3000” e a saga “Lanterna e Arqueiro” já citadas, ou até “Esquadrão Atari”, cada um com sua devida parcela de responsabilidade já tinham mostrado, mas que não foram esfregados na cara do leitor como uma torta em um filme pastelão.


Watchmen acaba por ser uma mistura de muitas outras situações que vieram antes. Com a única diferença que Moore, seja na forma de apelações baratas representadas no Dr.Manhathan e uma pseudofilosofia preguiçosa, ou em frases de efeito de Ozzymandias, um dos antagonistas mais precariamente construídos da história, sabe exatamente quais cordões puxar e destacar.
Isto torna Watchmen uma obra ruim? Não! De forma alguma.
Isto seria como se eu dissesse que Mogo, o Lanterna Verde que é um planeta, outra criação de Moore, fosse ruim, só porque o conceito de um planeta como um único ser vivo consciente já tivesse sido mostrado, por exemplo, na animação “Patrulha Estelar 3 - A Crise do Sol”.

Em "Monstro do Pântano", Moore apresenta um texto bem mais maduro que em "Watchmen"

Apenas que todos os pontos que são exacerbadamente bradados pelos “entendidos” na matéria que tornariam Watchmen um suposto “ponto de virada” já haviam sido abordados anteriormente, e sobre os quais o próprio Alan Moore foi bem mais feliz em escrever em outras obras como “Monstro do Pântano”, só para citar um exemplo.


E que “Watchmen” mesmo com suas inegáveis boas características é acima de tudo obra do momento em que foi lançada, a forma como foi promovida e a sagacidade de seu criador em entender como funciona a mente de quem queria atingir, mas que pouco arrisca de fato, por vezes se escorando em cenas que beiram o gore e um glossário recheado de xingamentos para se fazer parecer de transgressora.
E que se contém alguma característica de fato original, foi ter contribuído para o bizarro fenômeno da gourmetização dos quadrinhos.



terça-feira, 14 de abril de 2020

Patrulha Estelar – Space Battleship Yamato 2202


Com a boa aceitação da nova versão da Patrulha Estelar, apesar de nem todas as mudanças em relação à obra original terem sido assim tão felizes, era obvio que seus realizadores não perderiam muito tempo.
E em 25 de fevereiro de 2017 chegava aos cinemas nipônicos o primeiro dos sete longas metragens que tinham como pretensão recontar a saga do que tornou Patrulha Estelar um ícone da cultura pop mundial.
Space Battleship Yamato 2202!


E se resenhar Yamato 2199 já não foi uma tarefa das mais fáceis, resenhar a nova versão para a saga do “O Cometa Império” é com certeza mais difícil ainda.
O que em tese não seria para ser, já que aqui ao contrário de 2199, que ainda guardava alguma similitude com a saga original de “Busca Por Iscandar”, pouca coisa sobrou de “O Cometa Império” que conhecemos, se tornando quase que uma “obra original”.


O porquê disto?
Bem, primeiro vamos à estória.
Depois da guerra de anos, terráqueos e gamilons passaram a coexistir em paz cooperando entre si.


Porém, esta paz só existia mesmo entre os dois povos.
Pois logo de cara, somos bombardeados pela guerra que já estava sendo travada entre os gatlantis , o nome criado para o povo do Cometa Império e que aqui se reproduz por clonagem, e as forças unidas da Terra e Gamilon.
À primeira vista, assim como algumas tramas de 2199, isto parece algo incrível, até porque a guerra entra gamilons e gatlantis já tinha sido mostrada de forma rápida na primeira saga, demonstrando certo grau de planejamento.


Contudo, oque se vê aqui é mais uma vez a tentativa dos realizadores desta nova Patrulha Estelar em manter uma relação de proximidade com uma parcela mais nova do público, desconsiderando aquilo que de fato tornou a saga do Yamato algo diferenciado.
Pois todo clima de mistério que envolvia aquele novo inimigo desaparece aqui. Toda a trama de como o Cometa Império cria o caos no planeta cortando o suprimento de energia aqui só surge num lampejo lá no final da série.


Mas calma. Isto é só o começo de uma saga que prima por dois pontos básicos, o exagero e a filosofia forçada. E que de quebra ainda resolveu criar um amálgama entre as duas versões de “O Cometa Império”, a do longa-metragem “Adeus Yamato” e a segunda série de tevê que fez o retcon da estória.
Aqui no blog já resenhei algumas obras que pela quantidade de detalhes que cercam sua produção ou curiosidades, me deram bastante trabalho para concluir o texto sem cair para o didatismo que sempre procuro evitar, mas confesso que no caso de “Yamato 2202” esta tarefa se complica e muito devido ao verdadeiro “sarapatel de caroço” que fizeram com o roteiro.


E principalmente por não conseguir saber ao certo em alguns casos se as decisões de roteiro tomadas de fato faziam parte de um plano traçado ou em alguns casos foram apenas tentativas de consertar os erros cometidos em “2199”.
No que diz respeito aos protagonistas pouca coisa mudou em relação à série anterior.


Como no caso de Derek Wildstar/Sussumu Kodai que permanece sendo apenas um oficial, não assumindo o comando do Yamato que acaba indo parar mesmo nas mãos de Gideon/Hijikata, assim que este é resgatado junto com os Fuzileiros Espaciais, mas que pelo, menos não mais está tutelando Lola/Yuki.


Oque não significa que a namorada de Derek tenha deixado de ser nesta nova versão, a forma de vida mais sem sentido do cosmos.
E a Andrômeda? Esta acaba nas mãos de Yamanani. Sim ele mesmo, que na saga original tinha assumido o comando do Yamato no longa-metragem “Para Sempre Yamato”, e que aqui protagoniza um dos pontos mais baixos desta nova versão.




Na série de tevê clássica do “Cometa Império” um dos momentos que ficaram mais marcados na memória de cada admirador da saga foi o embate, sem um único disparo entre o Yamato e a Andrômeda, e seus capitães. Numa relação conflituosa que com extremo esmero foi costurada desde os primeiros capítulos até culminar num confronto absolutamente tenso, contado sem o disparo de uma única arma.


Porém, repetindo os mesmos equívocos (talvez até um pouco mais) de “2199”, não é que forçaram a barra para que as duas naves se digladiassem, numa cena que apesar das “pirotecnias”, nem de longe replica o mesmo nível de tensão do original no seu “durante” e muito menos de encanto em seu “depois”.


Escancarando a maior falha de um roteiro confuso, cheio de idas e vindas, para justificar ações de alguns personagens, que podem parecer à primeira vista algo correto (roteiristicamente falando), mas que no “frigir dos ovos” não impactam em nada para a trama como um todo, apenas, como disse na minha resenha sobre “2199” para tentar sem sucesso replicar o argumento humanizado de Leiji Matsumoto.
Exemplos?


Temos o caso do líder dos Tigres Negros, Kato. Que num vem e vai sem precedentes, sabota o Yamato sob a justificativa de conseguir a cura para doença do filho, usando uma ferramenta que já tinha sido usada para sabotar a nave pelo tenente gamilon Keyman.


E Keyman que por sua vez também já tinha passado por situação semelhante em ter de fazer escolhas. Que, aliás, acabamos por descobrir depois ter ligações bem próximas a Deslock.
Aliás, esta é mais uma característica repetitiva desta nova versão de “O Cometa Império”, que às vezes mais parece uma sessão de terapia, tamanha a quantidade de neuroses a se resolver em diversos personagens, novamente como eu disse, tentando com isto replicar o toque de humanização que os roteiros de Leiji Matsumoto tinham.




E que dá a impressão que tenta usar de Trilena, aqui numa versão mais próxima a do longa “Adeus Yamato”, como uma espécie de terapeuta de grupo, em especial para Deslock.
Tá bem. É lógico que tudo isto pode ser considerado dentro do escopo do roteiro, e a busca pelo que seria o “amor”. Mas aí caímos na tal filosofia forçada que citei alguns parágrafos acima, criando várias “barrigas” no roteiro que em nada contribuem de fato para o desenrolar da coisa toda.


E quando isto acontece o que é necessário fazer?
Preencher o vazio destas “barrigas” com espetaculares batalhas espaciais. O problema é que aí somos bombardeados pelo exagero que citei. Algo que não vou ficar aqui entrando em minúcias, mas só para citar um caso, há um momento em que para criar uma “superarma”, 2.500 naves gatlantis se unem.


Sim, você não leu errado... 2.500!
Então como a Terra e Gamilon poderiam lidar com tal poderio bélico?


Simples, com o mais malandro e sem-vergonha recurso que já vi numa obra do gênero. Um lapso temporal no centro de nosso planeta, que somos apresentados logo no começo deste remake, e que serviu de desculpa para que naves e mais naves pudessem ser “vomitadas” na nossa frente.


Sem falar no descomunal tamanho do Cometa Império, tão grande que pode esquecer aquela clássica cena de seu pouso na baía de Tóquio, e num formato que mais parece a gaiola do Piu-Piu (sim, aquele mesmo do Frajola) do que um cometa.
Mas tudo é assim tão ruim e confuso? Você deve estar se perguntando.




Bem, na humilde opinião deste escriba, se há um ponto positivo nesta nova versão é o destaque que alguns personagens antigos têm nela, em especial nosso querido sargento Knox/Saito dos Fuzileiros Espaciais, que aqui inclusive sai no braço com o comandante da unidade de tanques dos gatlantis, num embate que consegue ser melhor que a maioria das cenas de batalhas espaciais que vemos.




Ou no caso da filha (neta da dublagem clássica brasileira) do comandante Todo, que originalmente só aparece em “A Crise do Sol”, e que aqui comanda uma nova nave, a Ginga. Uma nave que seria de uma nova classe baseada no Yamato. Pessoalmente não gostei muito da ideia visual da Ginga, mas é nela e sua tripulação que temos aparentemente alguns possíveis spoilers do que poderá vir na próxima série destes remakes.


O que não quer dizer que todos estes destaques tenham sido assim tão felizes como, por exemplo, Toko Katsuragi, que seria nossa conhecida Ivídia, a irmã de Zordar, que passa a ser uma mera espiã, nos privando inclusive da trama na qual ela planeja trair o líder do Cometa Império com a ajuda do general Dier. Uma trama fundamental, pois na versão original é um dos pontos que criam a “virada” para Deslock, que ali começa a se questionar com que tipo de criaturas tinha se aliado apenas para se vingar da tripulação do Yamato.


Não sou nenhum purista, que exige que tudo numa nova versão tenha que ocorrer exatamente igual à obra original, até porque isto tiraria toda a graça de se assistir. Mas há coisas em obras como Patrulha Estelar que não podem ser mexidas de forma alguma, pois alteram o cerne dos personagens, e fazem suas trajetórias na saga ser apenas um ponto a mais quando na verdade deveriam ser seu alicerce.


Acredito que, por um prisma bem pessoal, um dos maiores problemas para se recontar a saga do Yamato resida na questão de direitos autorais.
Nós sabemos que depois de uma guerra judicial de anos o falecido produtor Yoshinobu Nishizaki havia ganhado os direitos sobre a saga e seus personagens. Mas e os roteiros? Sim, os roteiros!


Não quero ficar aqui divagando e especulando demais sobre tais assuntos, até porque não é o foco deste blog, mas é impossível não deixar de pensar que tudo que foi mexido em “2199”, e principalmente aqui em “2202” simplesmente tenha a ver com a tentativa de não pagamento de direitos autorais para Leiji Matsumoto.


E agora ao terminar mais este texto, fico me indagando o que veremos na já anunciada continuação que atenderá pelo título de “2205”.
Sejam estas escolhas quais forem que seus realizadores possam olhar para trás, e focar naquilo que tornou a saga do Yamato uma das obras mais relevantes da ficção científica de todos os tempos.
E que com certeza vai muito além de meras batalhas espaciais.

LINK









quarta-feira, 25 de março de 2020

Logan


     “A Estátua da Liberdade foi há muito tempo.”


O que esperar de um filme rotulado como de super-heróis?
Sempre esperei uma boa estória cujo fantástico e imponderável sirva apenas de pano de fundo para não apenas entreter, mas pensando numa audiência ainda jovem ao menos tentar promover alguma forma de edificação.
Então, se você está atrás apenas de um filme cheio de correria, tiroteio e um leve sopro de roteiro, com atuações caricatas e uma direção que só se preocupe com o tal do “service”, tenho que dizer que este não é caso aqui.


Contudo, se procura um filme denso, que como poucos colocou em debate as relações humanas, então pode ter certeza “Logan” é o filme. Sim, relações humanas, pois acima de tudo é sobre isso que este filme versa.
O como cuidamos de quem gostamos, o quanto que oque consideramos correto é de fato certo, e o quanto nos cuidamos pra aqueles que gostamos.
E é com esta proposta que o mundo foi apresentado ao último filme em que o australiano Hugh Jackman encarnou o mítico James Logan, o Wolverine. Aqui numa versão cansada e cujos poderes volte e meia falham.


Repetindo a parceria com o diretor James Mangold (Copland/ Ford vs Ferrari), que já havia dirigido o filme solo anterior do personagem, Wolverine Imortal.
E nisso talvez nenhum outro filme dito de “super-herói” tenha sido tão feliz, pois mesmos entre os filmes ditos “sérios” foram pouquíssimos aqueles que conseguiram abordar de modo cru e ao mesmo tempo lúdico oque é mostrado aqui, algo que se mostra latente logo na primeira cena entre Logan e Charles Xavier.


Uma cena magistral na qual Patrick Stewart simplesmente oblitera o protagonista Hugh Jackman, ao nos apresentar um Professor Charles Xavier frágil e debilitado por uma doença degenerativa cerebral (não explicada no roteiro) e que se culpa por eventos do passado dos quais teria sido o responsável.


Uma representação tão perfeita de como pessoas nestas condições se comportam, chegando inclusive a perder algumas “travas sociais/morais” que para a maioria esmagadora do público médio a cena acaba por provocar risos de forma absolutamente equivocada.
E se de um lado temos esta atuação pautada numa absoluta e incrível sutileza, por outro somos brindados pela pura energia que é Daphne Keen e sua Laura/ X-23.


Natural e visceral na medida certa, a menina que aqui faz sua estreia nos cinemas acaba por roubar várias das cenas que atua numa representação bem diferente do que habitualmente o público se acostumou a ver nas HQ’s com a personagem nascida na animação “X-Men Evolution”, mas que sem dúvida é a que de fato se encaixa na proposta do filme.

O diretor James Mangold orienta Daphne  e Hugh durante as filmagens

Numa decisão acertadíssima do diretor James Mangold, que com absoluta sapiência se afastou totalmente do estereótipo da heroína adolescente sexy. E que ainda de sobra consegue uma interessante mistura de “western” e “roadie-movie”, nesta despedida de Hugh Jackman de Wolverine, em parte bancada pelo próprio ator que aceitou ter seu cachê reduzido para bancar o plano de um filme denso e pesado que os executivos do estúdio duvidavam do êxito.
Agora na parte da ação em si por incrível que pareça é que residem os pouquíssimos pontos fracos de “Logan”, pois algumas das ações que ocorrem, podem facilmente ser antecipadas por um espectador um pouco mais atento através de ganchos explícitos no decorrer do filme que em momento algum nos surpreende.


Momento algum? Não espera.
Existe sim tal momento, mas mesmo nele há uma derrapada de leve ao usarem de um clichê mais do que conhecido, mas que lógico não compromete nem um pouco um filme cujo foco passa longe de pirotecnias de embates com personagens sobre um fundo de CGI colocado no pós-produção.


E ainda vale ressaltar o problema que norteia muitos dos filmes com personagens da Marvel, ou seja, a falta de um antagonista a altura do herói do filme, algo que no meu entender se resolveria muito facilmente com a inserção do Dente de Sabre, que facilmente caberia dentro do contexto. Já que Donald Pierce (Boyd Holbrook) e os Carniceiros não parecem serem uma grande ameaça na maioria das vezes.


Quanto a outros mutantes conhecidos, praticamente não os temos, sendo tal tipo de presença limitada ao Caliban vivido por Stephen Merchant, um ator mais conhecido por comédias, mas que aqui compõe talvez o mais desesperançoso personagem do filme.


Alguns mais afoitos na época do lançamento chegaram a bradar este se tratar do melhor filme do gênero já feito, mas na opinião deste escriba, pelos motivos apresentados, tal título ainda pertence a Batman O Cavaleiro das Trevas.
Entretanto, “Logan” com suas reflexões costuradas ao longo de toda sua narrativa, as atuações primorosas de seus protagonistas que passam longe das caricaturas de personagens de HQ, nos fazendo nos importar e nos envolver com seus problemas que ao fim percebemos são os mesmos que os nossos, é um verdadeiro tapa na cara com luva de adamantium em alguns “salvadores da pátria” que pensam que suas ideias são equivalentes à descoberta da pólvora.


Um filme pesado é o que alguns dizem? Talvez.
Mas que nos faz sentir absolutamente leves ao terminar de assisti-lo, como numa espécie de reconexão com algo que mesmo sem perceber havíamos até esquecido que existia.
LINK



Patrulha Estelar e suas vozes inesquecíveis!

  Fazendo uma rápida pesquisa na web, não é assim tão difícil encontrar alguns artigos que citam os dubladores que nos anos 1980 na extinta ...